Coreia do Norte – o Paraíso na Terra

Para os partidos de esquerda ou de extrema-esquerda, pronunciar-se  acerca de países como a Coreia do Norte é sempre um incómodo, quando não mesmo razão para os deixar de “nervos em franja” e “de cara encachinada”, como se diz popularmente cá na Região. Tanto assim é que, para os mais fervorosos crentes, ditadores como Estaline, Lenine, Mao, Fidel, Maduro ou Kim representam uma espécie de quadro da Última Ceia. Já tive oportunidade de ver Jerónimo de Sousa, num debate televisivo, notoriamente atrapalhado e a “defender o indefensável” quando questionado sobre o regime da Coreia do Norte. Enfim, há matérias que deixam os mais conservadores ou radicais de cabeça perdida e com indisfarçável azia.

Para que se tenha uma ideia mais clara sobre as “virtudes” do “santificado” regime deste país convém apresentarmos exemplos concretos que só os mais fanáticos ou mais diminuídos mentais podem aplaudir e venerar. Eis, abaixo, enumeradas  as mil e uma maravilhas do regime.

Ouvir música estrangeira, assistir a filmes ou fazer chamadas internacionais, por exemplo, pode levar à pena de morte, como aconteceu em 2007 com um homem que realizou várias chamadas internacionais. Por força do ódio a tudo o que seja norte-americano, quem assistir a um filme indiano pode ir para a cadeia, mas se o filme for americano, a pessoa será executada.Os norte-coreanos têm obrigatoriamente de idolatrar o seu líder e o Estado, sendo certo que tudo o que cheirar a desrespeito pela intocável família Kim, o governo ou os políticos da Coreia do Norte é considerado uma forma de blasfémia e quem o fizer sujeita-se a severas punições para que lhe fique de “escarmenta”.

Conduzir está reservado a funcionários do governo do sexo masculino. Além disso, estima-se que apenas 1 em cada100 pessoas tem carro, imagine-se por via de que critérios…

Por razões, dir-se-ia, de “coerência”, as mulheres exercem funções de polícia de trânsito, mas nunca saberão o que é estar atrás de um volante, restrição que muitos machistas, mesmo entre nós, não deixariam jurassicamente de subscrever.

Desde o falecimento do presidente da Coreia do Norte Kim Il-sung, em 1994, que o dia 8 de junho passou a ser de luto, razão pela qual atrever-se a sorrir ou falar em voz alta (falta de respeito inadmissível) é estritamente proibido. A poluição sonora está acautelada uma vez por ano. Olha que bem pensado!

Já “dar um pezinho de dança” nesse dia nem pensar. É heresia punível com prisão ou morte. Imagino que se for uma valsa, à moda coreana, a pena será prisão. Em sendo uma “onda” mais kizomba norte-coreana, menos que a pena de morte seria inaceitável. Haverá maravilha igual?

Alguns dos nossos deputados, que aproveitam para fazer “siestas” nas sessões parlamentares, coitaditos, nem teriam oportunidade de bocejar, e ai deles que subtilmente se espreguiçassem. Vejam lá que bom que é poder dormir no serviço e ainda ser pago por essa, digamos, canseira!!!

Caso o fizessem, contrariamente à inconsequência de cá, teriam entre mãos um grande sarilho.

Nesse abençoado país que é a Coreia do Norte adormecer enquanto o chefe fala paga-se com a vida. A título de exemplo, o próprio ministro da defesa foi executado com um tiro de bateria antiaérea (porque não uma arma nuclear, mais ao gosto do Kim?) por ter adormecido durante um evento de Kim Jong-Un, o que foi, muito naturalmente, considerado desrespeitoso. Os políticos portugueses xoninhas menos não devem fazer que dar graças a Deus por terem nascido no país das mordomias, privilégios, tolerâncias, imunidades e impunidades. Claro que podem continuar a dormir descansaditos na Assembleia que não é por aí que vem mal ao mundo. “Tá-se bem”!

E, por falar em política, o país, por lei, realiza eleições para escolher os seus líderes partidários e governantes, como nos países democráticos, embora com uma ligeiríssima diferença de somenos importância: normalmente há só um candidato e, caso haja outro, é um ator contratado pelos Kims para perder. É a modos que nos combates combinados de boxe patrocinados por mafiosos, em que tudo é teatralizado, com a diferença de que não há apostas.

Para os adeptos da liberalização das drogas-leves, no entanto, a Coreia do Norte está “muito à frente”, upa, upa, quase ao nível de uma Holanda. A marijuana, que é proibida na maioria dos países do mundo, é permitida, não existindo nenhuma lei que puna o comércio ou consumo. Talvez por aí se percebam os delírios ou “pedradas” do grande líder, sistematicamente traduzidos na sua vontade de “brincar às guerras nucleares”.

Quanto ao beato culto ao chefe de Estado, os norte-coreanos têm de mencionar o nome do seu líder sempre seguido de algum adjetivo que o enalteça. Hipóteses possíveis são, por exemplo,  “supremo Kim” ou um meloso “querido Kim”. Convenhamos que ele é mesmo “boa cena”, um “quiduxo”!!! Outra coisa que não é permitida é ter o mesmo nome que o atual presidente do país. Assim, todas as pessoas com o nome Kim tiveram que mudar o seu nome “voluntariamente” por vontade do governo. Deus há só um e o seu nome é Kim!

No respeitante ao vestuário, o regime não poderia deixar igualmente de ditar usos e costumes. O uso de algumas roupas é também proibido. As calças de ganga, por exemplo, são tidas como um símbolo do capitalismo e, por esse argumento de força maior, as pessoas não podem usar este tipo de calças. Além disso, nas grandes cidades, as mulheres não podem usar calças ou andar de bicicleta,  estando igualmente proibidas de mostrar o umbigo, razão pela qual o uso de “bikini” é proibido.Quanto às saias, estas devem cobrir o joelho, tão “modernamente” como nos tempos das nossas avós e bisavós. Em todo o caso, entrevejo aqui algumas vantagens. Pelo menos, pelo menos, as pessoas não ficam indecisas quanto à roupa de sair. Ainda  no domínio da moda, os norte-coreanos usam penteados muito semelhantes uns aos outros, o que não é fruto do acaso. Quando Kim Jong-Un assumiu o poder introduziu no país uma lista com os cortes de cabelo que seriam permitidos. As cabeleireiras estar-lhe-ão eternamente agradecidas, estou certo.

No que toca a viagens, os norte-coreanos têm mesmo de levar à letra o “vá para fora cá dentro”, uma vez que estão proibidos de “fugir” ou viajar para fora do país sem permissão. Agências de viagens, por lá, não deverão ser muitas, presumo.

Em regime totalitário que se preze, o controlo sobre os turistas é também coisa para levar muito a sério, ora se é. As pessoas que visitam o país são “amavelmente” acompanhadas por guias e oficiais, com regras de conduta próprias a seguir. A “liberdade” de movimentos é “palavra de ordem”, ou seja, tudo o que os guardas disserem deve ser “seguido à risca”. Em alternativa, ou cumprem ou cumprem.

Outra diferença fundamental neste Paraíso é o facto de a Coreia do Norte ser o único país onde o acesso à Internet é estritamente proibido, com exceção de algumas profissões em que é possível aceder a “websites”, ainda que com a omnipresença do “Big Brother” vigilante e controlador do governo. Práticas religiosas e ideologias do ocidente são igualmente proibidas no país, havendo registo de execuções públicas a pessoas que distribuíram cópias de bíblias pelos cidadãos da Coreia do Norte.

Escolher o futuro também não depende dos cidadãos, cabendo essa decisão ao governo,  em função das necessidades do país  e não da pessoa. Porém, há sempre homens e mulheres que têm a veleidade de quererem ser donos do seu destino. Para esses “subversivos” está reservado um destino “à boa moda” nazi ou soviética: ir para um campo de concentração fazer trabalhos forçados. Verdadeiramente encantador!

Talvez para evitar brigas entre casais na escolha de casa, os norte-coreanos não têm a possibilidade de escolher onde vão morar. Caso resolvido. Quem determina o local onde vão viver é o governo a partir da sua classe social e relacionamento com o Estado. Uma espécie de “Queridos, escolhi a casa”. Imagine-se a dimensão do lambe-botismo norte-coreano…

O que se segue é um desafio: conseguir ler sem rir. Quando acontece um incêndio no país, a primeira coisa que os cidadãos devem salvar são os quadros dos líderes políticos e só depois os seus pertences e as suas vidas. Nada mais natural, há que saber definir prioridades!!!

Por fim, no domínio laboral, os norte-coreanos trabalham seis dias por semana e no sétimo dia são obrigados a fazer trabalhos voluntários, ou seja, quase não têm tempo livre.

Como noutros tempos de muito má memória, ocorre-nos a expressão “Arbeit macht frei“, “o trabalho liberta”  conhecida por ter sido colocada nas entradas de vários campos de extermínio do regime nazi durante a Segunda Guerra Mundia.

Em suma, depois de tantas “virtudes” poderá  haver outro Paraíso na Terra, para extremistas de esquerda, que não seja a Coreia do Norte? É emigrarem já e gozarem esse pedacinho de céu.