“Like” que eu gosto

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Há alguns anos, um governante bem colocado, dizia à “boca cheia” e para quem quisesse ouvir, que quem pretendesse ter aspirações políticas era importante ganhar a simpatia de determinado orgão de comunicação social, de tê-lo na “mão” mais propriamente. E digo, para que não restem dúvidas, que não era Jardim nem estávamos a falar do Jornal da Madeira (JM), que há cerca de um ano deu lugar ao JM (J de J e M de M).

Não é que essa afirmação tivesse servido de grande coisa (serviu de alguma) a esse político, mas a verdade é que muitos, que não disseram o que ele disse, pensavam da mesma forma e passaram da teoria à prática num abrir e fechar de olhos, ao ponto de só mesmo os mais atentos, que são poucos como se sabe, estarem por dentro do assunto e da “prostituição” que grassa em certa comunicação social. Digamos que é uma “prostituição” mais democrática, mas não deixa de o ser à descarada. Para quem sabe o que se passa.

Não estou certo de ser exatamente assim como disse o tal político, que sabia bem do que falava uma vez que tinha larga experiência no assunto e conhecimentos suficientes para que se lhe possa dar o crédito de pelo menos saber o que dizia e as respetivas razões. Mas, ainda assim, não sei se é assim tão linear, pode ajudar, claro que sim, dependendo da forma, mas até se colocar o cenário do decisivo, tenho as minhas dúvidas num quadro que tem sido o vigente nos últimos anos.

Considero que tomar de assalto a comunicação social, pode resultar durante muitos anos, pode até dizer-se que ajuda a ganhar eleições (os media são palco privilegiado), mas um dia será preciso governar e fazer jornalismo. Podemos enganar muitas pessoas durante algum tempo, não podemos enganar todas as pessoas durante todo o tempo. E a história disse isso. E vai dizer mais.

Mas, ainda assim, há quem não entenda isso e continue a considerar que a governação deve ser preferencialmente feita nos media e sobretudo naqueles media onde, pensam eles, a comunicação passa mais rápido e mais facilmente. Mesmo sabendo que, por experiências anteriores, podem correr riscos do género “com ferro matas, com ferro morres”. Os media dão para isso mesmo, podem ir de ascensão à queda. Quem usa, como usa, corre riscos.

Já se sabe que fazer política para a fotografia passou a ser, não um documento (onde a qualidade fotográfica era observada criteriosamente, que não acontece agora), mas uma forma de exercer a “atividade” na sua mais elementar ação, provocando às vezes uma caricatura de procedimento e fazendo com que se assumam posições ridículas em cerimónias cuja seriedade exigiria sentido institucional e mais uma quantas coisas que a tal cumplicidade de comunicação, que se diz social, pretendendo esconder, não o consegue na totalidade, deixando transparecer algumas fragilidades.

Não podemos dizer que seja propriamente um processo novo, nem tão pouco estamos a retratar algo nunca visto em matéria de orgãos de informação, com maior gravidade e incidência a partir do momento em que a crise deu para tudo, sobretudo para aniquilar a informação através da manipulação financeira, hoje por hoje a mandar na coisa pública e a decidir quase tudo o que nos rodeia. Mas como ouvimos falar em “Mudança”, “Alteração de chip” e “Renovação”…

Acontece que, presentemente, esse quadro, que antes se circunscrevia a algumas situações, criticadas e tantas vezes justificadamente bem criticadas, pelo “modus operandi” pouco consentâneo com a vivência democrática que deveria ser vigente, surge agora numa forma mais abrangente, tanto nos palcos como nos utilizadores. Como é abrangente, a anormalidade passou a ser normal.

O tal político deve estar a rir-se. Chegou primeiro a esta, podemos assim dizer, “plataforma”, quando nem falavam de facebook, e agora já são tantos os utilizadores que se regem pelos “likes” e pelas partilhas. Partilham os assuntos uns dos outros, colocam “likes” a si próprios e assim segue esta vida muito virtual, mas muito “nova vaga”, que não é de fundo mas de superfície. A troco de algumas benesses que, também neste momento, já todos sabem em que consistem. Uma realidade que, neste momento, é um “medir forças”, em poderes locais e regionais, a ver quem dá mais. Mesmo que se chegue ao momento em que não poderão agradar a dois “senhores”. Como já aconteceu.

Compreende-se: afinal de contas, é no “like” que está a partilha. Na política espetáculo, como se tem visto, exemplo das eleições nos Estados Unidos, na deformação de princípios, de valores, da qualidade, da competência. Ao ponto do povo, que é soberano pelo voto, já nem saber o que decidir.

Mas esta “atividade comercial” tem contabilidade. E o problema é quando chegar a fatura. Temos eleições no próximo ano, autárquicas ainda por cima. E já é o que é. A verba já vai em montantes interessantes.

Certamente será um “fartote” neste enquadramento do “ajudei, ajudem-me”.

1– (Nem de propósito, recentemente, numa rede social, um douto assessor governamental, entalando mais do que resolvendo, avançou com uma autêntica “pérola” a propósito de um comentário sobre determinado assunto incómodo, então em acesa discussão pública contestando a atuação do Governo sobre as ribeiras do Funchal, com estudos feitos, certamente que sim, mas oscilando entre um muro a preservar e outro a abater, preservando e destruindo conforme o dia no facebook. E então aqui vai o que foi dito: “Pensei em escrever um artigo para o DN a falar das tuas reais motivações, mas considerei, e considero, que não tens suficiente importância para tal…” assim, clarinho como água. Pensei, logo escrevo, logo publico. Nem mais…Estamos conversados. É caso para dizer: “I like this”).