Dois anos, umas zangas

Para além de tudo aquilo que, espalhado por esse mundo globalizado, diz-se, nos vai apoquentando e obrigando a reflectir, há, no plano interno, agora que se estão a completar dois anos de existência de um governo, o da República Portuguesa, que resulta, pela primeira vez na História da nossa democracia, de um acordo entre o PS, o PCP, o BE e o PEV, razões para que deixe “à solta”, como tenho feito em outras ocasiões, o meu sentimento sobre esta auspiciosa aventura de estabilidade política e de sucesso governativo, de par com outras inquietudes, outras perplexidades, outras indignações, – todos temos direito à indignação -, outras reservas, outros receios.
Ontem, na Assembleia da República, foram aprovadas as Grandes Opções do Plano e o terceiro Orçamento de Estado, o OE/2018, da presente legislatura. Com execuções orçamentais rigorosas, sem necessidade de orçamentos rectificativos e com o cumprimento das metas que inspiram a sua elaboração constituindo um sucesso passível de reconhecimento internacional, Portugal e os portugueses estão de parabéns e o governo é, naturalmente, credor do respeito que é devido a quem, no exercício de funções públicas da maior exigência, dignifica as escolhas, empenha toda a sua competência, interpreta com correcção as motivações, cumpre o que promete e honra a democracia.
Para mim que, como é sabido não sou de “arcas-encoiradas”, lembrando o grande Aquilino, e todos sabem dos meus gostos e preferências políticas, ter a possibilidade de estar aqui hoje a fazer o reconhecimento óbvio dos sucessos obtidos em tudo o que já se repete com gosto e como garantia real, – a redução do défice, a redução da dívida, o crescimento económico, a queda espantosa do desemprego, o aumento do emprego, a melhoria do rating da República, o aumento das exportações, o aumento do investimento, a queda das taxas de juro dos empréstimos, o aumento da confiança e da produtividade, o crescimento da produção industrial e, parecendo impossível, tudo isto, num ambiente de restituição aos portugueses, com a prudência que a situação postula, de uma parte significativa do que lhes havia sido subtraído em nome de um alegado empobrecimento obrigatório e penitencial… -, é o mais gratificante dos exercícios e faço– o, portanto, com gosto e com o sentimento sincero de compreender os que esperam mais, mais consolidado e que exigem sejam dadas condições ao executivo para que o possa fazer no cumprimento do seu programa, dos acordos parlamentares e interpartidários assinados e das condições da União Europeia que Portugal firmou e se comprometeu a respeitar e honrar. Sem estremecimentos, sem hesitações, sem sucumbir à imoral e ilegítima pressão e desgaste a que estava e continua sujeito por parte da comunicação social, de toda ela, o governo cumpre o seu desígnio fundamental: recolocar Portugal e os portugueses perante si próprios, perante a Europa e perante o Mundo enquanto espaço de responsabilidade, de modernidade e de futuro.
Dois anos difíceis. Jornais e televisões, incluindo a pública, nos seus diferentes formatos editoriais e substituindo-se a uma oposição frágil, inconsistente, sem ideias e irracionalmente ressentida, protagonizada pelo PSD e pelo CDS, abdicaram de tudo o que poderia constituir um contributo sério para uma informação isenta e plural e, em vez disso, passaram a zurzir com uma demencial agressividade tudo o que saísse de São Bento, da Gomes Teixeira ou de um qualquer outro lugar onde “cheirasse” a governo e acordo à esquerda, tivesse visibilidade ou fosse comentável. Uma comunicação social, incluindo a pública, comprometida ideologicamente, comprometida economicamente e ao serviço de inconfessáveis interesses, encarregou-se de explorar até ao limite a anunciada vinda do mafarrico, desvalorizou os sucessos, sobreavaliou os que o não foram e rebolou-se, sem pudor e sem vergonha, nos incêndios e nos dramas por eles causados, ultrapassou os limites do verosímil na farsa dos roubos dos paióis, ensaiou, sem resultado visível, o caos continuado com o surto de legionella e permanece, atenta e dedicada, com os seus profissionais e os seus “comentadores” criteriosamente escolhidos, a espiolhar as dificuldades, as angústias, os dramas pessoais, familiares e sociais e a carregar, sem dó, nas dolorosas feridas que persistem.
E queixam-se, vitimizando-se, mesmo os responsáveis por espaços informativos que, ao longo dos anos, haviam ganho um estatuto de referência, de estarem a perder compradores, leitores, espectadores e a serem substituídos pelas redes sociais (1) que abominam e a quem acusam de todos os males, sem fazerem, como lhes competiria, o mais pequeno exercício de autocrítica, preparando a bagagem para um percurso mais exigente, mais trabalhoso, independente, plural e democrático. Esta comunicação social, acoitada numa isenção que não pratica e num pluralismo de fachada, exibe as suas preferências, as suas escolhas, os seus mais criticáveis objectivos enquanto veículos de informação e opinião.
Felizmente a realidade tem-se encarregado de os desdizer.
Quase a terminar, uma nota sobre um tema a que não podia ficar indiferente. Um administrador não executivo da TAP resolveu, em vez de tentar encontrar soluções negociadas para os problemas criados pelo modelo de subsídio de mobilidade em vigor para os residentes na Região Autónoma da Madeira, tentar ter humor dizendo que os madeirenses e porto-santenses, periodicamente, se entretêm com a situação por ele, modelo, criada.
Pela gravidade da questão a tratar e dos alvos que atinge, no lugar da pretensa ironia deveria estar seriedade, contenção e empenhamento no encontrar de alternativas que reponham equilíbrio, sensatez e justiça no modo como, neste caso, são tratados os nossos concidadãos aqui residentes.
Apesar do momento de pressão política a que está sujeito neste momento, por força do Congresso que se avizinha, o líder do PS-M, veio a terreiro fazer o que lhe competia: criticar a ligeireza do ditério, responsabilizar o seu autor e reivindicar, para além da resolução dos problemas pendentes sobre a matéria, um comportamento face à Madeira e aos madeirenses em que sobressaia o respeito que estes reivindicam e merecem.
Este gesto, contudo, para além do aplauso de que é credor, é mais, muito mais, do que um acto político isolado; é, isso sim, mais um, no quadro de uma actuação que, pela sua qualidade, permite acalentar a esperança de que, para além das pequenas ambições de alguns, o PS-M saberá interpretar o que lhe é exigido e ao que está obrigado, e a que deverá ser capaz de corresponder com alegria e convicta determinação.

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PS:
A Casa da Democracia, o Parlamento, tem toda a legitimidade para ouvir quem quiser, – cidadãos, empresas, instituições -, no âmbito das actividades que desenvolve. Estar disponível para colaborar nessas audições é uma exigência da cidadania e da democracia.

Também eu coloco sob a maior reserva as redes sociais na utilização que lhe vai sendo dada e esforço-me por ser criterioso na sua utilização enquanto utensílio de diversão, informação e consulta.

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Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.