
Morreu João Lobo Antunes. Aos 72 anos, tornou-se ele próprio uma vítima de cancro, doença terrível dos nossos tempos que ele próprio ajudara, o mais possível, a combater, acompanhando os doentes não só com as suas capacidades científicas, mas também com um humanismo sem limites. Esta era, aliás, uma das qualidades que tornavam o neurocirurgião amplamente conhecido e reconhecido não só entre a comunidade científica, mas na sociedade em geral. Teve o mérito de aproximar, em várias das suas obras e em inúmeras intervenções, o público da ciência e de procurar humanizar esta, particularmente a medicina.
O Prémio Pessoa de 1996, o médico que tratou, entre tantos, o também saudoso escritor José Cardoso Pires, o irmão do escritor António Lobo Antunes e do autor e também médico Nuno Lobo Antunes, faleceu ontem. Hoje decorre o velório, a partir das 18 horas, na Basílica da Estrela, em Lisboa.
Tivemos o privilégio de o conhecer em 2000, ano em que nos concedeu uma extensa entrevista, na capital portuguesa, então publicada nas páginas de um matutino madeirense, que na altura ainda concedia espaço a trabalhos culturais sérios. Nela, o autor de ‘Um Modo de Ser’, livro publicado em 1996 e que revolucionara a forma de ver a medicina em Portugal, respondia com cautela à nossa pergunta: Teria a visão humanista nele projectada se transformado minimamente em realidade, nos últimos anos, no nosso país? Aquilo que ele pretendia para a medicina? “Nós temos introduzido no currículo nas faculdades de medicina, ultimamente, cadeiras de antropologia, de teoria do conhecimento… Há, de facto, uma maior preocupação com esses valores. É evidente que não fui eu o determinante de uma transformação de mentalidades, a minha intervenção nesse aspecto foi nula”, retrucava com modéstia. “Mas, na realidade, penso que, pelo menos obriguei muita gente a reflectir (…)”.
Calor, compaixão, capacidades comunicativas, eram todas virtudes que preconizava no médico, que este devia perseguir, cultivando-se, interligando dois mundos, o da ciência ‘pura’ e o das ciências humanas. A literatura devia ser a companheira do clínico, pois contribuía para o seu melhor conhecimento da natureza humana e para a capacidade de encarar o outro não apenas como um corpo doente, mas como alguém provido de ‘alma’, de personalidade, do que quer que lhe queiramos chamar. Por entre críticas à educação demasiado tecnicista proporcionada aos médicos, Lobo Antunes mostrava-se profundamente influenciado pela sua experiência estadunidense, de onde lhe vinha o conceito de ‘Terceira Cultura’, pregada por John Brockman, uma perspectiva de interdisciplinaridade que ressuscitava uma certa visão renascentista do conhecimento. Elogiava também, nesta perspectiva, o contributo do cientista António Damásio. “Aproximar ambas as comunidades culturais, a literária e a científica, é muito importante”, defendia. O conceito da ‘Terceira Cultura’, a seu ver, fazia lembrar a antiga filosofia natural. “De outra forma, esse divórcio só se vai acentuar, e isso, a meu ver, seria trágico”, sublinhava na nossa entrevista.
Alertou consciências, ajudou a alterar as coisas, era um ser humano acessível, afável e bom. João Lobo Antunes não exibia qualquer espécie de arrogância, antes uma seriedade serena que expressa um intrínseco respeito pelo outro, fosse ele qual fosse. A sua falta será sentida nos meios científicos e culturais. E muito mais, certamente, entre os que privavam com ele e o amavam por ser quem era.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





