Igreja do Colégio coloca écran na capela de Nossa Senhora da Luz; historiador lamenta “mau gosto” e falta de sensibilidade

O écran, recolhido… mesmo assim, não há como esconder a forma como choca com a decoração histórica, de época, do edifício.

Fotos: Rui Marote

Na Igreja do Colégio, sopram ventos de mudança. A “inovação tecnológica” está na ordem do dia e, como há que dar a ver aos fiéis e, aparentemente, a ostentação decorativa que caracteriza este templo cristão do século XVII não é suficiente, decidiu-se colocar um écran para projecção, como se de um cinema se tratasse.

Não haveria nada a objectar, não fosse o facto dessa instalação ser de gosto obviamente discutível, e mais ainda, colocar eventualmente em risco um património histórico, com a afixação por parafusos, como se pode ver nas imagens.

Há quem discorde desta atitude numa igreja na qual já foram investidas verbas significativas em restauro, e tenha feito chegar ao FN esta situação.

A Igreja de São João Evangelista (dita do Colégio) marca a transição do maneirismo internacional para o barroco português. Considerada uma das mais ricas igrejas da Madeira, nela já se restauraram as principais pinturas a óleo, os tectos e os frescos, além de esculturas e demais pintura geral.

O Funchal Notícias foi ouvir sobre esta situação o historiador e professor universitário Nelson Veríssimo, que habitualmente colabora nas nossas páginas com artigos de opinião regulares. O académico mostrou-se também muito mal impressionado pelas imagens que viu.

“Acho de muito mau gosto a colocação de um écran na antiga capela de Nossa Senhora da Luz, que, no passado, era de grande devoção dos estudantes do Colégio dos Jesuítas e, depois do seu encerramento, dos alunos do Liceu, ali instalado”, considerou. “Não só prejudica a leitura do retábulo de talha dourada, de finais do século XVII, característico da transição do maneirismo para o barroco, mas revela também a falta de sensibilidade estética ou de educação visual do responsável pela Igreja do Colégio, que está classificada como monumento nacional”.

Nelson Veríssimo não se fica por aqui e denuncia que, aliás, “já pelo Natal, é armado um tosco e escandaloso estábulo defronte do altar-mor, onde está um retábulo datado de 1660, que em nada dignifica aquele espaço. Acho que a Direcção Regional de Cultura, que tem pago avultadas obras de restauro neste templo, deveria estar mais atenta e mandar retirar, de imediato, o inestético écran. Embora os danos da sua afixação sejam provavelmente irremediáveis”, lamenta.

Nelson Verissímo
Foto: Celso Caires

E conclui: “Muito sinceramente, esperava outra atitude do vigário-geral da Diocese para com o património artístico”.