Sem hesitar

 

A

Há uns dois meses, neste mesmo espaço, escrevi um texto que intitulei “Que Mais Não Seja, Pelos Nossos” em que, preocupado, procurei dar uma ideia do que se poderia estar a passar na Venezuela, face às notícias que nos iam chegando, e de tudo o que isso significaria para esse grande país, para a sua população mas, mais, ou sobretudo, para os nossos conterrâneos e compatriotas e que ao longo de muitos anos a haviam escolhido para construírem as suas vidas e preparar o futuro dos seus, convencidos que estavam, e quem os poderá criticar por isso, de que era aquele o mundo que lhes abriria as portas da esperança para que, de forma consolidada e fiável, tornassem em realidade os sonhos de uma vida.

De então para cá, tudo o que tem vindo a acontecer pelas mãos daquela clique dirigente que toma a Venezuela como património seu e tabuleiro dos seus perversos jogos de poder, é a confirmação da subversão da democracia, das agressões sistemáticas à liberdade, do aberrante conluio entre os poderes executivo e judicial, do desprezo pela instituição parlamentar e pela vontade popular nela reflectida, do terror de Estado contra os cidadãos, da violação dos direitos do Homem e da destruição de um país que tudo tinha para se afirmar como um caso de sucesso no concerto das nações.

Depois da mais do que discutível eleição (?), sob todos os pontos de vista, de uma assembleia constituinte, – não me atrevo a redigir o seu nome em maiúsculas -, anteontem, à margem de todas as regras que a democracia e o Estado de Direito postulam, alimentando um indisfarçável clima de violência e intimidação, e sob claríssima e sonora suspeita da comunidade internacional que se recusa a aceitar como boa a prática antidemocrática e tendencialmente totalitária adoptada, surge como evidente o caminho escolhido: a ditadura; com todo um sinistro cortejo de consequências que, repito, não quero que sejam suportadas por ninguém mas que, de forma mais veemente, quero ver longe de todos aqueles que nos inspiram mais atenção e cuidado.

Não sei se me surpreenda, apesar de tudo, de, face a um quadro que me limitei a pincelar com as cores da convicção, da intranquilidade e da solidariedade, ver, ouvir e ler as tentativas ensaiadas de justificar o injustificável, de defender o indefensável, de legitimar o “crime”. Dir-se-ia, há uns anos, que era a minha costela pequeno-burguesa a ditar as regras da avaliação ao sucedido… pois que seja, não gosto de ditadores, nem de ditaduras nem dos males que carreiam para as sociedades que, sem tergiversar, queremos livres, desassombradas e respeitadoras dos cidadãos e dos seus direitos enquanto tal.

Estou, como resulta óbvio, ao lado da democracia, da liberdade, do respeito pelas instituições e pelos direitos do Homem e, portanto, na defesa do único instrumento que pode devolver a verdadeira soberania à Venezuela: eleições gerais livres, transparentes, observadas sem limitações pela comunidade internacional que as deverá validar atestando a correcção da sua realização bem como dos métodos utilizados.

Só assim a Venezuela recuperará o prestígio e o crédito de que necessita para retomar os caminhos do desenvolvimento e do progresso económico e social.

B

Fui-me apercebendo de que, em eufórica festa partidária que anualmente se repete no Chão da Lagoa, fez presença o líder do PSD e antigo primeiro-ministro de Portugal. Sim, aquele que, em quatro anos e meio, tudo fez para que a pobreza generalizada se instalasse, para que as empresas falissem, para que os jovens emigrassem, para que as pensões recuassem, para que os salários diminuíssem, para que os impostos aumentassem, para que as prestações sociais sucumbissem, para que o SNS se descaracterizasse, para que a escola pública se inferiorizasse, para que o País fosse, finalmente e em suma, um destino que os ricos procurassem para encontrarem os pobres que docilmente os serviriam. E assim teria sido, não fosse a vontade esclarecida de uma maioria que se revelou indisponível para que isso acontecesse e que, com o estribo da democracia, da Constituição e do Estado de Direito, foi desbravando os caminhos da esperança, devolvendo aos portugueses a confiança num futuro em que a dignidade de cada um e de todos não seja posta em causa pelas circunstâncias que um mero e conjuntural poder possam excepcionalmente sugerir e ser acriticamente aceites por quem entende que o poder não respeita promessas nem “presta contas”.

Tudo como o costume, com o inebriamento habitual e com o adormecimento necessário para que a personagem se permitisse, perante os madeirenses e com a concordância de uma parte deles, fazer de conta que o PAEF, – Programa de Ajustamento Económico e Financeiro -, não existiu e não tivesse tido as consequências que A Madeira e o Porto Santo têm vindo a experimentar e cujo fim, longe da conclusão que tarda, parece destinado a manter-se, mantendo também a insegurança, o receio, a dúvida e a incerteza na preparação dos árduos caminhos a trilhar para que o amanhã seja viável.

É verdade. Foi responsabilidade sua a imposição, os termos, a quantificação, as limitações e os condicionamentos constantes do programa, então a executar, e foi graças a ele que o desemprego cresceu, que as falências dispararam, que os madeirenses voltaram a procurar novos (e em muitos casos, regresso aos antigos) destinos para resolverem as suas vidas, que o serviço público de saúde enfrentou, e enfrenta, as maiores dificuldades, que se sentiu de forma acentuada e imoral o aumento de impostos, que as condições de vida se foram agravando e tornando crescentemente mais duras e difíceis de ultrapassar…

A Autonomia, em todo este processo, foi, pela ignorância a que foi votada, letra morta e, convenhamos, saiu lesada, amachucada, envergonhada e rendida ao discurso de um desalmado discurso responsabilizante e centralista.

A palavra de ordem deveria ter sido, nessa como em outras festas semelhantes que por cá se ritualizaram, brindar à autonomia, elevá-la, prestigia-la, dignifica-la, exaltá-la.

Estiveram mal os que, com ele convivendo, preferiram exaltar, o seu algoz.

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Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.