Imprevisível ou evitável?

 

O País no seu todo, nesta estação, o Verão, que caminha para o seu termo, tem sido assolado por várias tragédias que perdurarão certamente na nossa memória colectiva. E a Madeira, uma vez mais, foi também particularmente atingida, com a queda do carvalho que matou 13 pessoas e feriu mais 49, na freguesia do Monte.

Como era previsível, ainda por cima por estarmos a escasso tempo das eleições autárquicas de 1 de Outubro próximo, a procura de aproveitamento político da tragédia não se fez esperar. A oposição, designadamente o PSD/M e o CDS/PP/M, vieram logo à liça com acusações à edilidade funchalense de negligência e incúria, ao mesmo tempo que lançavam a suspeição de que mais árvores espalhadas pela cidade poderiam estar em risco de cair. Esta atitude, própria de abutres à procura de presa, foi por demais evidente no debate televisivo com representantes partidários que a RTP/M transmitiu poucos dias após a aludida tragédia.

Dir-se-á que se fosse outra a cor política da principal autarquia regional que a então oposição faria exactamente o mesmo. Confesso que não ponho isso em causa. Não tenho, porém, dúvidas que esta procura de sangue, designadamente por parte do PSD/M, ocorre, tão somente, porque não é poder na capital madeirense. Se o fosse, como foi até 2013, outro galo cantaria. Com efeito, basta recordar o comportamento do partido que ocupou sempre o poder regional, aquando da queda da palmeira que, em Agosto de 2010, ceifou a vida a 2 pessoas no Porto Santo. Para os mais distraídos ou esquecidos refira-se apenas que o então edil porto-santense foi ao nível partidário, não só ilibado de quaisquer responsabilidades no ocorrido, como contemplado com um lugar na bancada parlamentar e mais tarde nomeado assessor pela auto-intitulada “renovação”.

E já agora, recorde-se que, na decisão tomada pelo Tribunal do Porto Santo, o colectivo de juízes deu como provado que “o aumento gradual da inclinação da palmeira era perceptível para as pessoas que frequentavam o Largo do Pelourinho, incluindo os arguidos (o ex-presidente da C.M.P.S. e os então vereadores) que ali passavam quotidianamente e constatavam essa inclinação”.

Aqui chegados, haverá por certo quem, relativamente ao ocorrido no Monte, considere que estamos em presença de uma situação com características idênticas.

Humildemente confesso que não percebo de botânica, de planeamento florestal, de gestão da natureza, etc, para teorizar sobre o assunto.

Mas, tendo acompanhado tudo o que se tem dito ou escrito sobre o ocorrido, devo dizer que entre a opinião de um conhecido comissário político do jardinismo que afiançou que, à vista desarmada, se percebia que o carvalho que caiu estava podre, etc, etc e as declarações a esta publicação do antigo vereador da CMF com o pelouro do Ambiente que afirmou que “isto era imprevisível e indetectável, porque a árvore não apresentava nenhuma evidência externa de decrepitude e instabilidade”, não tenho dúvidas em conceder às deste último maior crédito.

Admito, contudo, que haja quem entenda que Henrique Costa Neves procure dessa forma se “livrar” de eventuais responsabilidades que lhe pudessem vir a ser imputadas nesta tragédia, na sequência de acusações que lhe foram dirigidas, em particular por uma família residente no Largo da Fonte, no Monte. Em todo o caso, merece-me mais respeito e consideração do que quem, pelos vistos, foi agora muito célere em tirar conclusões, o que convenhamos não sucedeu no passado em situações similares.

A questão de fundo é, porém, outra. E tem a ver com a cultura que, quem detém responsabilidades públicas, professa, pratica ou não.

Ora, já todos nos apercebemos que, no país que somos, quem exerce o poder aos mais diversos níveis se guia não pela máxima “mais vale prevenir do que remediar”, mas pelo adágio popular “depois de casa roubada, trancas à porta”. Ou seja, depois da tragédia, é que nos lembramos do que poderia ter sido feito, para evitar a sua ocorrência.

É, por isso, que independentemente de, nesta como noutras situações, não ter dúvidas em assumir que, havendo responsabilidades, de quem quer que seja, a culpa não pode, não deveria, morrer solteira, não reconheço ao actual poder regional e aos seus mais diversos actores, qualquer autoridade moral para exigir responsabilidades políticas a quem quer que seja.

É que o histórico da governação regional e autárquica da auto-proclamada “Madeira Nova”, “Madeira Contemporânea”, “Revolução Tranquila”, ou o que quer que lhe queiram chamar, está cheia de situações, de ocorrências, de casos em que foi, por demais evidente, que a acção humana teve a sua quota parte de responsabilidade nas tragédias ocorridas, algumas, por sinal, bem recentes. Alguém acredita que o temporal de Fevereiro de 2010 e os incêndios de 2016 têm exclusivamente como causa fenómenos da natureza? Isto é, quando se despreza literalmente, ao longo de 40 anos, instrumentos de planeamento, se permite o completo desordenamento do território, há ou não há consequências?!

Uma palavra final para o comportamento do Ministério Público. A avaliar pelas reacções, parece que só agora é que alguns “descobriram” que nesta terra ao nível do exercício e da aplicação da justiça se passam fenómenos ditos estranhos. É caso para perguntar, por onde têm andado? Não têm memória? Então, não sabem que, salvo honrosas excepções, foi sempre essa a justiça a que tivemos direito, quando estavam em causa interesses instalados e gente alegadamente importante?!

 

P.S. A propósito, impõe-se perguntar: não tenciona o Ministério Público abrir nenhum procedimento judicial na sequência do artigo de opinião recentemente publicado no “Diário de Notícias” local pelo vice-presidente da ALM, dr. Miguel de Sousa, tecendo graves acusações dirigidas ao anterior líder parlamentar e secretário-geral do seu partido, Jaime Ramos?

 

  • Por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.