Pescadores descontentes no Caniçal com carta de pontos e chamada obrigatória à escola

Barco parado não ganha frete. Embarcações à espera da nova época, no cais do Caniçal. Fotos FN.

Domingo solarengo de mãos dadas com o vento, no Caniçal. Barcos em terra à espera da fiscalização obrigatória antes de se fazerem ao mar na mira da tão ansiada pescaria, essa que costuma estar longínqua. Mas os pescadores não estão contentes e não é por conta da má sorte no mar. É certo que não é fácil animar os homens do mar, porque a fortuna teima em andar longe das embarcações. Mas, desta vez, andam na escola por obrigação.

Mas não só. São agora obrigados a ter redobradas cautelas porque a carta de marear está sujeita aos pontos como a de um condutor de um veículo ligeiro… “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, como bem preveniu o imortal Camões no século XVI.

O pessoal da beira mar do Caniçal está habituado a tudo. Quem enfrenta ventanias e nortadas, mais marés de azar do que de fortuna, está certamente rodado nas provações da vida. Mas, desta vez, o pescador “come e cala”, como revelaram ao reportagem do FN alguns pescadores, num misto de revolta e impotência. “As regras são ditadas pela União Europeia e o Governo Regional acrescenta outras”, comentam com ar de poucos amigos, com indisfarçável insatisfação.

Todos obrigados a cumprir a lei, porque a fiscalização da polícia marítima aperta.

Mãos nos bolsos, olhar longínquo e palavras que não têm filtros, com pouca paciência para explicar a forasteiros algo que não lhes resolverá a vida. Mas sempre lá vem uma palavra ou outra atiradas com desânimo. Com uma condição: sem rosto para a foto porque “esta terra é demasiado pequena e quem fala é mais castigado”.

Nos últimos dois meses, os pescadores – grande parte deles abrangida pelo subsídio de desemprego –  foram chamados, com ordem de obrigação, à escola. Motivo? Fazer formação na Escola do Caniçal para poder continuar a receber o subsídio de desemprego. Uma forma interessantíssima para o Governo Regional ocupar estes trabalhadores inativos, num período de transição, mas que não agrada a todos. Grandes e pequenos, chamados aos bancos da escola para formação. Nunca é tarde para aprender e o saber não ocupa espaço, deviam saber. Mas argumentam: “Dão uma esmola ao pescador, com base nos reduzidos descontos que fazem, e ainda obrigam a malta, com idade avançada e cansada de uma vida difícil, a frequentar a escola. Estão a brincar connosco…”

Enquanto a embarcação está atracada, o pescador volta à escola.

Ainda assim, voltar à escola não é o que mais revolta os pescadores, sobretudo porque têm tempo de sobra para o fazer, estando parados como estão à espera de março e abril para investir na nova época do atum. A gota de água é a novidade da chamada carta por pontos que também chegou aos homens do mar. Até 30 pontos, as sanções vão sendo registadas, para o infrator, armador e mestre. Uma vez esgotado o plafond dos pontos, não pode ir ao mar. “Nunca se viu na beira mar tamanha asneira. Os doutores da lei que fazem estas coisas no conforto dos gabinetes, deviam fazer uma viagem connosco para ver o que custa ganhar uns trocos, debaixo de temporal, para alimentar tantas bocas e depois veríamos se tinham tempo para criar cartas por pontos”.

Todos sabem que há uma preocupação das autoridades em organizar e disciplinar um setor por vezes avesso à regra, uma vez que historicamente sempre se entendeu e funcionou numa certa desordem. Mas, desta vez, a polícia marítima espreita e as capturas e descargas de peixe são monitorizadas. Cada infração, é ponto que se perde.

O sol aperta tarde dentro e a ventania não quer ficar atrás. O passeio higiénico do domingo atrai o público até ao cais do Caniçal, alheio e indiferente ao queixume dos pescadores. O mar faz cara feia ao visitante, emnpurrado pela ventania. Mas os pescadores também já aprenderam a fazer escola com o provérbio “há mais marés do que marinheiros…”