O rodopio das Autárquicas: candidatos vão falando uns com os outros e não dão descanso ao povo

Cartoon: Helder

Daqui até ao primeiro dia de Outubro, a população do Funchal muito tem de aguentar dos seus candidatos, principalmente os dos maiores partidos, capazes de gerir também maiores máquinas de propaganda e por vezes um autêntico exército de assessores desejosos de mostrar serviço. Ele é promessas para aqui, promessas para ali, promessas para acolá. A agenda dos órgãos de comunicação social, as suas caixas de correio, ficam assoberbadas com emails e mais emails: fulano disse isto, sicrano quer aquilo, beltrano critica fulano, fulano responde a beltrano, beltrano reage apontando também as baterias a sicrano, e assim vamos, cantando e rindo. O povo vai contemplando, mais do que outra coisa, e opinando sobre as melhores possibilidades de uns e outros, em conversas de café. Isto porque, na maior parte das vezes, os contactos de rua reduzem-se a uma baixíssima amostragem da população, geralmente simpatizantes e dois ou três que já se sabe que não vão protestar audivelmente frente às câmaras de televisão ou aos microfones dos jornalistas, que isso fica chato. Além do mais, é sempre aborrecido para pessoas da estirpe dos nossos candidatos conviver efectivamente com o povo, aquele menos refinado, embora nesta altura se prestem a tudo, desde abraçar idosos a pegar em bebés ao colo, mesmo com a fralda a precisar de ser mudada. Até abraçar cãezinhos vale.

Por outro lado, os piropos sucedem-se de parte a parte, nem sempre com a maior urbanidade. Ultimamente até incluem irónicos convites para jantar, recusados sem contemplações pela parte convidada. A contrastar com a condescendência e paternalismo do dito convite, só faltava mesmo o nojo evidenciado na resposta a tal repto. Já quase não há lugar para a ironia.

Claro que enquanto uns se degladiam mais ou menos abertamente, outros surgem impávidos e serenos, quase alardeando pacifismo e caridade cristã, apelando à delicadeza, urbanidade e bom entendimento. Nós é que somos civilizados, leia-se. Pelo meio há direito a toda a sorte de cambiantes, do tipo “Nós é que fizemos serviço”, “Os outros tiveram décadas para fazer e agora é que nos acusam de não cumprir? Grande lata têm eles”, “Connosco é que não haverá corrupção, pois somos impolutos” e por aí adiante. E há-de ser assim até Outubro. O leitor que se encha de paciência de chinês e faça meditação, se puder, não só para orientar o seu sentido de voto como para não se fartar com as descaradas e constantes promessas próprias deste período. Nós já entrámos há muito tempo em modo Zen…