Enquanto Europa está a ferro e fogo, autoridades oferecem “mupis” que nem turistas querem ver

(Foto Rui Marote)
(Foto Rui Marote)

* Com Rui Marote

“O terror está agora tão perto e não conseguimos travá-lo”. O desespero transparece nas palavras de Tino König, cidadão alemão que estará na próxima semana na Madeira para mais um Fim de Ano.

Enquanto os madeirenses tentam reconfortar amigos e familiares, as autoridades regionais ficam-se pela publicidade nas paragens.

As festas de Natal e de Fim de Ano são cartaz consolidado, dentro e fora de portas. Disso não há dúvidas.

As estatísticas da ocupação hoteleira, dos serviços turísticos e da economia em geral corroboram, desde há muito, aquilo que a olho nu se vê nas ruas, nos estabelecimentos comerciais e nos espaços de cultura e entretenimento. Que a Festa, nas dimensões popular ou comercial, é fórmula de sucesso.

Embora cientes da importância destas contabilidades, os madeirenses procuram porém viver a sua quadra natalícia de maneira mais genuína, entre o aconchego de um cacau quente, no calor de um encontro de família, entre os cheiros a carne vinho e alhos e bolo de mel, na devoção do seu Menino em escadinha ou na gruta da lapinha.

Ora bem, este sim deveria ser o nosso cartão de visitas. A hospitalidade, o calor humano, a alegria fraternal. Sobretudo numa altura em que o mundo, e a Europa em particular, atravessa um dos piores invernos da humanidade.

Não há campanha nem dinheiro algum que agora façam mais sentido. Neste cantinho do Atlântico, à distância de uma imagem dos horrores que grassam a leste, os madeirenses questionam por que não estão os novos representantes em comunhão com a restante comunidade internacional, não só na consternação e repúdio, como na mensagem de esperança e solidariedade.

Os povos nossos irmãos aguardam essa palavra. Devemos-lhes essa atenção. A Madeira tem de marcar presença, junto dos nossos conterrâneos que vivem lá fora, mas também perto dos turistas que nos visitam, muitos deles de países afetados pelos últimos acontecimentos. A Madeira ganhou o galardão de melhor destino turístico insular do mundo, o que só por si acresce as responsabilidades em altura de grande sensibilidade.

melhor destino insular madeira

Até ao momento, e após os últimos balanços que dão conta de atentados terroristas na Turquia e na Alemanha, com dezenas de mortos e feridos graves, não descortinamos ainda qualquer iniciativa oficial no sentido de refletir a consternação e solidariedade dos madeirenses, quer junto dos visitantes, quer na esfera diplomática.

Isso, sim, seria louvável. Não por estratégia de marketing, mas porque os ilhéus têm um coração grande, onde cabem a generosidade e a fraternidade.

Por enquanto, o que a objetiva do nosso repórter destaca é a publicidade espalhada pela cidade, os designados “mupis” que estarão enfeitando as paragens de autocarros até 8 de janeiro. Redonda, repetitiva. Será por aqui que se garante a promoção turística de algo que está já consolidado? Será a relação custo/benefício justificada?

Questões que inquietam, sobretudo numa altura que a conjuntura internacional, sobretudo na Europa, está muito fragilizada.

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O FN contactou há pouco um cidadão alemão que, dentro de uma semana, estará novamente na Madeira, região que costuma visitar duas a três vezes por ano. Não pelos mupis que encontra na cidade, mas pela beleza da terra e pela hospitalidade que sempre encontrou nas pessoas de cá, mesmo daquelas que, sem saberem uma palavra de alemão ou inglês, o fazem sentir-se em casa.

Arrasado pelos trágicos eventos que ontem atingiram Berlim, Tino König sente-se porém abençoado por ter na ilha o refúgio e o consolo em horas de tão grande tristeza.

Os laços de amizade que foi construindo ao longo dos anos com os madeirenses dão-lhe o apaziguamento e a esperança que necessita para atravessar uma tal provação, nesta quadra natalícia. “Mil vezes muito obrigada por passarem o Fim do Ano comigo e a minha família. Isso é muito importante, sobretudo agora”.

Os últimos relatórios na Alemanha apontam para 12 mortos e dezenas de feridos graves, em resultado do ataque terrorista desta última segunda feira, quando um camião de grande porte irrompeu por uma feira de Natal em Berlim, atropelando quem encontrou pela frente.

A consternação é total. Tino König expressa o sentimento que se vive nas últimas horas. “Nós estamos a rezar pelas vítimas e famílias. O terror está agora tão perto e não conseguimos travá-lo”.