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Três vezes negou Pedro que conhecia o seu Mestre. A negação, triplamente respondida na hora dramática da paixão, não o afastou da confiança que lhe foi depositada para liderar a Igreja nascente. Sem dúvida por causa do amor que Cristo lhe tinha, Pedro, após o canto triplicado do galo, transformou-o radicalmente ao ponto de se dedicar ilimitadamente na vinha do seu Senhor até à sua arrepiante morte.
Entre nós não foram precisas três recusas para que Pedro aceitasse a difícil tarefa de vindimar. Chegou-se à frente na fragilidade do líder. Com um caderno de encargos é certo, mas revelando predisposição para arregaçar as mangas dessa camisa-de-forças. O sim é abnegado conhecendo-se o estatuto, a compensação e em especial a exposição pública do que havia antes e do que acontecerá depois da próxima terça-feira. Diria até surpreendente nos tempos de hoje por trocar o sossego mediático de uma administração empresarial por uma escancarada montra onde tantas vezes se escarnece sem razão.
Mas o sim de Pedro tem outras leituras. No sentido inverso do que nos é relatado no Evangelho, é a amizade de Pedro ao líder que sobressai. Quando na crista da onda da vitória de há dois anos, ele recusou, aceitar agora o convite na fragilidade desta derrota eleitoral, faz sublinhar uma relação pessoal de muita confiança. Não desconhecendo ao que vai, a investidura de Pedro, oferecendo o peito às balas e as pernas às rasteiras, é escudo ao amigo que assim se liberta para revigorar-se.
Como é óbvio não é de eficiência que se trata. É a lealdade que se sublinha no rearranjo de poderes, competências e cadeiras. O nível que agora se exige não se conforma com a irmandade partidária ou com o cumprimento de um programa do Governo. É um tudo, lembrando os pactos de sangue dos chefes índios, confundindo o serviço com a afinidade.
Para muitos é estranha essa amizade que faz esquecer a tranquilidade financeira e pessoal para abraçar a dificílima salvação que lhe é proposta. Para mim é louvável e abona a favor de quem a ela se predispõe.
Será suficiente?
Tenho sérias dúvidas. O problema do Governo e da maioria que o apoia não se baseia na falta de coordenação e consequente desagregação. Não é apenas resultado de protagonismos pessoais deixados numa praça de liberdade. Não é só a difícil convivência com a crescente consciência critica e com a liberdade de expressão. Não se cinge ao desfrutar de um triunfo de grupo que só existiu por ser grupo e não a totalidade do partido a que pertence.
O problema é de projecto político. O PSD já teve projecto avassalador, reivindicativo, sindical e tantas vezes radical. Sentiu que era necessário mudar. Mas a mudança ficou a meio. Lembra-me os filhos que dizem mal dos pais mas não recusam as suas heranças. Louva-se no passado obreirista mas recusa a identidade com quem o protagonizou. É uma bipolaridade que é inultrapassável por se temer a vontade de romper. Mais parece a lenta liquidação de um património do que algo novo agregador.
Um outro projecto inovador faz falta. Cada dia que passa, mais falta faz! É a dificuldade em poder custear o nível social e ambiental que o patamar europeu nos predestina. É a criação de trabalhos e a localização de quadros que um regime fiscal a diferenciar exige. É um estatuto de continuidade territorial que dinamize a economia. É um centro internacional de negócios a suspirar por um novo fôlego. É uma relação de proximidade com as pessoas que regenere a política. É um arquipélago que se quer dinâmico, mobilizador e marcante, como é a natureza que o veste.
É que se não for deste lado, outros tocarão as trompetes. Porque a falta de arrojo paga tributo.
Ao contrário daquele que lhe deu o nome, a missão que cabe a este Pedro não é edificar sobre uma pedra, mas parece ser apenas a de gerir. Para a abnegação que demonstrou, a sua tarefa devia ser mais ampla.
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