Crónica Urbana: A oração de sapiência de Miguel Albuquerque

 

Rui Marote

Miguel Albuquerque apresentou-se no Fórum Madeira Global como se se tratasse de um doutoramento honoris causa. Os representantes da diáspora e convidados assistiram a uma verdadeira aula, estando ao fundo da sala o júri. O Dr. Miguel resolveu presentear a plateia com uma aula de História desde os tempos de D. Afonso Henriques até às invasões napoleónicas, para que os presentes entendessem que a nossa riqueza está no mar. O presidente cantou a epopeia portuguesa com datas e tudo e ate desafiou os historiadores presentes com uma lição pensada na passadeira do ginásio.

Sem papel e bem artilhado, disparou em todos os sentidos e até salientou que quando João Gonçalves Zarco chegou à Madeira verificou que o território era pequeno e meditou que a extensão da nossa plataforma marítima era 40 vezes superior à superfície física do território português. No entanto esqueceu já que falamos de História, que após o 25 de Abril destruímos a nossa frota marítima, destruímos os estaleiros, destruímos aquela História que narrou no “Vidamar” e que contagiou os presentes.

Mas na Madeira temos alguns casos: o Arsenal da Madeira Engineering que deixou a zona velha da cidade e se instalou na zona franca do Caniçal, com magníficas instalações e até uma mini doca seca. Qualquer navio que queira fazer uma manutenção tem de recorrer a Canárias ou aos estaleiros  de Lisboa ou Viana do Castelo, o que acontece todos os anos com o Lobo Marinho. Hoje a zona do Arsenal no Caniçal está praticamente extinta.

A CEE mandou desmantelar a nossa frota pesqueira. Há 40 anos que as nossas ligações marítimas de passageiros com o continente não existem. Os madeirenses estão dependentes do avião e cada vez mais os ventos penalizam-nos. Estamos de costas viradas para os arquipélagos nossos vizinhos, como Canárias, Açores e Cabo Verde, que só são lembrados quando se usa a palavra Macaronésia ou quando algum desses representantes nos visita. Nessa altura são recebidos com grandes manjares, não passando disso.

Só agora a nossa soberania nas Selvagens concretizou-se efectivamente com vigilância radar, com Polícia Marítima a somar-se aos Vigilantes da Natureza… mas foram precisas ameaças constantes de “nuestros hermanos” em quererem apoderar-se daquelas ilhas, que sempre foram nossas e que eram territórios abandonados no Atlântico. Só nos últimos anos começaram a ser visitadas por presidentes da República e ministros. O nosso bem haja à Marinha Portuguesa que arregaçou as mangas e que mantém a Selvagem Pequena e Selvagem Grande sob 24 horas de vigilância operacional.

Enfim, lamentando a diferença entre a nossa realidade marítima actual, salvo aquilo que a nossa Marinha ainda nos vai assegurando, nos resta terminar esta crónica citando Camões. Só faltou a Albuquerque fazê-lo.

     “E também as memórias gloriosas
              Daqueles reis, que foram dilatando
              A Fé, o Império, e as terras viciosas
              De África e de Ásia andaram devastando;
              E aqueles, que por obras valerosas 
              Se vão da lei da morte libertando

              Cantando espalharei por toda parte,
              Se a tanto me ajudar o engenho e arte”