O Herói Discreto

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Era ainda um rapaz quando, em surdina, por receios óbvios e fundados, lá por casa se dizia, de verdade comprovada, que a “carta”, uma qualquer missiva que nos havia sido remetida, tinha sido aberta, que a correspondência fosse para quem fosse e fosse de quem fosse, era sistematicamente violada, que os ruídos nas comunicações telefónicas eram o resultado das furtivas escutas a que todos estavam sujeitos, que se imaginavam inocentes estratégias, – colocar um copo com água em cima do aparelho de rádio -, para escutar as emissões, em onda curta, da BBC em português ou as da Rádio Voz da Liberdade, emitidas a partir de Argel, sem que pudesse ser detectada, essa ousadia, pela polícia política que, em todos os gestos da nossa vida estava ameaçadoramente presente, mantinha os esbirros condicionando o nosso viver, impondo os critérios do ditador, vigiando o cumprimento escrupuloso dos ditames dos censores, assegurando, em suma, a longevidade da ditadura.

Abril de 74, a 25, veio a todos trazer o regozijo da esperança de que, aqueles eram tempos passados e irrepetíveis, mas lembrados sem receio para que se cumprisse a pedagogia da rejeição total de tais práticas em nome da liberdade, da democracia e do Estado de Direito.

Assim sendo, e dizendo expressamente o art.º 34 da CRP, no seu ponto 4, que “É proibida toda a ingerência das autoridades públicas na correspondência, nas telecomunicações e nos demais meios de comunicação, salvos os casos previstos na lei em matéria de processo criminal”, que sanha anticonstitucional pode levar os partidos da desesperada direita portuguesa a pretenderem, de novo, – agora a propósito do papel notável desempenhado por Mário Centeno e pelo governo português, em todo o processo tendente à recapitalização do banco público, da Caixa Geral dos Depósitos -, desrespeitar a Lei fundamental, impondo a devassa, o arbítrio, a violação da confidencialidade e o condicionamento da liberdade? – É a interiorização óbvia, irracional e incontrolavelmente irritante de que, no quadro de actuação de um governo que tem provado competência e sentido de interesse público e nacional, – o governo em funções -, o seu Ministro das Finanças, Mário Centeno, é digno de um relevo especial por ser a face visível do cumprimento dos compromissos com o País, com a União Europeia e com as suas obrigações no concerto das nações.

Onde há crédito de aplauso, de elogio e de reconhecimento, a oposição, incapaz, aproveita o que se pensa poder ser um pecadilho desprezível no panorama mais geral dos sucessos da sua actuação, – e não vale a pena voltar a enumerá-los a todos, mas que vão do cumprimento (mais do que) escrupuloso do défice, à queda da taxa de desemprego, passando pela gradual recuperação da economia e pela crescente confiança dos consumidores e dos investidores (já sei, é preciso mais…) e objecto de reiterado reconhecimento na Europa e fora dela -, para dele, do hipotético pecadilho, tirar dividendos políticos, indiferente às preocupações dos cidadãos e àquele que é, sem dúvida, o verdadeiro e legítimo interesse nacional.

Portugal precisa de quem resolva as suas questões mais prementes e dispensa quem mais não faz do que tentar agravá-las com episódios irrelevantes, sobretudo se cotejados com outros de significativa magnitude com que a pequena história recente tem brindado os portugueses.

Espantoso foi, no entanto, o coro de vestais que, de forma avulsa, ou em formatos que se impuseram como permanentes, se associou, amplificando – ou tentando – a soi-disant gravidade indesculpável, da alegada falta cometida, ignorando em absoluto, ou quase, que os gritos da celeuma e da indignação eram escandalosa e curiosamente dos mesmos que, exercitando as suas virtudes e predicados, já conseguiram um lugar de destaque na história universal da mentira.

Na azáfama de satisfazer os donos e os mandantes de uma comunicação social comprometida, a maioria das redações, a maioria dos “jornalistas” e uma parte significativa dos avençados do comentário político, – basta ter estado atento a programas como “Quadratura do Círculo” e “Eixo da Mal” -, criaram um uníssono entrincheirado de falsa indignação alinhada, oposicionista, malsã e despropositada.

Mário Centeno, no âmbito da sua actividade política, sempre dialeticamente interpretada e interpretável, portanto, objecto de interpelação constante, exigia (e exige) educação, merecia (e merece) elevação. Concita bons modos, urbanidade e civilidade.

Tenho a certeza de que, na sua competência, discrição, bonomia, tolerância e sentido de responsabilidade, Mário Centeno encontrará a postura e o tom ideais à prossecução dos superiores objectivos que o motivam, num ambiente da tranquila normalidade que os portugueses dele requerem.

PS:

O título deste texto foi “roubado” a Mário Vargas Llosa, escritor peruano e Prémio Nobel da literatura, do seu magnífico romance com o mesmo nome.

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 Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.