Apreciação crítica do espetáculo Teatral “OVNI”

Seis atores/personagens juntaram-se para dar corpo a um espectáculo que assinala quase duas décadas da Associação Contigo Teatro.
Partindo do texto base “À beira do lago dos Encantos” de Maria Alberta Menéres, o grupo batizou a peça com um surpreendente acrónimo, mais precisamente “OVNI” (Onde vive a nossa infância).
E digo surpreendente porque à partida poder-se-ia pensar unicamente em domínios da ficção científica, embora essa primeira leitura não seja de todo equívoca, uma vez que a ação decorre num planeta desconhecido e num tempo incerto, com inversão de papéis, pois neste mundo de vida alienígena são os filhos que orientam os pais, numa tentativa de “mutatis mutandi”, “na fuga ao comodismo rotineiro, despertando-os para a reinvenção do mundo e para um encantamento da existência humana”, tomando de empréstimo as palavras de Maria José Costa, o que faz da peça uma obra aconselhável a todas as idades pelo seu carácter de eterna primavera de pés descalços no chão da vida.
Globalmente, a peça está muito bem conseguida, e perfeitamente representada pelos atores, oferecendo aos espetadores uma viagem ao lado de dentro e de fora do lago dos encantos, à sua sombra e à sua luz.
Com certeira encenação de Ricardo Brito, tudo gira em torno da importância dos sentimentos, da amizade e da permanente demanda do conhecimento. Ressalta a pergunta sobre o que é o Amor, sobre qual a sua essência e compaginação com o tempo, já que o tempo é uma promessa para o amor, mas é preciso dar-lhe tempo, conforme do texto sobressai.
A vertente do momento presente, com a fixação das “selfies” e das supostas manifestações de agrado ou desagrado representadas nas redes sociais também não estiveram ausentes, conferindo ao texto uma vertente crítica muito atual, sobre a qual vale a pena refletir.
Uma palavra igualmente elogiosa não poderia deixar de aqui figurar para o fundo musical de Vivaldi, sempre devidamente contextualizado e simbolicamente pontuado.
Omnipresente em palco está claramente o sonho, mas igualmente a efemeridade e inexorabilidade do tempo tomado como uma espécie de vórtice de onde nunca saímos. Apenas a roupagem muda, dizia-se.
Porém, e não obstante a chuva, à barca da vida não faltavam remos para seguir de olhos postos no horizonte, não se descurando a convicção de que tudo pode voltar atrás e de tudo pode ser interrompido.
Como afirmou Arthur Schopenhauer, “Toda a gente deve atuar no teatro de marionetas da vida e sentir o arame que nos mantém em movimento”.

O repto a que Maria José Costa, presidente da associação, se abalançou quando criou a expectativa de que a nova produção para os jovens e público em geral pudesse ser “pretexto para uma reflexão crítica sobre quem somos e como sentimos o mundo à nossa volta” foi, sem dúvida, inteira e brilhantemente sucedido, sendo a mesma consideração extensiva ao intuito de levar às tábuas “um trabalho conjunto de descoberta e de partilha com o público”.
Em suma, indo ao encontro do título desta obra que vivamente se recomenda ,“Ovni” tem a virtude de trazer à colação a afirmação de Augusto Branco, segundo a qual “tal como no teatro, o mistério da vida não termina quando se abrem as cortinas, ele apenas se inicia…”.