Um general no seu labirinto com as tropas à espera do Titanic

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Ilustração de Hélder Silva.

Os social-democratas estão hoje e amanhã reunidos em Congresso. Dizem eles que não será a reunião magna das novidades mas o pretexto para uma polida e politicamente correta catarse interna. O Estepilha está mesmo a ver o abundante palavreado dos senhores congressistas, cada um a pôr-se em bicos de pés, enquanto outros espreitam ao largo a ver quando chegou a hora do Titanic…

Sem querer substituir-se aos timoneiros da Renovação, o Estepilha atreve-se a discordar para agitar um pouco as águas de uma bonança partidária obviamente postiça. Num momento em que madeirenses e militantes deitam contas à vida, porque o horizonte autárquicas é já para ontem, este Congresso deveria ser o momento certo para marcar uma agenda política de mudança, que deixasse uma centelha de efetiva renovação na opinião pública e que levasse o líder a apostar as fichas, com firmeza e convicção, na equipa que verdadeiramente quer e nas opções possíveis. Se falhou um objetivo, por que não virar o jogo e emendar a mão, apostando no plano “B”? Mas não, a palavra de ordem, como na canção é “dá tempo ao tempo…”. Logo, tudo novamente e aristocraticamente adiado, para próximas núpcias, para o tempo certo, o deles, que poderá não ser daqueles que põem o voto nas urnas.

Por isso mesmo, sem ser preciso ir à cartomante da esquina, adivinha-se que, no auditório do Casino, desfilarão este fim de semana os mesmos costumes, aplaudirão mecanicamente um líder nacional queimado pela sua falta de habilidade e carisma para saber estar na Oposição e ficarão eternamente à espera que a malta da Renovação cumpra aquelas promessazinhas que levaram os eleitores a depositar a confiança nesta liderança: o novo hospital, o ferry Lisboa-Madeira, o cargueiro, a união dos PPD’s/PSD’s e a candidatura à maior autarquia da Madeira. Mais: que o líder tenha a coragem de mudar os secretários que já mostraram que fazem de conta que governam e só têm palavreado oco para aqueles que põem efetivamente a Madeira a andar.  Neste tabuleiro de peças sucessivamente adiadas, sobressai no topo um líder com o cronómetro a mostrar-lhe que o tempo urge e que, feitas as contas, quase tudo está ainda por cumprir. Vem-nos à memória as palavras de Garcia Marquez quando escreveu O General no seu Labirinto, o que leva o Estepilha a atualizar para o “general” na sua cada vez mais pungente solidão.

É certo que a política nos habituou à magia e aos golpes de rins. Talvez Albuquerque e a sua corte ainda tenham  um golpe de asa, a carta decisiva e adequada para jogar, capaz de galvanizar o “sim” da opinião pública num terreno cada vez mais minado pelas indisfarçáveis divisões internas e pelos tiros nos pés. Seria bom que tal acontecesse, porque, do passado, o Estepilha guarda memórias aterradoras, embrulhadas em rótulos de ofensa e de perseguição efetiva a quem ousava não alinhar pelo pensamento único do patrão da Quinta Vigia. No entanto, mais uma vez o Estepilha sublinha que para o comum dos cidadãos o tempo de cumprir as promessas há muito que começou a contar. Olhar e encontrar o vazio só alimenta os crocodilos que se fazem ao largo e que, de forma dissimulada mas voraz, se preparam para controlar a escada do poder.

 

 


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