Câmara de Santa Cruz preocupou-se com a dívida e esqueceu-se das pessoas, acusa a candidata da CDU

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“Nós, na CDU, somos capazes de trabalhar, somos capazes de pensar, somos capazes de estudar, temos preocupações sociais, então é passar à ação”. Foto Rui Marote

O movimento Juntos Pelo Povo, agora transformado em partido político, teve uma medida positiva: reduziu a dívida da Câmara de Santa Cruz. “Mas ficou por aqui”. É esta, pelo menos, a leitura que a candidata da CDU, Sílvia Vasconcelos, faz à gestão de Filipe Sousa nestes quase quatro anos de mandato depois de uma conquista de poder ao PSD, cuja hegemonia foi posta em causa nas últimas eleições autárquicas.

Gestão de insolvências em vez de tratar das pessoas

Deputada na Assembleia Regional, com intervenções consideradas de relevo no âmbito da ação parlamentar, Sílvia Vasconcelos vai para este desafio com uma crítica à orientação do JPP e um alerta para a necessidade de olhar a governação do concelho “não como uma gestão de insolvências, mas sim tendo em conta que ali existem pessoas, ainda por cima tratando-se de um grande aglomerado populacional”. Diz que “é preciso investimento, é preciso definir prioridades para o futuro do concelho e acho que foi isso que falhou nestes quatro anos de poder do JPP. Preocupou-se demasiado com a dívida, que é importante resolver, sem dúvida, mas há a parte que tem a ver com quem vive no concelho e que necessita de investimentos em áreas que deveriam ter outra atenção por parte dos dirigentes camarários”.

Porto Novo é um vazadouro

Para a candidata, os pontos estratégicos que constituem falha do JPP na governação do município, prendem-se com a orla costeira, nomeando especificamente “a zona do Porto Novo, que já teve uma dimensão importante em termos de zona balnear, com grande mobilização de pessoas, do concelho e de fora dele, mas que agora está num estado avançado de degradação, é um vazadouro, é feio de ver, é triste mesmo. Era obrigação da Câmara ter feito ali uma intervenção, não o fez e aquilo tornou-se numa área de depósito de lixo”.

Descargas frequentes nos Reis Magos

A qualidade da água é outro dos problemas identificados pela candidatura da CDU. Sílvia Vasconcelos aponta aquele grave problema do concelho, dando o exemplo dos Reis Magos, onde são frequentes “as descargas” por via da incapacidade da ETAR (Estação de Tratamento de Águas Residuais). A candidata lança um número, com base em contactos que já estabeleceu, cerca de 200 mil euros, que “seriam suficientes para aquilo que se exige e que seria possível, a ampliação da ETAR, não havendo necessidade de uma nova”. Lembra que a praia dos Reis Magos “é uma zona balnear por excelência, deve ter o correspondente cuidado. Ouviu-se falar em investimento de 1 milhão, e repare que não sou contra os investimentos na orla marítima, mas também não quero que Santa Cruz se torne numa espécie de Algarve. É preciso um investimento refletido e ordenado, respeitando o Ambiente. E Santa Cruz consegue uma harmonia quase perfeita entre as atividades do mar e as atividades de montanha, sejam turísticas ou agrícolas”.

Descentralizar serviços do concelho

A existência de um Caniço mais urbano, com um aglomerado populacional elevado, contrasta com o resto do concelho, mais rural. A candidata admite dificuldades de gestão e reconhece que o Caniço “ainda é um dormitório, embora o seja cada vez menos”. Defende uma política para combater essa realidade, avança com a necessidade de adotar medidas tendentes a descentralizar alguns serviços públicos, que hoje apenas se encontram disponíveis em Santa Cruz. O concelho é ir tudo para Santa Cruz. Não pode ser, sobretudo se tivermos em conta as especificidades do Caniço e a necessidade de tomarmos medidas para haver um desenvolvimento harmonioso de toda a área concelhia, aproximando populações e não distanciando-as. Temos bons acessos, é verdade, mas não podemos ficar centralizados na sede de concelho, como estamos hoje”.

Nem toda a população do Caniço tem médico de família

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Sílvia Vasconcelos acredita que a CDU pode eleger, no mínimo, um vereador.

Aponta a situação do Centro de Saúde do Caniço, sabendo que se trata de uma área de tutela do Governo Regional. Mas diz que “a Câmara deve desempenhar um papel de pressão junto do Governo para que as situações sejam resolvidas. “Não podemos admitir que uma população que tem metade da dimensão do concelho, ainda não tenha, na totalidade, médico de família. Eu moro no Caniço há 17 anos e não tenho médico de família. É preciso reivindicar”.

Em relação à Camacha, também tem uma crítica a fazer: “Fecharam a escola do Bairro da Nogueira e o Governo estabeleceu um acordo com a Câmara de Santa Cruz para assegurar o transporte das crianças até à escola na Camacha. E o que fez a Câmara? Retirou esse transporte. E é ver os pais, com crianças pequenas, a subirem aquela reta perigosa. Isto não pode acontecer, esta é uma competência da Câmara e é preciso que a autarquia assuma as suas responsabilidades. Também aqui falhou”.

CDU acredita na eleição de um vereador

Sílvia Vasconcelos acredita que a CDU pode vir a eleger um vereador nestas autárquicas de 1 de outubro. Quando dizemos que as pessoas veem a Coligação como sendo de oposição, a candidata responde que “a CDU é uma coligação de trabalho”, embora reconheça, por ser o histórico eleitoral, que tem estado mais na oposição. Quando questionada sobre estigmas, diz que para explicar isso “teríamos que remontar à História do País e aos mitos do comunismo”. Afirma, com convicção, que “nunca houve comunismo no mundo”, que “existiram projetos socialistas, alguns têm falhado”. Mas regressando ao caso de Santa Cruz, reforça a ideia de que “nós, na CDU, somos capazes de trabalhar, somos capazes de pensar, somos capazes de estudar, temos preocupações sociais, então é passar à ação. Claro que é difícil governar, mas não é impossível tornar este concelho num local mais igualitário, que vá ao encontro das reivindicações das pessoas. Vamos atrás da utopia, mas não somos só utópicos”.

Digo ao que vou, o que sinto, o que penso”

Aos santacruzenses, promete não convencer ao voto. Não é essa a postura que tem aquando dos contactos com a população. Explica a estratégia: “Digo ao que vou, o que sinto, o que penso. Muitas vezes as pessoas concordam, outras não. O meu trabalho político não é evangelizar ninguém, posso apenas apresentar as minhas propostas e depois fica a decisão para as pessoas. Há que respeitar essa decisão”. Mas avisa que “quanto maior for a representatividade de um povo, melhor é a qualidade da democracia e maiores serão os benefícios para as populações”.

Alterar mentalidades é “missão muito difícil”

Aponta a alteração de mentalidades como uma “missão muito difícil”. Admite que a sociedade madeirense “tem vindo a melhorar gradualmente a mentalidade”, refere mesmo que é das partes mais complexas para resolver, mesmo fazendo todas as leis que fazemos. Aponta exemplos da violência doméstica e da defesa dos animais como sendo referências em matéria de legislação adotada, mas que se confronta com uma questão de mentalidade de um povo.