Cafôfo diz que retirar o gado da serra não ajudou a prevenir aluviões

A Câmara Municipal do Funchal acolheu e co-organizou hoje uma conferência nos Paços do Concelho, para debater um tema polémico, o pastoreio. A conferência foi muito participada e Paulo Cafôfo justificou a co-organização por parte da autarquia com o argumento de que “as entidades públicas não podem ficar alheias a este debate”.

Na sua intervenção, o edil funchalense disse que a questão do pastoreio nas serras da Madeira, e do Funchal em particular, é antiga.

“Foi um debate polémico e muito polarizado desde o início, que só acabou silenciado quando a pastorícia perdeu preponderância na economia regional e as pessoas dela começaram-se a afastar, porque os subsídios para abater o gado compensavam, porque havia alternativas laborais e porque vigorou um entendimento político, segundo o qual o gado nas nossas serras punha em causa tudo e mais alguma coisa, e que levou a que o debate ficasse esquecido na prateleira”, disse Cafôfo. “Passaram quase 20 anos desde que o gado saiu das serras e, no entanto, o principal problema estrutural subsistiu, ou se calhar até piorou: a segurança das nossas serras continua em xeque, como infelizmente se tem provado de forma cada vez mais avassaladora”, opinou.

 

Cafôfo considerou que não se deve temer o debate, embora, “evidentemente que, hoje em dia, ninguém defende o gado na serra como estava antigamente”. Mas a verdade, disse, “é que somos forçados a admitir que as soluções adoptadas nas últimas décadas no controlo dos incêndios e na prevenção de aluviões revelaram-se ineficazes e consumiram recursos financeiros demasiado elevados. Sabemos também que os fenómenos climáticos extremos, cada vez mais frequentes e arrasadores, impõem uma estratégia de actuação com objectivos alargados e integrados de prevenção e redução dos riscos para pessoas, bens e ambiente. O actual desequilíbrio existente nas serras do Funchal constitui, neste caso, uma ameaça permanente à cidade, pelo que é urgente pensar mais longe e tentar fazer diferente”, sublinhou.

“Sabemos que outras regiões têm conseguido bons resultados recorrendo ao pastoreio holístico e à transumância e, no entanto, estas práticas continuam a não ser bem recebidas na Madeira, pelas entidades oficiais. O gado ajuda a fertilizar os solos, o que previne aluviões, e a limpar terrenos, o que previne incêndios. E é importante perceber que esta não tem de ser uma escolha entre pastoreio e floresta, entre actividade económica e Natureza”, defendeu.

O que está à consideração, disse, é a possibilidade do gado voltar a ir à serra por períodos curtos, para regenerar os solos, dando por adquirido que, para estar na serra, é evidente que o gado tem de ter um pastor. Faz sentido, considerou, que se diminua genericamente o número de cabeças de gado e que elas sejam trazidas para zonas mais baixas, indo à serra menos dias, numa abordagem integrada em que também seria possível resolver outros problemas estruturais, como os terrenos agrícolas abandonados em cotas médias, que são outra grande vulnerabilidade em caso de incêndios, e que poderiam ser uma mais-valia quer na agricultura, quer na pastorícia.

Na conferência participaram três técnicos espanhóis, das Astúrias e das Ilhas Canárias, que falaram, entre outros temas, de um programa para a recuperação do pastoreio tradicional nos Picos da Europa, do projecto de prevenção de incêndios com gado em Canárias ou ainda de uma abordagem holística nas perspectivas sobre a paisagem, o turismo, a cultura e a transumância, também a partir do exemplo das ilhas Canárias.