Rui Marote
Ontem, sábado, bem cedo, trocámos o habitual passeio à beira-mar por uma volta no centro da cidade, quando o movimento de pessoas e o trânsito eram diminutos. A realidade com que contactámos, expressa nas imagens, fala por si. Percorremos parte da Rua da Carreira, Rua da Mouraria, Rua das Pretas, Rua 31 de Janeiro, Calçada da Encarnação, Rua dos Ferreiros, Rua dos Netos. E colhemos ideias para um bom programa eleitoral paras as próximas autárquicas, que vai ao encontro da intenção de se fazer do Funchal a melhor cidade do país, e da Madeira, realmente o melhor destino insular.
Este pequeno álbum fotográfico encerra talvez apenas 1% dos edifícios em degradação e das lojas comerciais encerradas. A CMF criou um gabinete de levantamento e de projectos nas instalações do Teatro Municipal, para acudir a estes casos, e com prioridade aos edifícios atingidos pelos incêndios, no núcleo histórico de São Pedro. No nosso roteiro de ontem, excluímos os edifícios atingidos pelo fogo. É rara a rua que não tem dois ou três edifícios encerrados já há alguns anos. Alguns mesmo nas barbas da Direcção Regional de Cultura, outros em frente ao ex-edifício da Junta Geral, hoje Governo Regional.
As grandes superfícies tomaram de assalto o comércio do Funchal, e os resultados estão à vista.
O nosso disco rígido funciona bem. Alberto João Jardim sabia bem o que ia acontecer. Nos finais dos anos 80, AJJ inaugurava o supermercado Lido Sol, na altura a maior área comercial existente. Na altura, o Governo Regional fez uma portaria que definia que, na Madeira, não poderiam existir áreas comerciais superiores ao Lido Sol, uma forma de “afugentar” o apetite de grandes superfícies continentais a quererem instalar-se na Região. Mas foi sol de pouca dura. O Governo não tinha maneiras de impedir a expansão.
Jorge Sá projecta então o maior supermercado – na realidade, um hipermercado – em São Martinho. António Henriques vende o Lido Sol ao Pingo Doce, da Jerónimo Martins. Surge o centro comercial Anadia, com supermercado, e o Pingo Doce encontrou o seu filão de ouro, sendo este o supermercado que mais vendas faz na cadeia Pingo Doce.
Belmiro de Azevedo, entretanto, investe no Madeira Shopping. Jorge Sá para não ficar atrás, compra as antigas instalações do supermercado ‘Cavalinho’, na Rua do Carmo e Seminário, para fazer frente ao Pingo Doce. O comendador enfrenta os papões de Lisboa e responde com o Camacha Shopping, com os supermercados da Ribeira Brava, Santana, Câmara de Lobos e Machico, onde já estava instalado o Pingo Doce, sendo esta a machadada que fez implodir o grande império do empresário madeirense e o condenou ao derrube. A Sonnae, de Belmiro, responde com uma nova área em Água de Pena.
Entretanto, as tradicionais mercearias e barracas começam a encerrar. Até o Mercado dos Lavradores é atingido pela concorrência das grandes superfícies.
A onda dos chineses e indianos começou entretanto a instalar-se na área do centro do Funchal. Todos estão recordados do episódio em que AJJ declarou que “não os queria aqui”, como que para expulsar os asiáticos da RAM, criando um problema “diplomático”. Mais tarde, o PSD deitaria água na fervura, convidando-os para a Festa do Chão da Lagoa com o intuito de que chineses e indianos instalassem as suas barracas nessa festa.
Tudo o que foi acima recordado levou a que o comércio tradicional funchalense fosse encerrando portas. Os edifícios ficaram ao abandono; caíram janelas; caíram telhados; alguns edifícios devolutos serviram de casa aos sem abrigo; outros, os donos colocaram à venda e as placas a anunciá-la continuam expostas, sem pretendentes.
Outros edifícios, ainda, os proprietários estão no Brasil, Venezuela, África do Sul, e até no continente, sem que a Câmara do Funchal consiga localizá-los.
Terá de existir uma lei que determine que, no caso dos edifícios abandonados e em estado de degradação o município deveria chamar os proprietários, e em último caso, declará-los património da cidade.
Na ‘via sacra’ que ontem empreendemos, chamou-nos a atenção o edifício do antigo Seminário Menor, propriedade da Diocese, já devoluto há mais de uma dezena de anos, que apresenta um estado de abandono sem uma solução à vista.
O Governo e a Diocese deveriam chegar a um acordo para a utilização dessa área, que poderia ser um Lar de Terceira Idade, substituindo o Hospital dos Marmeleiros, que continua a ser o “depósito” dos seres humanos abandonados por familiares sem condições de os ter nas suas residências.
Existem com certeza verbas da União Europeia para estes fins. Um lar seria para a Igreja no futuro uma fonte de receita.
Não basta bater no peito e pronunciar as palavras mea culpa; é preciso obra. A Igreja Católica não consegue gerir os seus bens e doações, que continuam a surgir.
À Câmara compete fazer um levantamento pormenorizado de rua em rua, “chamar à pedra” os proprietários, dar-lhes incentivos nem que seja para arranjar as suas fachadas, pintando-as, e já agora, recuperar as caleiras dos edifícios, que no Inverno jogam para a via pública autênticas cascatas, obrigando os peões a andar nas faixas de rodagem.
Deliciem-se os leitores, pois, com estas imagens de uma cidade que quer ser cartaz no mundo. E tirem as vossas conclusões.
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