O Puto sentou-se na soleira da porta e absorto em memórias, olhava fixamente a calçada…

Embora prestes a cumprir 10 anos ao virar do novo ano, tinha ainda apenas 9 e enquanto aguardava de pasta às costas a boleia para sua casa por parte do professor, seu vizinho, o puto sentou-se na soleira da porta da escola e, olhando fixamente a calçada, recordava com assaz triste saudade o seu passado escolar recente, no externato Nun’Álvares, “O Caroço”, que frequentara durante os últimos dois anos e onde deixara para trás tantos bons amigos que, apesar de tudo, viriam a sê-lo para a vida, se bem que para isso teria que aguardar o desenrolar do tempo e disso se dar conta anos mais tarde. Afinal voltaram a encontrar-se na mesma sala já no Liceu Jaime Moniz logo um ano depois, ultrapassados que foram com sucesso os exames de 4ª classe e de admissão ao secundário!

Deixara, por imposição de seus pais e em especial de sua mãe, o ensino privado para regressar à escola pública do Estado Novo. A sua mãe, cuja profissão interrompida muito cedo por razões de saúde fora também a de professora de instrução primária no sistema público, entendia que o puto, embora sem nunca ter tido um chumbo que fosse no seu currículo, estaria a “descarrilhar” eventualmente por causa de um sistema de ensino privado, quanto a si, demasiado brando e também, quem sabe, para subtraí-lo à influência de alguns dos seus colegas e amigos mais traquinas…

À conta disso, o puto vira-se inscrito na Pedro José de Ornelas onde, quando chegara, não tinha amigos pois não conhecia lá ninguém e, pior que isso, vira-se enrolado num sistema escolar onde o professor era rei absoluto e ditador, a competitividade, mas curiosamente também a camaradagem, estimuladas ao máximo e, ironia, as classes sociais aniiladas por detrás de uma mesma bata branca, idêntica para todos os mais de 40 membros da mesma turma onde, símbolo da igualdade estabelecida entre todos dentro das quatro paredes da escola, a queda de uma mancha vistosa, qualquer que fosse a sua origem ou causa, acarretaria infalivelmente consigo para o seu utente um castigo do professor que quase sempre se materializava no alinhamento diário para a temível fila da palmatória.

De facto, não há bela sem senão, pensava o puto para com os seus botões! Umas coisas são fixes e outras … nem tanto! Talvez os procedimentos nem sempre os mais desejáveis e os fins não justificam todos os meios, magicava o puto na sua perfeita inocência, ingenuidade e ignorância.

A primeira causa desta fila da palmatória onde o puto assistira na véspera a um colega menos aplicado (ou menos dotado quem sabe? Ou, porque não, apenas disléxico não diagnosticado?) urinar perna abaixo sem controlo era, contudo, o castigo infligido a todos aqueles que no último trabalho da véspera, impreterivelmente um ditado geral, teriam batido o score máximo aceitável de 5 erros, a partir do qual o castigo consistia nem mais nem menos numa palmatoriada correspondente em número ao nível de erros atingido pelo autor acima do score

O puto rapidamente percebera – e era isso uma questão de sobrevivência – que o terror era denominador comum entre todos e a delação proscrita, daí que, por mais que inimagináveis à partida entre crianças das origens e níveis culturais mais díspares, as alianças lá se iam construindo ao mesmo tempo que um belo espírito de solidariedade começava a despontar criando grupos que se uniam e defendiam uns e outros e uns dos outros durante a classe, ou no pátio da escola, durante os intervalos, nas aulas de ginástica ou nos encontros obrigatórios aos sábados da mocidade portuguesa.

Logo nos primeiros dias da sua 4ª classe, o puto viu-se sujeito, como todos os demais, a um sistema de provas de avaliação decretadas internamente com vista a um melhor conhecimento de cada aluno por parte do professor. Em função disso, o professor destacara os 8 melhores alunos dessas provas, atribuindo a cada um deles 5 alunos entre os de piores resultados por ordem decrescente dos mesmos. Assim, ao detentor do melhor resultado coube o grupo nº 1, o cordão branco ostentado sobre o ombro esquerdo da bata e os 5 piores alunos em termos de resultados absolutos; ao 2º melhor resultado coube o grupo nº 2, o cordão amarelo e os 5 piores alunos logo acima remanescentes; ao 3º resultado, o do puto, o grupo nº 3, o cordão vermelho e os 5 piores resultados excetuados os dos primeiros dois grupos e assim sucessivamente até ao 8º grupo.

Mas o esquema não se ficava por aí: cada chefe de grupo tornara-se, nesse dia, responsável solidariamente por cada um dos colegas do seu grupo e por isso com a missão inalienável não só de manter ou melhorar o seu ranking no grupo dos 8 melhores, mas simultaneamente a de fazer subir os seus colegas piores no ranking geral do grupo e da turma.

Em pouco tempo, pensava o puto, tornara-se como os demais colegas lideres de grupo uma espécie de tábua de salvação ou herói dos seus “pupilos”, mas também alvo das mais variadas provocações ou ofensas veladas por parte dos pupilos de outros grupos e cedo começaram a surgir, entre os grupos e nos intervalos de recreio, os desafios quiçá normais da criançada masculina, mordazes e provocativos, lançados aos seus colegas relativamente aos respetivos lideres.

Ainda no outro dia, o puto vira-se obrigado a sair da sua zona de conforto durante o recreio e usar de uma agressividade até então reprimida por força da educação que sempre lhe fora incutida, para fazer face a um líder de outro grupo que, instado “pelos seus”, se dirigira a ele com vocabulário menos próprio e desafiando-o para um verdadeiro confronto de forças! O puto tentara desviar polidamente o ataque e fazer valer a razoabilidade, mas vira-se obrigado a certa altura a “despachar” o assunto, passando subitamente ao ataque e, encostando fortemente o colega à parede, levou-o a arrepender-se e desistir do ato, pois que se assim tivesse agido o puto, naquele dia e naquele preciso momento, teria perdido ali o respeito e a confiança de todo o seu grupo.

Que novo mundo viera o puto forçosamente a conhecer e com o qual passara a conviver, tão afastado e simultaneamente tão ao lado do seu! Fizera novas amizades é claro, talvez fundadas no respeito, na camaradagem e no apreço, mas também em alguns casos baseadas numa certa complacência, compreensão, solidariedade, compaixão ou submissão, eventualmente.

O troar do motor do carro do professor e o ligeiro sibilar dos travões ao parar em frente à soleira da porta exterior da escola fizeram o puto deixar em sobressalto os seus sonhos e demais deambulações sobre a sua atual experiência escolar e regressar rapidamente ao presente. O professor já lhe acenara com a mão convidando-o a entrar no carro e ocupar um lugar no assento traseiro do seu híper-asseado carrinho. Mais um dia de escola estava concluído, embora os trabalhos de casa o esperassem a seguir ao almoço que em casa o aguardava, juntamente com os seus pais e irmãos.

O dia a dia na escola lá se ia cumprindo semana após semana ao longo do ano, entre a cópia, a análise da ortografia, da caligrafia, da aritmética e matemática em geral, o desenho e finalmente a feitura do já referido ditado a concluir os trabalhos do dia usual de ocupação escolar. Não sem antes ter havido um reordenamento espacial interno dos alunos em torno do líder do respetivo grupo, pois a função deste, nomeadamente a do puto, passara a ser fundamental no sistema organizativo instalado!

E a nova disposição manteve-se em geral ao final do ano letivo e conclusão do ensino primário, apesar de alguns grupos terem conseguido atingir os seus objetivos individuais, alterando-se assim alguns posicionamentos entre grupos no contexto geral da turma. O grupo do puto foi um deles, tendo subido uma posição no ranking geral a meio do percurso anual. Mas a que custo!? indaga-se ainda hoje em dia o outrora puto quando recorda esses tempos…

Muita coisa evoluiu desde então no ensino, desde logo porque há mais de quarenta anos teve fim o Estado Novo, com o evento da Revolução de Abril e o restabelecimento de um Estado democrático, mais aberto e a implantação de um novo sistema de ensino que, apesar de longe do ideal e quiçá invadido de incongruências e desprovido de estabilidade quanto aos seus programas e estruturação, nomeadamente quando encetada nova legislatura onde parece imperar sistematicamente o princípio da tábua rasa, acredita o puto de outrora que, pelo menos, já não cala absurdidades nem abusos, nem prepotência dos docentes; apregoa, mesmo que tal nem sempre pratique, o uso da boa formação e da pedagogia na docência a par da supervisão do sistema educativo obrigatório contra os excessos, de parte e doutra. Haverá, contudo, muito ainda por fazer no nosso Ensino em Portugal…

 

 


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