Única instituição que reabilita portadores de doença mental tem poucos apoios e aguarda licenciamento de residência há ano e meio

MENTAL-O monitor
O monitor Paulo Nóbrega acompanha algumas atividades dos utentes.

A sociedade criou o estigma e mantém-no num patamar assustador de exclusão. A estratégia de Saúde na Região alimenta-o com a inexistência de medidas que possam, de alguma forma, enfrentar o problema da doença mental com a sensibilização e com a naturalidade que o mesmo exige. Este quadro, em traços gerais, é feito com base na leitura transmitida ao Funchal Notícias por Fátima Mendes, responsável pela direção da AFARAM (Associação de Familiares e Amigos do Doente Mental na Região), relativamente à situação que se vive na Madeira, onde a instituição que orienta é caso único com as caraterísticas que oferece ao nível do apoio à reabilitação, no dia a dia do doente mental.

Novo modelo de assistência psiquiátrica

Na génese deste tipo de instituição, com vários espaços semelhantes no Continente, está a necessidade de encontrar uma outra orientação para um modelo comunitário de assistência psiquiátrica, bem como a desinstitucionalização, retirando os doentes das grandes unidades hospitalares psiquiátricas e tratá-los na sua comunidade, proporcionando-lhes uma “vida dita normal”, de apoio consequente e, por via disso, um acompanhamento mais adequado às necessidades que cada, por si só, tem.

´MENTAL-Fátima Mendes
Fátima Mendes considera que a sociedade continua a ter um um estigma relativamente a pessoas portadoras de deficiência mental.

Os propósitos são de grande relevância, a missão também, os resultados oferecem garantias de que se trata de um modelo com especificidades importantes, que se encaixa nas exigências que estes doentes têm e que, em consequência disso, oferece, de alguma forma, a qualidade de vida mínima possível aos utentes, bem como a segurança e a tranquilidade, não só às famílias, mas à própria sociedade, já de si profundamente relutante em abordar o assunto. A reintegração poderia ser encarada de outra forma se houvesse uma convergência de esforços tendentes a enfrentar o problema da Saúde Mental com uma visão integrada. Muitos preferem “varrer para debaixo do tapete”, querendo esconder o problema na vivência do dia a dia. O caminho mais fácil.

Recebe 2.800 e paga 1.500 à Segurança Social

A AFARAM, instituição privada, constituída em 2001, com estatuto de IPSS desde 2002 e estando com atividade efetiva desde 31 de março de 2004, tem processos com resultados comprovados, tem tudo para desenvolver um crescimento maior é única no papel que desempenha na Região, mas ainda assim, debate-se com várias dificuldades, que acrescem às que já são impostas pela natureza do trabalho que é levado a efeito no tratamento com os que são portadores de doença mental.

Está desde 2015 à espera que seja passado o licenciamento do espaço onde funciona, na Rua do Pico de São Martinho, com burocracia de uma mesa para outra na Câmara Municipal do Funchal. Recebe 2.800 euros por mês da Segurança Social e paga a esta 1.500 euros de contribuições por via das remunerações dos técnicos que tem nos seus quadros, o que resulta óbvia a insuficiência de meios oficiais para uma ação tão meritória. Mais dinheiro não há e o presidente da Segurança Social da Madeira já transmitiu que a instituição pode candidatar-se a apoios, mas “não há verbas disponíveis para esse efeito”, alegando que Lisboa cortou montantes, relativamente a anos anteriores.

Fátima Mendes não tem outro remédio que não seja fazer o que sempre fez, viver com os meios que tem, juntando 85% do subsídio de cada utente, que é de 220 euros, e que suporta custos com refeições e medicamentos. Tem duas vertentes no âmbito da atividade prestada, uma relacionada com o Forum Sócio Ocupacional, de dia, com cerca de 30 utentes, além da Residência, com 7, e um espaço que funciona enquanto colónia de férias, com mais 10. Tem uma lista de espera com 5 pessoas, embora no Forum ainda tenha vagas.

Doença mental é “parente pobre”

MENTAL-A Residência da instituição dispõe de 7 quartos.
Há utentes que vivem na residência da instituição, que dispõe de todas as condições.

Estes problemas não surgem por mero acaso. E explica: “A doença mental é encarada como o parente pobre da Saúde, vista um pouco como doença de gente pobre e de gente sem solução, o que não é verdade. Não houve evolução na forma como a sociedade avalia a doença mental e as pessoas quando chegam até nós já se encontram num estado muito debilitado e grave. A família só leva ao médico quando já não há solução, isto porque a primeira coisa é fugir ao psiquiatra. E depois, torna-se tudo mais complicado para resolver, tanto no ataque imediato à própria doença, como depois à reabilitação, que é o que nós fazemos”.

Levamos os utentes a qualquer lado

Fátima Mendes, docente da Escola Secundária Jaime Moniz, onde leccionou a disciplina de Matemática – “não tem nada a ver com isto”, refere -, destacada para o exercício das funções que desempenha, tem dedicado uma vida a este projeto e a uma causa que lhe é muito querida, como por diversas vezes refere durante a entrevista ao FN.

É com visível agrado que afirma, sem reservas, que a instituição que dirige tem feito um trabalho que permite “levar os utentes a qualquer lado, desde a praia, para passeios e até já fomos a discotecas. Eles devem viver a vida como aqueles que as pessoas consideram “normais”, além de que esses contactos propiciam, na sociedade, uma forma de olhá-los, não de lado, mas como diferentes”.

A responsável pela AFARAM diz que “ainda há muito percurso a fazer “ e lembra que, em 2010, procurou alugar uma residência, não diretamente da instituição, mas apoiada por esta, uma vez que o trabalho que estava a ser desenvolvido na área da reabilitação psicossocial, exigia que as pessoas tivessem um espaço seu, porque viviam com os pais mas não tinham condições”, mas encontrou muitos entraves. “Fomos à procura de casa, mas logo que dizíamos que era para pessoas portadoras de doença mental, tornava-se impossível conseguir alugar, com medo não destruíssem as coisas”.

Face a situações como esta, Fátima Mendes sente necessidade de esclarecer que “estas pessoas com doença mental e que se encontram nesta instituição, estão devidamente compensadas com um acompanhamento adequado e medicação correspondente a cada caso. Não existem motivos para determinados comportamentos que vemos na sociedade”.

À espera pelo licenciamento da residência

Em matéria de apoios, desabafa com números: “Temos um protocolo de cooperação, com a Segurança Social, para o Forum, no valor de 2.800 euros, mas em contrapartida, dos técnicos que temos no quadro, pagamos 1.500 à Segurança Social. Ficam 1.300 euros, o que nem dá para pagar a renda da casa, que corresponde a 1.400 euros. Não termos qualquer outro apoio e estamos há ano e meio à espera de licenciamento para esta residência”.

Hospital psiquiátrico com “porta rotativa”

Reafirma o papel da instituição que dirige e reforça o caráter único desse serviço, logicamente não comparável na Região “porque não existe qualquer outra instituição com estas caraterísticas”. A Casa de Saúde São João de Deus, como refere, “ é um hospital psiquiátrico e ali acorrem pessoas que necessitam de uma intervenção de emergência, mas depois vão embora e não têm apoio, voltam sempre que precisam e fazem isso várias vezes. Se fizessem as contas, iam verificar aquilo que a nossa instituição já poupou ao Estado. É que num hospital psiquiátrico, existe aquilo a que se chama “porta rotativa”, que é o mesmo doente entrar e sair por diversas vezes para ser assistido, sendo que o Estado paga cerca de 36 euros por cada dia de internamento. Imagine as contas. Isso não acontece com os nossos doentes, que não têm recaídas uma vez que são acompanhados de perto e a medicação é dada de acordo com as indicações do médicos e procuramos que o plano seja cumprido para ser eficaz”.

Fátima Mendes diz que a sua instituição tem dado um grande contributo, mas lamenta que nem sempre essa função seja devidamente reconhecida, também pelos hospitais psiquiátricos, que “não desempenhando esse trabalho de reabilitação, também não recomendam a nossa associação. As pessoas têm chegado aqui através de assistentes sociais”.

Outro lamento prende-se com o recurso aos estágios profissionais, do Instituto de Emprego. Diz “nunca mais” e justifica com a disparidade entre o comportamento inicial de abertura, de disponibilidade para arranjar emprego, e depois a falta de empenho e profissionalismo, com atitudes que visam ridicularizar a instituição. Assim, não vale a pena. Precisamos de pessoas dedicadas, competentes na atitude e no trabalho e vamos procurar outra forma de recrutamento”.

Instituição foi “Deus” para a rebeldia de Irene

MENTAL Irene
O nosso mundo quer esconder o “mundo” dos que são como a Irene.

Na sala ao lado, Irene, uma utente residente na casa da AFARAM, com 56 anos de idade, recebe a visita da irmã. Sentada no sofá, atenta aos movimentos à volta, mas dificilmente encontrando eco no seu entendimento ao que realmente se passa, Irene faz da sua presença um conforto para a família, uma forma de encontrar alguma tranquilidade depois de uma vida de grande tensão, de grande sofrimento, de violência.

A irmã de Irene, Maria Ângela, não tem grandes palavras para definir o papel que a associação tem desempenhado: “Isto não é uma casa, isto é Deus”, diz com alívio de tantos anos em que o comportamento de Irene deixou a família em completa instabilidade. Andou em médicos, esteve internada, tomou medicamentos e nada disso alterou a vida.

Ela era muito violenta, queria mandar em tudo e nos locais onde estava. Foi um sofrimento, partiu vidros em casa, confesso que um dia não tive outra solução que não fosse amarrá-la e mesmo assim destruiu coisas. Sempre foi rebelde, desde pequenina, mas depois dos 50 anos o estado agravou-se e graças a Deus apareceu esta casa. Ela sente-se bem e isso traz um pouco de paz por tudo o que passámos”.

Irene ouve a conversa, a irmã diz que ela não tem a perceção real das coisas. Sorri com o olhar preso num qualquer ponto, levanta-se assim que a conversa acaba, estende a mão e faz menção de mostrar onde fica a porta da rua. “Já viu? Ela quer é mandar”, diz a irmã, enquanto Fátima Mendes questiona Irene sobre se queria mandar o jornalista embora. Irene dá dois passos atrás, olha, sorri e logo desfaz dúvidas: “Era a brincar”.

O mundo de Irene é aqui mesmo, no mundo onde vivemos. Por muito que não pareça a quem se sente normal.