O trumpismo regional

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Há um mês atrás, mais precisamente a 15 de Novembro, o mais antigo jornal português, o “Açoriano Oriental”, publicou na sua primeira página esta pérola: “Não é que eu queira imitar o Trump, quando muito ele é que me imita”.

O autor, como porventura o leitor mais atento já terá concluído, é, nem mais nem menos, o personagem político que, até há bem pouco tempo, pouco mais de um ano, se comportava como se fosse o centro do mundo, pese embora fosse tão somente responsável (?) pelos destinos de um pequeno território com pouco mais de 250 mil habitantes. Aliás, não era, de resto, por acaso que o dito cujo se auto-intitulava “o único importante”, cá do burgo.

Independentemente deste cariz hipernarcisista que o pai da psicanálise, Sigmund Freud, explicará melhor do que ninguém, há que reconhecer que muitos dos traços marcantes do próximo inquilino da Casa Branca fazem parte do ADN da criatura que o ex-presidente da República, catalogado por sr. Silva, designou por “patriota”.

Com efeito, a demagogia, o populismo, o autoritarismo, o racismo, o sexismo, etc, etc, que caracterizam Donald Trump não são uma exclusividade apenas sua.

Naturalmente que o aparecimento e a vitória de um personagem como Trump num país com a dimensão da América suscita redobradas preocupações.

Mas, em abono da verdade, há que assumir que, nós por cá, também já tivemos o nosso (salvo seja!) trumpizinho.

É que, se a campanha eleitoral norte-americana foi marcada por um baixo nível nunca antes visto, por ataques pessoais, por insultos, em que Trump assumiu o papel principal, e em muitas ocasiões único personagem, ao fim e ao cabo, não foi nada que, nós por cá, já não tivéssemos presenciado. Anos a fio, durante demasiado tempo. Basta recordar a forma insultuosa, ofensiva, persecutória até, com que, tanta gente, desde órgãos de soberania, entidades públicas, governantes, jornalistas, até simples cidadãos, foram tratados pelo antigo inquilino da Quinta das Angústias. Nesta matéria, o curriculum do dito cujo extravasou até as fronteiras da pátria, ao ponto do insuspeito diário espanhol “El Mundo” o ter classificado como “o campeão português do insulto”.

A hostilidade ao outro, aos adversários políticos, aos imigrantes, a outros povos, agora protagonizada por Trump tiveram também a sua versão regional. Quem é que não se lembra do “nem um tostão para Timor”, “chineses, indianos e nacionais do leste – rua da Madeira”, que constituem apenas alguns episódios dessa dimensão.

O personagem de todos estes lamentáveis e repugnantes episódios, chegou a insurgir-se, com particular virulência, quando nos anos 90 o PS considerou viver-se na Região o que designou por “défice democrático”. Uma caracterização que decorria do modo autocrático como o poder político era, aqui e agora, exercido e da circunstância da práxis democrática não se puder limitar à realização periódica de eleições. Uma característica, essa do “défice democrático” que, aliás, se acentuou ainda mais nos anos seguintes, não poupando sequer os próprios correligionários, até ao estertor final do designado “jardinismo”. Um exercício autocrático que assentou no controle absoluto das instituições (governo, parlamento, autarquias locais), das colectividades, dos clubes desportivos, etc, etc, um controle que se estendia à comunicação social em geral, nomeadamente à rádio e televisão públicas.

Ora, nesse aspecto, o que se condena é que o PS e os demais partidos não tivessem sido consequentes: boicotando, pura e simplesmente, as eleições regionais, deixando o partido do dito cujo a falar só no par(a)lamento regional, transformando a vida política local naquilo em que se assemelhava grandemente, num regime de partido único.

Goste-se ou não da análise, por mais lambe-botas que saiam em sua defesa (ainda os há?), a tão propagandeada “Madeira Nova” foi construída assente numa marcada indiferença à ideia democrática. Uma prática que condicionava e condicionou as pessoas, intimidou-as, incutindo-lhes o medo e remetendo-as para um quase completo servilismo.

E, para cúmulo, esfumou-se em grande medida com a adopção da dupla austeridade a que os madeirense e porto-santenses foram (e são) sujeitos, como consequência do desvario e despesismo em que consistiu o outro lado da governação do dito cujo.

Com semelhante legado, começa a ser sinal de completa ausência de vergonha na cara, a persistência com que a criatura recorre às redes sociais para repetir ad nauseam a cassete da necessidade de uma miraculosa revisão constitucional e de, simultaneamente, procurar colocar-se à margem do “sistema”, como se “a máfia no bom sentido” não fosse obra sua, apadrinhada por si e sustentada pelas políticas postas em prática ao longo dos tempos em que dispôs, a seu bel-prazer, de um poder praticamente absoluto sobre tudo e todos.

E é vê-lo a reclamar-se de valores (da “moral”, da “ética” e da “sociologia”), a insurgir-se contra o “pensamento único”, a criticar até a própria Igreja (que o catapultou e o sustentou no poder), a considerar “anti-democrático” que os directórios dos dois maiores partidos “possam decidir sobre a Lei Fundamental do País”, a classificar a “classe política” de “ignorante” e “indigente”.

Neste particular, a procura da desresponsabilização, de posicionar-se como se nada tivesse que ver com a “classe política”, faz lembrar o ex-presidente da República de má memória, Cavaco Silva, que também opinava como se não tivesse sido o político em Portugal que, em democracia, durante mais tempo exerceu funções públicas.

Um descaramento que no seu caso é ainda maior se atendermos a que o dito cujo não fez outra coisa na vida senão exercer funções públicas e/ou político-partidárias.

Enfim, esta insistência em intervir, em opinar sobre tudo e mais alguma coisa, pode ser também sinal de que ainda haveremos de assistir a um regresso à vida política activa. Provavelmente numa manhã de nevoeiro, como o desejado el-rei D. Sebastião. É que, talvez não seja por acaso, que um dos seus comparsas de toda uma vida já veio dizer que pode vir a colocar-se a necessidade de substituição do actual líder nacional do respectivo partido.

Se assim for, já agora, não se esqueçam de escolher bem o local para anunciar o regresso. A Casa de Saúde de São João de Deus, vulgo “Trapiche”, seria um achado.

*por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.


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