Daniel Sampaio alerta na Jaime Moniz: indisciplina começa a ser sentida na universidade

Fotos Carlos Freira.

A problemática da indisciplina não afeta apenas os ensinos básico e secundário mas é também já sentida no ensino universitário, nomeadamente no primeiro ano de alguns cursos. Uma informação partilhada aos professores por Daniel Sampaio que esta manhã abordou o fenómeno da indisciplina escolar, na Escola Secundária de Jaime Moniz.

Para este professor catedrático, não há milagres para um problema complexo mas a questão essencial pode tentar resumir-se a um dos aspetos fundamentais: “A relação do professor com os alunos é construída com base numa interação, desde o primeiro dia de aula, e vai sendo sedimentada pela confiança recíproca”.

Com um longo trabalho desenvolvido junto dos adolescentes e das famílias, este conceituado médico psiquiatra, hoje aposentado mas sempre em contacto com a realidade escolar do nosso país, veio à Madeira a convite da ESJM, em articulação com a CRIAMAR-Associação de Solidariedade Social para o Desenvolvimento e Apoio a Crianças e Jovens, no sentido de trabalhar com os docentes e alunos as várias dimensões da indisciplina.

Numa primeira linha de abordagem, o professor traçou o quadro com as características do professor e dos alunos de há uns anos em cotejo com a realidade atual, enunciado as mudanças operadas na relação destes agentes de ensino, com natural destaque para o desenvolvimento tecnológico, nomeadamente do computador e do mundo apreendido pelo jovem através desta ferramenta. Também procurou desfazer equívocos:  A “inquietação” que caracteriza o adolescente é natural e não pode ser imputada a questões mentais. “A questão da indisciplina não é uma questão de perturbação mental do jovens, embora mais de 70% dos problemas de saúde mental se manifestem na adolescência”.

A configuração polifacetada da família foi também abordada pelo ex-diretor do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, mas Daniel Sampaio alerta para uma realidade: “Muitos pais têm pouca autoridade sobre os filhos, particularmente na adolescência”, sendo disso exemplo também os recentes desacatos dos finalistas portugueses em Espanha.

Outra variável a ter em linha de conta é a forma como os jovens apreendem hoje a realidade, de forma horizontal, com base na receção de grandes conteúdos informativos que lhes chegam através da Internet: “Os jovens vivem hoje num mundo à parte, numa outra galáxia”. Acontece que, na sala de aula, as coisas funcionam de forma vertical na transmissão dos conteúdos. Daqui resultam os conflitos.

A indisciplina coloca em análise a autoridade merecida e a autoridade construída. Tudo isto é um processo de construção que se define à partida com a fixação de limites, mas de forma construída, numa interação contínua, firme e coerente entre professor-alunos.

Daniel Sampaio lembrou também que “qualquer comportamento na sala de aula é comunicação. A indisciplina insere-se sempre numa história relacional entre professor-alunos. Em regra o conhecimento biográfico, familiar é pouco útil na questão da indisciplina. O que importa é a cooperação na definição das regras e a sua manutenção. É de evitar comentários sobre a vida pessoal do aluno que em nada interessam ser feitos na sala de aula, pois só criam anticorpos”.

Também não há mudanças rápidas. Um aluno assaz perturbador não muda de um dia a outro mas há que valorizar os pequenos progressos. É também importante sair do esquema acção-reação face aos imprevistos. O importante não é cair no confronto professor-aluno mas reagir ao imprevisto de forma a desconcertar o seu autor.

Outro aspeto salientado prende-se com o facto de a heterogeneidade das turmas sere um fator de progresso, pois permite o trabalho cooperativo.

Por fim, Daniel Sampaio insiste: “A relação do professor com os alunos é construída com base numa interação, desde o primeiro dia de aula, e vai sendo sedimentada pela confiança recíproca”.

Na parte da tarde, Daniel Sampaio reuniu com quatro turmas do 10.º e 11.º anos de escolaridade da ESJM e, na presença de apenas meia dúzia de professores, quis escutar apenas os alunos que, por sinal, foram muito participativos.

No debate, os alunos apontaram alguns problemas e consideraram importante a urgência do professor cativar os alunos pela interação e por um método de ensino variado, podendo falar-se em métodos ativos. Da parte dos alunos, são os próprios a sugerir que há que dar ao professor a possibilidade de organizar a sua aula, na base do respeito mútuo.