Candidata do PS na Calheta quer “desgastar o PSD” e não quer “um progresso a duas velocidades”

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Sofia Canha, candidata do PS à Câmara da Calheta: “A pluralidade é importante, as vozes diferentes permitem falar na perspetiva de muitos e não de alguns. Foto Rui Marote

A candidatura de Sofia Canha à Câmara Municipal da Calheta tem um objetivo muito concreto: começar a “desgastar” o PSD visando um futuro próximo em que a hegemonia social democrata, que por aquelas bandas escapou ao cataclismo de 2013, possa não ser tão acentuada e garanta alternância de comando autárquico, um objetivo perseguido pela oposição.

Para a candidata, não é novidade a luta naquele concelho. Nasceu no Jardim do Mar, já tem ido a vários “desafios” mas cabeça de lista é a primeira vez. É deputada na Assembleia Legislativa Regional, é professora de profissão, já teve funções sindicais. Experiência no contacto direto com as pessoas não lhe falta, pretende agora conseguir votos suficientes para, no mínimo, chegar a vereadora na Câmara onde sempre mandou o PSD.

Ganhar a confiança das pessoas

Pode não ser desta vez, mas está a fazer tudo para dar início ao que pretende venha a ser a queda social democrata no concelho considerado “bastião laranja”. Sofia Canha diz que “o processo visa, em primeiro lugar, ganhar a confiança das pessoas, demonstrando que numa democracia sã é importante haver mais do que uma voz na definição daqueles que são os interesses da população, uma voz diferente e não uma voz que fale igual à maioria. Aquele entendimento que há, no sentido de que as pessoas que estão na oposição fazem oposição, simplesmente porque querem deitar abaixo e evitar que se cumpram programas, é errado. E a minha filosofia é precisamente contrária, fazer oposição numa outra perspetiva, de forma responsável, trabalhando a favor da população”.

Às vezes é necessário que as pessoas sejam espicaçadas

A candidata socialista lembra que em 40 anos “o povo da Calheta nunca soube o que era outro partido a governar, nem tão pouco a Câmara sentiu necessidade de ter uma abordagem diferente com outras forças políticas, precisamente porque a população sempre deu uma confiança confortável. Isto é pernicioso até para o PSD, porque às vezes é necessário que as pessoas sejam espicaçadas, sejam impelidas para uma ação diferente. E repare que, em 40 anos, a Calheta só teve três presidentes, todos do PSD e todos com ligações anteriores à Câmara. Não estão em causa as pessoas, nem discuto a qualidade dos programas, mas apenas uma diferente perspetiva de governação autárquica”.

Não quero duas Calhetas”

Sofia Canha afirma estar preocupada com a forma como o concelho tem vindo a desenvolver-se, diz que há um “progresso a duas velocidades”. Coloca de um lado uma Calheta mais central, mais desenvolvida, do outro uma Calheta muito rural. “Não entendo e não aceito, não quero duas Calhetas. Chegamos ao limite, nos Prazeres, e a partir dali é outro concelho”. Aponta um caso que, em sua opinião, é relevante para reforçar aquilo que acaba de dizer: “Não devíamos estar a falar, agora, em falta de saneamento básico, isso já passou, isso era coisa para falar há 50 anos. Estamos a falar de acessibilidades, de serviços básicos para as populações, quando se tratam de questões que já deveriam estar resolvidas há muito tempo. É por isso que digo que é preciso uma voz diferente na Câmara”.

População vota “sempre nos mesmos”

O estado conservador do concelho não é “terreno fértil” para o PS. E não é só porque o PSD manda, é também porque há uma faixa da população que preferiu dar o segundo lugar ao CDS/PP, que tem ali um eleitorado forte. A candidata sabe disso e respeita os votos, mas alerta para o facto de ser mau sempre o mesmo cenário durante 40 anos. “Não tem mal as pessoas escolherem livremente, mas sempre nos mesmos é complicado”.

Poder utilizou meios da Igreja”

Esse conservadorismo que tem marcado o sentido de voto na Calheta é explicado com “a forma como o próprio poder se foi instalando utilizando meios da Igreja, através dos movimentos cristãos, que tornaram o ambiente político local desequilibrado”. A falta de determinadas obras é fruto, um pouco, “desse conforto eleitoral que o PSD sente e que descomprime relativamente a certos investimentos”. Diz que em quatro anos “a Câmara da Calheta só fez quatro caminhos”, porque “não há necessidades de grandes investimentos, acham que as eleições estão ganhas”.

Olhando para o futuro do concelho, aponta a importância de fazer um retrato social para um plano de intervenção. Com uma atenção muito especial nos jovens e na Educação, que “é uma base importantíssima para o desenvolvimento de um povo”. Refere ser determinante estar atento às próprias dinâmicas da juventude e dessa educação, uma vez que se há famílias que conseguem ultrapassar as dificuldades e dar formação aos seus filhos, há outras, e são muitas, que não conseguem e que precisam de apoio. Conhecemos jovens que emigraram e não queriam. É verdade que não podemos dar trabalho a toda a gente, mas a realidade é que se olha sempre para os mesmos e não há uma visão global e estruturante”.

Consolidação da escarpa: “Quanto mais tempo vamos estar à espera?”

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A candidata diz que o conforto eleitoral do PSD na Calheta não fez evoluir o concelho. Foto Rui Marote

A hotelaria é um setor que pode ser potencialmente criador de emprego e a sua evolução foi relevante para o desenvolvimento do concelho. Sofia Canha diz que “há coisas que foram bem feitas” e reconhece que “a Calheta dos últimos anos teve uma dinâmica diferente, contrastando com uma estagnação anterior”. Fala de evolução, na hotelaria, na afluência de turismo, trazida também pela praia de areia que é, hoje, um atrativo, mas também aborda a questão da segurança resultante das obras que ainda não foram desenvolvidas na escarpa junto à marginal. “Tanto na baixa da Calheta, como na estrada de ligação ao Jardim do Mar e Paul do Mar, há uma situação de insegurança que deve ser resolvida. E as verbas estavam contempladas na Lei de Meios. Quanto mais tempo é que vamos estar à espera? Quando não existiam serviços na zona da marginal, o problema não se colocava com tanta prioridade, agora é diferente”.

Havendo governo da mesma cor há comodismo

A candidata não sabe se a Câmara fez ou não o suficiente para pressionar o avanço das obras, mas reforça a ideia anterior que, “quando estamos perante a ideia de que as eleições estão ganhas, as pessoas tornam-se mais comodistas, não significando com isso que não estejam preocupadas, mas como o Governo é da mesma cor política, há uma confiança maior e a gestão é diferente daquela que seria se o Governo fosse de outra cor”.

Não sabe, por isso, se o atual presidente fez tudo o que devia, não quer fazer juizos de valor sem conhecer pormenores sobre se foram ou não desenvolvidos todos os contactos tendentes a acelerar uma intervenção. Prefere dar o chamado “benefício da dúvida”, simplesmente porque nestes meandros da política tem a consciência de alguma dificuldade no âmbito do exercício dos cargos: “Quem assume cargos políticos, sobretudo em funções executivas, sem férias, sem descanso, independentemente do partido e da área onde exerce a atividade, é de se lhe tirar o chapéu. Quem se predispõe a dar parte do seu tempo a favor das populações, merece uma atenção especial”.

Não está tudo bem e há pessoas que não se sentem bem com isso

A mensagem que Sofia Canha está já a transmitir ao eleitorado da Calheta incide sobretudo no princípio de que “a pluralidade é importante, as vozes diferentes permitem falar na perspetiva de muitos e não de alguns. “Há pessoas que falam comigo e que demonstram uma vontade de ver vozes diferentes na Câmara, precisamente para que não digam sempre que está tudo bem. Não está tudo bem e há pessoas que não se sentem bem com a forma como estão a ser representadas. Claro que as pessoas, isoladamente, não falam por medo, eu própria tive três pessoas da minha lista que saíram. É uma cultura que está implantada na sociedade. As pessoas temem perder empregos, não só estando no público como até no privado. Isto tem que mudar”.V