Não se trata aqui de uma espécie de trincheira ou de um vulgar acto tresloucado de alguém que, com ou sem reféns, resolveu isolar-se, que, com ou sem armas ou explosivos, teima em fazer ouvir a sua voz irreverente, radical ou desesperada.
A barricada da nossa crónica é bem diversa. Não constitui estratégia militar nem posição extremista de alienado ou militante de uma qualquer organização marginal ou terrorista.
Não sei se é mais ou menos grave. Certo, é não ter cobertura mediática.
Esta barricada é de gente que se considera de alto gabarito. De gente que tudo fez para tomar o poder e, quando o alcançou, armou a paliçada com astúcia e meias-verdades, rodeou-se de colaboradores submissos e alguns bajuladores e tudo faz para sempre se manter no poder.
Na barricada, reina a intolerância, a vingança, o poder tentacular que tudo quer dominar e manipular.
Na barricada, domina o discurso fascizante de que enquanto «eu aqui estiver tu nunca levantarás cabeça».
E os da barricada julgam-se felizes, competentes, geniais, por infernizarem a vida dos outros.
Quando confrontados com a idoneidade e a imparcialidade do exterior, coisa que repugnam, mas a que irremediavelmente estão sujeitos, aí não têm outro remédio senão tentar esconder os seus pés de barro. Mas isso é como tapar o sol com a peneira. Fora da barricada, há transparência.
Descalços, mas sempre agarrados ao poder, não vêm o abismo que têm vindo a arquitectar. E, quando o mensageiro grita que o rei vai nu, tudo fazem para que ele sucumba. E, ao que não morre, aplica-se o velho ditado: «não mata, mas mói!»
As barricadas no seio das instituições são abcessos dolorosos, escaras da democracia. Mas pior do que a sua existência é a bênção que quem governa lhes dá, em nome de uma pretensa autonomia que serve de almofada à liderança.
Bem sei que nas instituições não habitam anjos nem tão-pouco são governadas por arcanjos. Todavia, em democracia, o líder devia garantir a (con)vivência democrática, combater a discriminação e a intolerância, respeitar a oposição, não permitir cortes de apaniguados, enfim expurgar da casa as barricadas que um bolorento corporativismo ainda teima em erguer.
* O autor escreve de acordo com a norma anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.
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