As próximas eleições autárquicas, em 2017, colocam várias interrogações neste final de 2016, um ano em que tanto o governo como a oposição tiveram a oportunidade de consolidar a coexistência com um novo quadro político vigente na Região, caraterizado por Renovação, Mudança, palavras que foram apregoadas desde início e que, a bem dizer, deram a esperança aos madeirenses de uma nova vida, do género o paraíso na terra, arrumando de vez com um PSD e emergindo outro PSD.
Como que por um passo de mágica, a Madeira entrou em êxtase com uma Renovação plena, com uma Mudança plena, com tudo tão pleno que os madeirenses, só de se falar nisso, já estavam plenamente satisfeitos. É verdade, sim senhor, que os madeirenses, a exemplo do que é, hoje, no mundo, o povo votante, com as naturais exceções, têm um nível de exigência muito baixo, sem que isso signifique qualquer atestado de menoridade. É assim e pronto. E não é de agora. Nem é só aqui.Só que o quadro político que entretanto se formou na Região, atendendo ao estado de graça que, no caso concreto da Madeira, seria para aí três vezes maior do que o normal, como que inebriou os críticos e os políticos, que a dado momento ficaram surpreendidos com tanta democracia, com tanto elogio, com tanta obra nova, com tanta informação incondicionalmente fiel por meia dúzia de lentilhas, que é como quem diz euros em publicidade, de tal modo que tudo é inédito, tudo é novidade, a tal ponto que, julgo eu, Gonçalves Zarco deve estar a sentir-se a mais.Mas tirando estas pequenas coisas ( e o seu a seu dono, há realmente um ambiente menos pesado) é preciso pensar nas próximas eleições autárquicas, com muito pragmatismo, talvez com o governo a governar mais para as bases do eleitorado e a oposição a fazer mais oposição, com alternativas e menos preocupada em falar com ministros e secretários de Estado, em situações em que o diálogo institucional deve prevalecer e esse é feito pelos governos.O atropelo a que temos assistido, de “bicos de pés”, numa oposição deslumbrada com o facto de, em alguns casos, ser governo em Lisboa, pode ser prejudicial para a própria oposição e beneficiar, logicamente, o governo, que assim pode pensar que as autárquicas são “favas contadas” e que facilmente recuperará o que perdeu há perto de quatro anos.O PSD perdeu sete câmaras e, por isso, dizem alguns, se reconquistar uma ou duas já será uma vitória. Não é bem assim. O PSD é um partido vencedor, teve um precalço por mau cálculo e estratégia gasta, mas agora terá que mudar esse espectro negro nas autarquias, alterando procedimentos e colocando-se estrategicamente junto ao povo, com incidência local muito forte, que não se pode confundir com personagens locais que facilmente agradam a quem manda, mas podem não estar identificados com a realidade que só o povo pode dar.Neste contexto, pensamos que o PSD de Albuquerque insiste precisamente nesse modelo gasto. Contactos supostamente com as bases locais do partido, militantes que vão às sedes e que podem encher a sala, mas não sei se enchem as medidas da população. Este modelo já foi testado por Jardim, durante muito anos assim funcionou, mas depois começou a exigir uma necessidade de alterar, porque deixou de resultar e os resultados ficaram à vista, sobretudo na reta final da gestão anterior.Além disso, entende-se o apoio a Garcês em São Vicente, um social democrata que por divergências com a estratégia de Jardim, passou a independente e ganhou as últimas eleições autárquicas e parece que o povo gosta, mas há interrogações a fazer. O apoio, do PSD, pode ser uma atitude de inteligência, mas também pode ser uma demonstração de fragilidade. Então um partido com uma cultura de poder, com quadros competentes, vai apoiar um independente? Percebe-se, porque assim é melhor estar ao lado do que “queimar” um candidato, é melhor utilizar o “princípio” de que “não podes com eles, junta-te a eles”, mas parece mal um partido com uma história de vitórias, ser forçado a adotar esta estratégia. Que pensamos não vá ser seguida, ironizando claro, em Machico, Porto Santo, Santa Cruz, Funchal, Santana ou Porto Moniz.Claro que o discurso, para mais depois das reuniões concelhias, é de mobilização. E uma casa cheia dá sempre a ilusão de cheio, em tudo, até nos votos. Mas não é assim, como é óbvio. É preciso recuperar câmaras e o cenário é sempre mais fácil para quem já lá está. Além disso, há autarquias que têm particular popularidade junto do povo, uma parte dele até pode votar PSD nas regionais, mas não o fará nas autárquicas se o trabalho for satisfatório.Quanto à oposição, ao contrário do que acontece nas regionais, tem mais hipóteses com as autárquicas, é mais fácil manter alguma liderança local, não depende tanto da liderança regional, uma vez que esta, em função de questões de protagonismo interno e demasiado enfoque no país, talvez tenha descurado o que se passa na Região, ao ponto de termos grandes questões abordadas nas redes sociais, que tocam o povo, e que nunca estão incluídas na agenda política, precisamente porque alguma oposição anda completamente a leste, como diz o povo.De resto, o que é importante, tanto para o PSD, no governo, como para a oposição, na generalidade, é estar focada no que é essencial. Do Governo, o povo dispensa bem determinadas “pérolas”, sempre com recados para o passado, do género o betão não volta mais, vamos falar alto com Lisboa ou que foram cometidos exageros. Tudo verdade, em parte, mas que diabo, não acham que o povo pode perguntar onde andaram estes anos todos, apoiando governos do betão e dos eventuais exageros financeiros? Nem tudo é PPM (Pessoas com Perda de Memória).Para a oposição, deixem-se de falar de Lisboa e com Lisboa. Não é na Madeira que fazem política? Façam oposição como deve ser e tenham, assim, o protagonismo correspondente. E utilizem contactos privilegiados para bem dos madeirenses e não com reuniões inócuas e acordos paralelos, com governo e algumas câmaras pelo meio a fingirem de governo.Esperemos por um 2017 mais clarinho. Feliz Natal e um Feliz Ano realmente Novo.
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