Faleceu o pintor madeirense Ara Gouveia: mais uma perda para as artes e a cultura

 

Foto: Artur Campos

A consternação foi-se espalhando ontem, pouco a pouco, pelas redes sociais, reflectindo não só o número e a diversidade de pessoas que o conheciam, como o muito que o apreciavam. e à sua arte. Ara Gouveia, pintor madeirense nascido em 1946 no Funchal, faleceu no domingo, aos 71 anos. Conforme soube o Funchal Notícias, o artista já estava doente há algum tempo, e mais recentemente tinha sido internado.

Teve um percurso interessante. Entre os anos de 1964 e 1968, estudou Pintura na Academia de Belas Artes da Madeira e na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Já entre 1969 e 1975, viveu na capital belga, ao abrigo do Estatuto do Alto Comissariado para Refugiados das Nações Unidas. Em 1968, frequentou o quarto ano de Pintura Decorativa da Academia Real de Belas Artes de Bruxelas, tendo sido aluno do primeiro ano do curso de Design da Cambra, Bruxelas.

Em 1969, fez um curso de Cenografia, em Bruxelas, orientado por Pierre Joukuvsk. No arquipélago da Madeira desde 1975, foi professor do quadro de nomeação definitiva do Ensino Secundário. Durante anos dividiu a sua presença ora pela Madeira, ora pelo Porto Santo, onde dava aulas na escola local.

Ara Gouveia realizou várias exposições individuais e participou também em diversas colectivas, expondo os seus trabalhos em locais como a Galeria Mundus, no Funchal, nos anos 60, a Casa da Cultura de Santa Cruz, a galeria da Secretaria Regional do Turismo, a Casa das Mudas, na Calheta, o Espaço Aberto, no Funchal, o átrio do Colégio dos Jesuítas, a Escola Superior de Belas Artes do Porto, espaços em Coimbra e Bruxelas, o engenho da Calheta, o Museu de Arte Contemporânea da Madeira (Funchal), etc.

Obteve, entre outras distinções, Menção Honrosa no 1º Concurso Regional de Artes Plásticas da Madeira, na Casa das Mudas, em 1999. Também expôs na Galeria dos Prazeres, no tempo em que este espaço se encontrava sob a responsabilidade organizativa da também artista plástica Patrícia Sumares.

Expôs ainda no Espaço Magnólia, no Funchal, em 2006, a mostra “Biografia de 28 dias ou o deslumbramento das memórias recolhidas”. Num texto escrito propositadamente para esta mostra, dava conta de como procurava reflectir no seu trabalho pictórico “pequenas fúrias contidas, sobressaltos de consciência inquieta, desejando manter um método estritamente assente nas por vezes apertadas regras conceptuais da linguagem plástica”.

“No entanto”, acrescentava, “quis sempre fugir ao sistema determinado de convenções a que a maioria dos homens se agarra para facilitar uma existência como expressão autorizada”.

Sobre ele escreveu a académica Isabel Santa Clara, referindo-se a uma mostra realizada em 2001: “Ao perseguir o essencial, Ara Gouveia explora a capacidade de escolher e eliminar, já que, para um pintor, o essencial se joga no modo de ocupar um espaço, organizar nele direcções e forças, e é afinal o horizonte de uma demanda que se poderia resumir em como dar a ver o respirar da vida num espaço polarizado de tensões, como aflorar o lugar onde nasce a voz sem ter de contar histórias.”

A sua pintura caracterizava-se por um jogo curioso entre formas geométricas e cromatismos intensos e contrastantes, partindo duma espontaneidade inicial mas sendo posteriormente cuidadosamente pensada e trabalhada antes de chegar ao resultado final. Com fundamentos bastante sólidos nos métodos da pintura clássica, a abstracção era, todavia, a marca fundamental do seu trabalho, que queria sempre aberto às mais diversas interpretações, conforme o olhar do fruidor.

O funeral de Ara Emanuel Mendonça Gouveia, tanto quanto pudemos apurar, deverá decorrer amanhã, em local e hora ainda por acertar.