Crónica Urbana: Recordando o antigo comboio de Natal…

Rui Marote
Há épocas que são partes da nossa história e capazes de nos fazer recordar bons momentos. Digo  isso quando em pensamento volto à minha infância e recordo, quase “sentindo”, a primeira vez que vi e toquei num comboio verdadeiro.
Lembro-me da montra do Bazar do Povo, que nesta época natalícia, noutros tempos bem engalanada, exibia um comboio eléctrico que fazia as delícias das crianças. Com o nariz esborrachado contra a montra, eu contemplava os vagões das carruagens deslizando nas linhas férreas que percorriam a maior montra que o Funchal tinha no comércio de então. O frio da época fazia com que ao respirar junto do vidro se desse uma condensação que por vezes causava um inoportuno nevoeiro, deixando por alguns momentos de ver o comboio em circulação.

Outra montra que recordo na rua dos Ferreiros era a Casa Paquete, com as suas famosas bonecas.
Passados cinquenta e cinco anos, revivo a época em que vi pela primeira vez um comboio verdadeiro.
Quando regressava hoje a casa para almoçar, atravessei o Jardim Municipal que está cheio de ornamentações natalícias para a “garotada” e não resisti a fotografar a alegria das crianças em percorrer as carruagens de um comboio.
Não era o comboio do Bazar do Povo de há sessenta e cinco anos atrás, hoje loja chinesa, mas sim um divertimento para as crianças desfrutarem, sem qualquer barreira física a impedi-los de tocar.
Na primeira vez em que vi um comboio verdadeiro, tinha já os meus dezoito anos. Foi quando me desloquei pela primeira vez ao rectângulo, para participar no campeonato nacional de hóquei em patins, a bordo do navio “Uige”.
Vi pela primeira vez  o comboio, o eléctrico, um autocarro de dois andares…. Os meus olhos pareciam querer saltar das órbitas e fiz questão de colocar a minha mão numa carruagem estacionada no Cais do Sodré para me certificar de que era verdadeira.

Com certeza muitas das crianças que hoje brincavam descontraidamente, percorrendo os vagões numa correria, não tiveram oportunidade de ver um comboio ao vivo. Embora a Constituição nos conceda hoje  a suposta continuidade territorial, a existência de um serviço de mobilidade não é compatível com a maioria das bolsas dos madeirenses, que para viajar têm de ver o seu dinheiro cativo, para só mais tarde o voltarem a receber.