Dali não se vislumbra o mar. No pequeno povoado da Fajã do Penedo, freguesia da Boaventura, são as altas montanhas de Laurissilva que engolem o horizonte dos dias e povoam as conversas dos poucos que escolheram ali envelhecer. O sítio que os mais novos comparam a uma rotunda, por conta do arruamento que circunda o vilarejo, reconcilia pelo Natal os que ficaram e os que regressam.
A manhã nasceu húmida, mas clara. Depois do temporal de ontem, que fez desmobilizar promotores e populares, a Fajã do Penedo, a norte da ilha da Madeira, apressou-se este domingo a fazer cumprir a XI edição da Mostra de Iguarias Tradicionais de Natal. Um evento que tem procurado promover os produtos locais e sobretudo contrariar o fenómeno de envelhecimento e desertificação demográfica de um povoado que não chega aos 400 habitantes, a maioria idosos.
Pelo menos é o que Ilídio Santos, o presidente da Casa do Povo de Boaventura, procura fazer ao insistir todos os anos na realização da iniciativa. A tarefa não é fácil, reconhece, atendendo às caraterísticas do sítio. Pequeno, isolado entre montanhas, de condições climatéricas instáveis e marcadamente assente numa agricultura de subsistência, a Fajã do Penedo há muito deixou de ser alternativa para as novas gerações, capitulando perante a imigração e o êxodo para o Funchal. A ruralidade e a orografia marcante do local não parecem ter atraído o investimento necessário.
Mesmo assim, a Casa do Povo e a Junta de Freguesia não desistem. Nem que seja pela preservação de um património humano e cultural que aproxima e enriquece gerações. “É, no fundo, um reencontro que não queremos perder. Aqui, todos se conhecem e partilham as vivências como uma família alargada”, explica Ilídio Santos, ele próprio um apaixonado confesso pela freguesia da Boaventura.
E a verdade é que os mais novos, crianças, adolescentes e casais, vão chegando à praceta, ali à beira da igreja. O curto arruamento que contorna este núcleo, num único sentido, logo se enche de carros. Não há que enganar, gracejam os mais novos. “Fajã do Penedo é uma rotunda”.
O almoço já lá vai e os convivas esperam provar os tradicionais doces e licores e visitar os presépios, o da igreja e o da junta. Há quem não desgoste do da escola, mais acima.
A festa vai acontecendo. Cinco barracas, um palco, uma casa de chá da paróquia, o balcão da espetada. O sol, a música, workshops de culinária, as danças e o ritmo do animador por conta da Casa do Povo fazem antever tarde de entretenimento, em que não faltarão palhaços e Pai Natal. Já todos esqueceram a tromba de água do dia anterior que provocou pequenos deslizamentos de terra e queda de pedras em algumas zonas da freguesia.
“A única desvantagem de viver na Boaventura é o custo em transportes associado à distância. Penso que esta condicionante ficará resolvida com a abertura da via expresso em 2018”, explica a jovem que trabalha na cidade, mas que não esquece a terra natal. “É claro que, depois do 20 de fevereiro, há um receio maior em circular pela costa norte com temporal. Mas regressamos todos os fins de semana”.
Entretanto, o grupo Dance Now dá corpo aos ritmos da música Pop. A batida é forte, os movimentos arrojados, mas nada que surpreenda os mais idosos. “É sempre bom”. Teresa Domingues, nascida há mais de 70 anos nas redondezas, desembaraça-se na conversa e no sorriso. “Gosto muito destas festas. Ajuda a cabeça a funcionar. Não sou de ficar por casa a gemer dores. E, olhe, que as tenho. As minhas pernas já não são o que eram. Se tivesse 30 anos ninguém me segurava”. Ri-se do atrevimento. Mesmo assim ainda mete mão à fazenda e frequenta a escola para seniores, duas vezes por semana.
Ao lado, a prima Bernardete deita sentido à conversa. As duas fazem parte daquele grupo de idosos para quem a vida inteira ligada à terra acaba por ser agora uma bênção. Continuam integradas no seu meio, autónomas, distantes das complexidades e riscos de um idoso na cidade. “Vivo sozinha, mas não me sinto só. Tenho o meu terreiro, a televisão e familiares que vivem por perto”. Teresa dedicou a vida à mãe e ao irmão sacerdote; não se arrepende da falta de marido. “Para quê?”, pergunta como se a resposta fora óbvia. Viveu e trabalhou no Funchal, mas apesar das comodidades sempre se sentiu mais à vontade na sua freguesia nortenha, onde os dias se sucedem sem surpresas nem cuidados de maior.
Também a prima não tem planos de mudança. O marido e o filho ocupam-lhe os dias. A vista e a memória é que vão faltando. “Já me esqueci de muita coisa”. Bernardete lamenta não poder recordar as cantigas e tradições de outros Natais. Eram pobres, isso sim. “Mas havia muita festa, as famílias juntavam-se e em cada casa havia sempre um licor e umas broas para oferecer”. Se pudesse voltaria atrás. “O Natal era mais alegre. Ora se era. A gente cantava e o tio tocava acordeão”.
Agora, com a idade, perde-se o gosto pelas coisas. A lembrança da juventude deixa-lhes a nostalgia nas palavras e no olhar. “Não faltava a uma missa do parto que fosse. E andava meia hora a pé para chegar à igreja, noite dentro”. Bernardete move a cabeça e suspira. Este ano, o pároco decidiu celebrar as missas do parto às 5.00, 6.30 e às 20.00, alternando os horários pelas paróquias da Fajã do Penedo, Boaventura e Ponta Delgada. Começam dia 15. As primas prometem devoção e cumprir a tradição.
Entre os mais jovens, porém, há quem ainda espere um verdadeiro Natal para a Fajã do Penedo, além das festas e do calendário. Em poucas palavras, reclama-se um novo olhar para o norte, capaz de atenuar décadas de esquecimento e discriminação em relação à costa sul da ilha. Incentivos, investimento, aposta nas acessibilidades são as prendas há muito desejadas.
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