Câmara da Ponta do Sol “está parada, o concelho é só festas e o povo não come festas”

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Indalécio Santos, o candidato da CDU à Câmara da Ponta do Sol, pede aos eleitores para não irem em “cantos de sereia”. Foto Rui Marote

As eleições autárquicas são avaliadas com um cunho muito personalizado. A fórmula do candidato natural do concelho, gente da terra, homem ou mulher que conhece o povo do dia a dia, parece ser aquela que, em função do comportamento do eleitorado, melhor se encaixa no perfil para ganhar votos. Parece ser esta a nota dominante. Mas só parece, do ponto de vista do candidato da CDU à Câmara da Ponta do Sol, não considera essa uma mais valia. Quando lhe dizem que não é natural daquele concelho, responde que quem tem feito o trabalho quando as pessoas precisam de apoio, o que tem acontecido várias vezes, é a CDU no seu todo, é a CDU que tem estado ao lado das pessoas. E no seu caso particular, conhece os problemas da Ponta do Sol em pormenor. “E eu tenho estado lá, com a CDU”.

A eleição de um vereador mudaria o cenário político

É esse todo que vai funcionar como mola impulsionadora para levar o projeto que a candidatura defende para a frente. E que quer ver concretizado com resultados, como seja a eleição, pela primeira vez, de um vereador, como deixa claro Indalécio Santos, o homem que a Coligação escolheu para levar a bom porto o projeto para aquele concelho. “A eleição de um vereador da CDU mudaria o cenário político na Ponta do Sol. Isso aconteceu noutros concelhos, onde desenvolvíamos um trabalho de proximidade, mas que foi potenciado depois de elegermos representantes nos orgãos autárquicos”.

Aquela gente trabalha para a economia e a Câmara nem lhes dá o chão

O candidato não tem qualquer dúvida em afirmar que “a população precisa da CDU” e é para demonstrar isso que traz à lembrança um caso recente de luta dos agricultores, que foram notificados pela GESBA para devolverem dinheiro, e que pediram ajuda à CDU. Foi com a nossa ajuda que eles contaram”.

Indalécio Santos já identificou um conjunto de grandes problemas na Ponta do Sol. Foca um, a agricultura. Diz que se trata de “um concelho que tem condições ímpares para a produção, com água de fartura e terrenos férteis. E tem agricultores que trabalham arduamente aquelas terras, que contribuem para aquela economia, mas que não veem o seu trabalho reconhecido pela autarquia. Temos conhecimento de vários casos em que os agricultores, para chegarem aos seus terrenos, passam por veredas que são um perigo, só um louco é que se mete ali. A vereda da Rocha às Capelas, estivemos lá, é uma vereda íngreme, grande parte em terra e quase meia hora de percurso. Aquela gente trabalha para a economia local e a Câmara nem lhes dá o chão em condições. Isto é vergonhoso”.

Na altura de fazer campanha aparecem uns pavões

Mostra-se indignado com estas situações. Endurece o discurso para aqueles que só se lembram das pessoas nas eleições: “Na altura de fazer campanha, aparecem uns pavões, que prometem mundos e fundos às pessoas, mas nem conseguem garantir a base por onde elas têm que passar para os seus terrenos. Há dias, num debate, o candidato do PSD veio falar de sistemas inovadores de rega, quando todas as pessoas da Ponta do Sol sabem que se há coisas que o concelho tem de fartura é a água para rega. O que os agricultores não têm é um chão para chegar aos terrenos. Isto é gozar com as pessoas”, reforça a ideia.

Ponta do Sol é concelho de festas

O candidato da Coligação Democrática Unitária, que engloba o PCP e o Partido Os Verdes, acusa a atual vereação, liderada pelo social democrata Rui Marques, de ter transformado a Ponta do Sol no concelho das festas. “Mas esquecem-se que o povo não come festas, apesar de precisar de momentos de lazer. O povo quer ter dinheiro no bolso, mas a autarquia anda parada”. Aborda o turismo como sendo um setor onde o concelho tem igualmente potencialidades, mas diverge de outros partidos quanto ao caminho para chegar aos objetivos. Primeiro, criar condições de oferta e depois, se necessário, construir hotéis. “A prioridade do nosso pensamento não é dar mais lucro ao senhor Trindade ou ao senhor Pestana, que acabam é por explorar as pessoas. A grande questão, aquela que se afigura, em nossa opinião, como principal, é criar oferta cultural, com iniciativas que incentivem os visitantes, com melhorias das praias Depois disso, sim, pensaremos em unidades hoteleiras. Mas não é com praias como aquela que está em frente ao Bairro dos Pescadores, na Madalena do Mar, que ainda corre esgoto. Como é que isto é possível? É estimular o turismo? A frente mar tem espaços lindíssimos, mas nada daquilo está devidamente estruturado para receber bem as pessoas, parece estar mesmo ao abandono”.

Desemprego, alcoolismo, juventude sem futuro…

A área social, que é o “terreno por excelência” da CDU, tem aqui uma particular atenção, dado que “a Ponta do Sol tem problemas gravíssimos de desemprego” e as zonas altas do concelho registam “casos extremos de pobreza”, para além do “problema do alcoolismo”. Os jovens “sem perspetivas de futuro” constituem um outro problema a enfrentar. Indalécio Santos vira-se de novo para a Câmara, considera que a autarquia podia ter um programa de apoio ao arrendamento jovem, mas também podia oferecer o projeto se se tratasse de construção de habitação, seria um importante apoio para a juventude que está a começar a sua vida e assim poderia fixar-se no concelho. Não seria caridade, seria apoio importante”.

Ribeira da Ponta do Sol é uma “bomba relógio”

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“Aquela gente não aprendeu com o 20 de fevereiro, estreitaram a ribeira e não contentes com isso, alteraram o seu curso e ainda construiram o Centro de Saúde, a Escola e uma bomba de gasolina. Foto Rui Marote

O ordenamento do território é outra das questões que a CDU elege como determinantes nesta luta eleitoral. Fala da ribeira da Ponta do Sol como sendo uma “bomba relógio”, diz que “aquela gente não aprendeu com o 20 de fevereiro, estreitaram a ribeira e não contentes com isso, alteraram o seu curso e ainda construiram o Centro de Saúde, a Escola e uma bomba de gasolina. A obra é do governo, mas a Câmara deveria ter voz na matéria alertando para os perigos e bater o pé a dizer que aquilo não está bem. Parece que as autarquias, quando são da mesma cor política do governo, dizem que sim a tudo e baixam a cabeça que nem cordeirinhos”.

A autarquia deve estar ao lado das populações

A Câmara da Ponta do Sol regista mandato de “inércia”, acusa Indalécio Santos, que faz questão de sublinhar que aquilo que diz “é a opinião do povo”, é “o que me dizem nos contactos que mantenho com a população”. Reforça que “a autarquia deve estar ao lado das populações em qualquer circunstância, mesmo que isso implique adotar uma postura contra decisões do governo. Quando os bananicultores precisaram de ajuda, o dever da Câmara e do seu presidente era estar ao lado deles na defesa dos seus interesses e não foi isso que aconteceu. Isto não é propaganda política, isto é estar ao lado de quem trabalha pelo concelho”.

Há “uns artistas que contam histórias”

É neste contexto que, na opinião do candidato, a população vê na CDU “um aliado para os seus problemas”. E pede aos eleitores para “não irem atrás dos cantos de sereia”, sabe que “o povo não é burro”, mas também sabe que “pode ser iludido com promessas, que num contexto de desespero, com tantos problemas, são vistas como possíveis de concretizar”. Acusa a existência de “uns artistas que contam bem histórias”, que acabando as eleições desaparecem.

O estigma que durante anos estava ligado ao Partido Comunista, com dificuldade de ser aceite pelas populações, poderia ser um dos obstáculos à prossecução de qualquer estratégia. O candidato da CDU diz que não, os tempos são outros e “hoje, somos muito bem recebidos. Digo-lhe que, em todos os concelhos, verificamos já uma grande abertura à CDU, pedem-nos para voltar e até há dias, numa das nossas ações de campanha, uma senhora fez questão de nos dar uma caixa de banana e um senhor ofereceu garrafas de vinho. Isso demonstra, como deve saber, aquilo que nas zonas rurais está bem enraizado na população, de bom coração, de oferecer a quem gostam e simpatizam. Foram episódios que registei com muita satisfação. Se nos acompanharem vão ver isso”.

CDU é o único partido “contra o capitalismo explorador”

O que se passa, relativamente a eventuais reticências da aceitação da CDU pela sociedade, tem mais a ver, como refere, “com a existência de propaganda e interesses económicos, que não gostam da ação da CDU. Mas posso afirmar, doa a quem doer, que a CDU é a única força política que está na batalha contra o capitalismo explorador. Não há mais, somos únicos contra uma sociedade em que o poder económico quer dominar”.