- A credibilidade falha quando o contra testemunho se torna claro como a água. A subida do calvário do Papa Francisco com a cruz às costas dos apelos à conversão da Igreja ainda vai a meio caminho. No Vaticano alguma multidão acicatada pelos cardeais conservadores encolhe os ombros ou simplesmente passa indiferente e faz de conta que nada tem que ver consigo as palavras do Papa e que este «tormento» chamado Francisco vai passar dentro de momentos. Se dizemos isto dos que estão próximos do exemplo e do testemunho do Papa, o que devemos dizer dos que andam longe no saboroso comodismo do poder a milhas do centro da cristandade onde mora o Papa Francisco…
- Os apelos a todas instâncias do poder em todo o mundo, especialmente, os poderes da Igreja em qualquer parte do mundo, vindos da palavra do Papa Francisco, ainda não tiveram o seu efeito, de que a Igreja deve ser um «pronto socorro» ou um «hospital de campanha» ou uma «Igreja pobre» ou «antes uma igreja manchada do que uma igreja acomodada» ou «eu não quero uma igreja tranquila, quero uma igreja missionária» ou «que a Igreja seja sempre lugar de misericórdia e esperança, onde cada um se possa sentir acolhido, amado e perdoado» (…). Como se vê são imensos os apelos à conversão dos diversos poderes da Igreja e não só, para que as comunidades no mundo inteiro se tornem o lugar por excelência da fraternidade onde ninguém fica para trás. Estes apelos não parecem chegar para regar os cântaros do poder à distância de Roma. O Papa está longe e servem as suas palavras para embelezar discursos e homilias sem consistência prática como «opção preferencial pelos mais pobres».
- Entre nós foram já dados passos, quer nas instâncias governativas da política quer nas instâncias do poder religioso, a mendigar apoios, um espaço para ajudar os pobres, os sem abrigo da nossa cidade. Nada de concreto se conseguiu. Quanto à Câmara Municipal, tudo muito bonito, mas não passou nada disso além de promessas e que sim vamos avançar. Nada de nada. Um saco vazio. Perante o Governo Regional nem nos achegamos, porque fomos demovidos pelo episódio do escorraçamento impiedoso de três sem abrigo, sem alternativas, da soleira da porta da entrada de uma das Secretarias Regionais, que ali pernoitavam. Na instância do poder religioso também se bateu à porta. Também não se viu nada de concreto senão uma conversa amena e cheia de boas intenções. Outro saco cheio de nada.
- Face ao exposto estamos perante o descrédito total destas instâncias. As luzes de esperança que estas mediações de poder acenderam nos seus inícios foram como o jogo de artifício deste final de ano, que seria o melhor de todos os tempos, mas em poucos segundos encheu isto tudo de fumo que mais de metade do povo não viu quase nada, uma desilusão, porque ficou aquém das expectativas que foram sendo alimentadas pela comunicação social dos dias precedentes ao final do ano transacto.
- Uma das causas principais do descrédito da Igreja Católica da Madeira vem do seu património votado ao abandono. É um escândalo que tenhamos pessoas a dormir ao relento nas ruas da nossa cidade, com tantos espaços dentro da cidade a apodrecerem e a serem viveiros de ratos. É uma pena que não exista vontade, boa vontade, para que esta consciência a favor dos mais desafortunados não se faça sentir convenientemente da parte de quem tem a responsabilidade de todo o povo da Madeira e que deve fazer uma opção preferencial pelos mais pobres.
- Ofereci a minha vontade e o meu singelo saber para fazer algo em nome e com algum apoio da Diocese do Funchal, para fazer um trabalho com os sem abrigo que vagabundeiam pela cidade e que tanta celeuma têm levantado na opinião publica madeirense nos últimos tempos. Bastava que me dessem alguma ajuda material, isto é, apenas um espaço físico, que logo o restante se providenciaria, com boa vontade e a ajuda de Deus.
- Após tudo isto concluo que ainda falta muito para que a conversão aconteça, falta uma enorme dose de sensibilidade social entre nós para que se concretize a ideia que marca indelevelmente o pontificado do Papa Francisco «que ninguém fique para trás». Todos os poderes entre nós estão bem longe deste desejo. Na Câmara Municipal, no Governo regional e na Igreja Católica da Madeira, os seus líderes adormeceram e nada os faz despertar para uma prática governativa que defenda o interesse universal, tendo como ponto essencial uma predileção especial pelos sem sorte. Todos os poderes, quando são apenas poder, são tramados para o povo em geral, mas, especialmente, para os mais vulneráveis.
- Uma palavra final, quanto à Igreja Católica, não basta dizer que não é uma ONG e que não deve esquecer-se do seu dever que é Evangelizar, tudo muito certo, mas se não for pelo social a credibilidade da Igreja Católica hoje e a sua atracção valem zero. E quanto ao que chamam de evangelização, a continuar como está, claro está que não passará de evangelizar o evangelizado.
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