“Prometeu Agrilhoado”, uma Tragédia em cena

A OFITE | Oficina de Teatro do Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos, estreou no passado dia 27 de outubro, um novo espetáculo, “Prometeu Agrilhoado”, a partir de Ésquilo. Depois, tiveram em cena nos dois dias seguintes, sempre com casa cheia.

Mas para quem ainda não assistiu, a esta peça teatral, que é um texto marcante da dramaturgia mundial, tem mais algumas oportunidades, nomeadamente, dia 3 e 4 de novembro, pelas 21h00 e no dia 5 de novembro, numa última sessão, pelas 18h00. Os espetáculos acontecem no auditório do Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos e contam com entrada livre, por ordem de chegada e mediante a capacidade da sala.

Nesta história teatral, tudo acontece depois de Prometeu, ter ajudado  Zeus a subir ao Trono dos deuses. Porém, Prometeu será traído pelo próprio Zeus que ao se tornar Senhor absoluto do Olimpo, planeia aniquilar a humanidade.

Prometeu, desaconselha Zeus, mas não sendo ouvido, rouba-lhe o fogo e dá aos humanos. Com este gesto, Prometeu dá à humanidade o acesso à Ciência, à matemática, às letras e ensina-os a serem senhores da natureza. Zeus irritado manda que Hefesto – o deus ferreiro –, prenda Prometeu acorrentado a um rochedo de onde não se possa soltar.

Já preso,  Prometeu recebe solidariedade de Oceano – deus dos Mares –, que se propõe a pedir pela sua liberdade, mas Prometeu recusa, sabendo que Zeus não o perdoará, nem a ele e nem a Oceano por defendê-lo.

Durante o seu martírio, Prometeu recebe a visita de Io, uma linda jovem por quem Zeus se apaixonara. No entanto, Io, é castigada pelos ciúmes de Hera, a mulher de Zeus. Io vive vagueando de país em país, enquanto é perseguida e molestada por uma espécie de moscão, que não a deixa ficar sossegada em qualquer lugar. A conversa entre Io e Prometeu é uma das passagens mais belas da literatura, pois apesar de serem vítimas do poder tirano de Zeus, ainda têm esperança num futuro promissor.

Por fim o diálogo entre o Prometeu e Hermes, que fora enviado por Zeus, é um momento fundamental para se ver o combate de ideias e ideais, entre a liberdade de falar de Prometeu, mesmo preso ao rochedo e o aprisionamento da liberdade de quem está solto (Hermes). São trechos maravilhosos em que Prometeu rejeita qualquer aliança com Zeus e prevê o fim do próprio tirano.

Esta história, de certa forma, pode ser comparada com muitas situações atuais, nas mais diversas áreas, pois Prometeu mesmo preso, a sua mente não cede diante da tortura do tirano, Zeus. Mesmo sozinho tem a esperança que o seu ideal será alcançado, por isso, não cede contra os seus princípios e resiste até ao fim, naquilo em que acredita.

Prometeu Agrilhoado é uma tragédia grega clássica, que é, simultaneamente, uma obra-prima da dramaturgia universal e uma reflexão sobre a importância do fogo para a existência e o desenvolvimento da humanidade.

A grandeza desta obra está bem espelhada com seu impacto na arte em geral ao longo dos tempos, com referências na literatura, pintura, cinema.

Na proposta de encenação desta tragédia teatral na OFITE, optámos, claramente, por adaptar o texto ao elenco e ao público-alvo, pois só assim, faz todo o sentido artístico e cultural. Slavoj Zizek, sublinha que “o maior tributo e respeito que se pode prestar às obras seminais clássicas é adaptá-las à contemporaneidade de cada época…”.

Atuámos sempre com toda a legitimidade artística, porque, também sabemos que o teatro de tragédia precisa de tempo para encontrar o seu público. Não podemos é deixar de o fazer, só porque uns acham que as pessoas gostam é de comédias. Sabemos que a tragédia teatral não é o género mais acarinhado pelo público – exatamente por culpa dos próprios criadores que não apostam em produções deste estilo.

O gosto e interesse pelas diferentes propostas teatrais, deve ser feito com toda a consciência artística para que se consiga, efetivamente, sensibilizar, educar e conquistar um público interessado nos diversos géneros teatrais.

Este novel projeto de teatral da OFITE – que assume-se como uma companhia de Teatro e Comunidade –, tem o contributo artístico e técnico de 28 elementos, contando com os artistas e os criativos. O grupo conta desde a sua fundação com o apoio da Câmara Municipal de Câmara de Lobos.

As personagens são representadas pelos seguintes intérpretes: Prometeu (Sérgio Santos); Cratos (Rosalina Fernandes); Bia (Fátima Vieira); Hefestos (Ana Rita Luís); Io (Filipa Costa); Oceano (Ricardo Bonifácio); Hermes (Idalina Brito); Ninfas ( Isaura Pestana, Leonilde Nunes, Nádia Cunha, Telma Fretas, Jéssica Câmara, Vanessa Câmara, Rosário Pestana, Clara Henriques, Bianca Silva, Eduarda Sousa, Inês Soares); Soldados (Rodrigo Figueira, Mena); Povo (Ana Rita Luís, Maria Abreu, Rosalina Fernandes, Mena, Rodrigo Figueira, João Paulo Henriques, Idalina Brito, Fátima Vieira, Victor Afonso, Ricardo Bonifácio). A componente técnica: Operação de Som (Diogo Abreu); Desenho e Operação de Luz (António Freitas); Design e Fotografia (Roberto Ramos); Costureira (Fátima Ferreira); Produção (Rui Pita) e a Direção Artística (Zé Abreu).

Assistir ao espetáculo “Prometeu Agrilhoado”, será uma pertinente oportunidade de reflexão sobre o sentido e o lugar da tragédia grega no contexto da cena teatral moderna. Será também uma oportunidade para pensar no modo como o teatro de tragédia grega pode ainda ser assimilado por um público de diferentes faixas etárias.

Para a OFITE, a renovação do teatro contemporâneo passa também por um retorno à tragédia grega, que está na própria origem do teatro. Ao longo dos séculos, a tragédia foi, progressivamente, afirmando-se como fonte de renovação cénica. Por isso, é que continuam a surgir imensas leituras, adaptações, performances teatrais, tendo por base os grandes textos das tragédias gregas.

O nascimento da tragédia está ligado a práticas religiosas e a rituais realizados em honra de Dionísio, deus do vinho, da embriaguez, da loucura e do próprio Teatro. As tragédias no teatro grego, eram textos teatrais que apresentavam histórias calamitosas e dramáticas derivadas das paixões e medos humanos, as quais envolviam personagens nobres e heroicas, como: deuses, semideuses e heróis mitológicos.

Segundo o filósofo grego, Aristóteles, a tragédia era um género maior capaz de transmitir nas pessoas as sensações vividas pelas personagens. As tragédias gregas provocam uma espécie de “purificação”, sentida pelos espetadores durante e após uma representação teatral.

Dirigir artisticamente uma peça de tragédia, é a afirmação da encenação enquanto arte, como também, um grande desafio para a renovação da arte teatral, pois, permite várias possibilidades de orientação em palco.

Acreditamos que através do conceito criado pela OFITE, na encenação do “ Prometeu Agrilhoado”, o público sentirá a tal catarse que fala Aristóteles e acima de tudo, cada um, ficará com uma ideia do que pode ser uma tragédia grega em cena, no século XXI.