Crónica Urbana: 220.274 euros para a Festa da Flor, 252 mil euros para a Extreme Sailing… “está tudo grosso”?

Rui Marote

Lembro-me dos números da mercearia da Bem Posta, na rua da Boa Viagem, ao lado da antiga sede do Club Sport Marítimo, que até chumbos e anzóis vendia. Não havia IVA nessa altura, muito menos caixa registadora, apenas uma gaveta.
Hoje está tudo ligado às Finanças e tem recibo. Contavam-se antigamente pelos dedos quem tinha formação em “económicas e bagaceiras”. Quem tinha o curso da Escola Industrial em datilografia e contabilidade já não precisava de contar pelos dedos.
Hoje até o homem da praça do peixe tem um telemóvel de última geração embrulhado num plástico, anunciando aos clientes o valor exacto a pagar. Acabaram as contas na banca de mármore, munido o comerciante de um coto de lápis fixado na orelha.
Hoje tudo está orçamentado. Há gestores, economistas, estudos económicos, associações de promoção e por ultimo as reuniões de Governo, decidindo a verba a orçamentar, com o secretário da pasta de Finanças dizendo Amén e mais tarde dando a cara a defender a conta no Parlamento. O apito final é o Tribunal de Contas.
Quando em título salientamos que está tudo “grosso” não é no sentido depreciativo, mas para dar mais ênfase à loucura dos números.
O cartaz da Festa da Flor é o maior evento turístico da Madeira; os números ultrapassam a Festa de Fim-de-Ano.
Miguel Albuquerque anunciou que irá analisar estatisticamente a Festa da Flor para saber, concretamente, quanto contribui este certame para a economia da Região. Albuquerque considerou esta celebração absolutamente fulcral na oferta turística e lúdica actual da Região e mostrou-se “muito expectante” de possuir dados concretos. Aplaudo.
A nossa capacidade hoteleira ultrapassou os 90% e pela primeira vez tivemos um cartaz durante três semanas sempre em Festa, sendo já anunciado que no próximo ano será um mês inteiro com flores. Importadas ou não, a Festa promete. Os custos cifram-se num total de 220. 274 euros orçamentados, o que foi publicado no JORAM.
A Festa da Flor é um cartaz turístico promovido nos quatro cantos do mundo, e a RTP – Madeira esteve ao serviço da região, não falando noutros canais como a RTP Internacional e a RTP África.
Agora vamos a outro cartaz condenado, no qual continuamos a investir 252 mil euros, ou seja, mais 31.726 euros que na Festa da Flor. O evento está previsto para o próximo mês de Junho, desde o dia 29 até 2 de Julho. O secretário da Economia e Turismo continua a defender o investimento de milhares de euros na realização de uma prova da Extreme Sailing Series na Madeira e na visibilidade que tinha da Equipa Visit Madeira (que já não existe) com projecção internacional que sustentava um evento desta natureza a nível mundial e que dava a conhecer a região como destino turístico.
Já falámos há meses dos episódios da não presença da famigerada equipa que ostentava na vela a palavra Madeira.
Não esqueçamos que no ano transacto a falta de vento foi um fracasso para este evento. Para a hotelaria madeirense, traduziu-se na presença de 120 pessoas que se deslocaram à Madeira.
Arranjar cartazes para satisfazer “clientelas” não serve os interesses da região e empobrece os cofres da promoção turística. Quem virá no futuro do “rectângulo” atrás dos barcos voadores? Não se prevêm aviões charters de amantes da vela quando a Extreme Sailing desfilará na baía de Cascais.
Miguel Albuquerque aqui é que deverá analisar dados estatisticamente e acabar com estes brinquedos de meninos ricos, que prometem o céu e a terra, mas têm o inferno às portas.
Pouco importa ser economista ou gestor, quando o dinheiro não lhes sai dos bolsos.


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