Crónica Urbana: Fazer enxertos de pedra na Sé julgando tratar-se de meias solas…

Rui Marote
Há quem se sujeite a ser comprado por um prato de comida. E há quem seja convidado, com a obrigação de dizer que tudo está bem.
Visitámos as obras de restauro da Torre da Sé que irá custar 193 mil euros, mais de 40% dos quais “engolidos” à nascença pelo aluguer, montagem e desmontagem dos andaimes.
Não duvidamos da empresa que está efectuar esses trabalhos, cotada no mercado nacional, das melhores que existem em Portugal, nem do seu corpo técnico.
Mas pelo que vimos, a situação merece o nosso reparo para que a próxima geração possa ver a torre da Sé…
Fazendo o balanço da visita, a mesma leva-me a concluir, e espero estar errado, que atrás desta intervenção, ao retirarem os andaimes e as telas brancas, ver-se-ão os enxertos de pedras a julgar ser meias solas a cair, bem como a culpa a morrer solteira.
A Sé é um monumento único porquê? Devido às sete variedades de rochas vulcânicas aplicadas e às 25 tonalidades cromáticas. Muitos madeirenses que olham para a torre da Sé  simplesmente para consultar o relógio não se apercebem das tonalidades de cor, à medida que o Sol beija a cantaria.
A conservação e o restauro dos monumentos têm como objectivo salvaguardar tanto a obra de arte como as respectivas evidências históricas”
 
                                                           (Carta de Veneza-1967 art.3)
A cantaria que está na torre da Sé é originária do Cabo Girão. A amostra que nos foi dada a ver é regional, mas não é do local de onde a original foi extraída, o que nos levou a interpelar e causou uma tempestade num copo de água.
O Funchal Notícias recorda que, aquando das obras de desvio da foz da Ribeira de São João, foram descobertas galerias em arco de pedras de cantaria originárias do Cabo Girão.
Alertámos para o desvio dessa pedra pelo construtor da obra, que a depositou no seu estaleiro. Depois do nosso alerta, a DRC recuperou a pedra, que mais tarde fotografei na Torre do Capitão, em Santo Amaro, onde ainda se encontra. Sabíamos que haveria em breve uma intervenção  na Sé e que a mesma seria ouro sobre azul.
Nada disso está a acontecer; somente uma pedra de cantaria vermelha foi substituída para consolidar o pináculo que se encontra virado para a Rua do Aljube (pedra regional mas não original).
Muitas intervenções iguais deveriam ter existido, substituindo a cantaria doente. A equipa aplicou as tais “meias solas” com cerca de três centímetros de espessura, quando deveria ser de espessura de sete a dez centímetros, para lhe dar mais consistência. O que vimos foi “mata juntas”, o preenchimento da consolidação entre pedras com cal. Os trabalhos iniciaram-se em meados de Janeiro e só em Março é que a equipa foi alertada de que não estava a ser aplicado o material cromático  para as tonalidades das cantarias.
O técnico quis deixar aos visitantes a ideia que o sismo de 1748 foi um dos factos relevantes para o estado da torre. Queremos alertar para o movimento de automóveis ao redor deste templo mnuelino ao longos de décadas e décadas (hoje em menor escala, uma vez que não circulam automóveis pesados) e para a poluição.
Não esqueçamos os excrementos dos pombos, que eram às centenas, fazendo do local um autêntico pombal. Ainda hoje esses vestígios estão patentes nos sinos, que têm uma crosta de uns milímetros, necessitando de uma limpeza. Tudo isto contribuiu para a degradação do maior património arquitectónico da Região. Nas escadarias em caracol, nos degraus danificados, em certos pontos cabe um sapato. Mas as intervenções não têm fim. O Governo Regional deveria prolongar a desmontagem do andaime que custou os “olhos da cara” para passar a pente fino as obras que faltam concluir.
Ao finalizar os trabalhos, nomear uma equipa de peritos para avaliar o que foi feito e programar novas intervenções.
Por último, deixamos um ponto de interrogação. A DRC possui estudos de pedra a pedra, as quais foram numeradas e dados técnicos e outras avaliações chamando a atenção para como se deveria proceder às intervenções.
Será que esses estudos caíram nas gavetas…
Não sou perito em pedras, mas acompanhei por várias vezes e escutei opiniões de professores que nos visitaram, alguns que apresentaram os seus relatórios, alertando.
Termino com um  provérbio: “Oh sapateiro, quem te manda tocar rabecão”…