O comboio dos tesos

 

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Pedro P. Coelho, à frente do seu neoliberal elenco oposicionista, vai-nos deixando, dia-a-dia, testemunhos da sua fé no jogo, no risco e na aventura política que a sua opção constitui.

Convenhamos que, desta feita, há alguma coerência e verdade na postura política de Passos Coelho.

Ao contrário de outros momentos em que, sem rebuço, por razões de mera estratégia eleitoral, tentou iludir, distorcer, amedrontar, fanfarronar e vender sucesso, – o seu sucesso -, depois da convicção intima que decidiu emprestar a um projecto privatizador, empobrecedor e anti Estado para Portugal, que chamou a si e conduziu, de forma arrogante e autoritária, para mal de todos nós, durante uns longos e pesados quatro anos e meio, Passos Coelho parece assumir hoje, pelo modo destrutivo, sectário, anacrónico e desesperado com que encara as políticas em execução – por não corresponderem às suas expectativas e ambição -, por parte do governo em funções, a convicção de quem fez o que devia e de que, em sendo agora, faria o mesmo. Ou seja, estribado numa comunicação social rendida à austeridade e ao empobrecimento de Portugal e dos portugueses, não percebeu ainda o que lhe aconteceu, e qual o verdadeiro sentimento destes últimos face ao seu mandato, e insiste, viciado no jogo, apostando no caos, na catástrofe, na desgraça, no apocalipse, não conseguindo rever, como lhe competia, o seu papel na oposição e o que esperam todos aqueles que, por filiação partidária ou uma qualquer outra razão, se não reveem na actual solução governativa e nas sua políticas.

E nós vamos assistindo à teimosia da “aposta”. Espantámo-nos com a teimosia na “aposta”. Os dados, publicamente conhecidos, vão-no desmentindo, mas ele, obstinado, qual jogador de casino, mantém a “aposta”, quer o pior, põe a sorte, sempre, no mesmo número, dizendo, muito provavelmente, para si próprio: – é agora… E não é; tudo como dantes, tudo desesperante, tudo a militar contra a sua salvação pela sorte, pelo milagre e esquecendo-se que escolheu um jogo de azar; o seu jogo de azar; o jogo do seu azar.

Quando adolescente dizia-se que, no Estoril, na Póvoa de Varzim, em Espinho, em suma, onde havia casinos e respectivas Gambling Rooms, às três horas da manhã era colocado à disposição daqueles que ali perdiam dinheiro e ficavam sem recursos para regressar a casa, um comboio, gratuito, a que era dada a designação popular de “comboio dos tesos”… Com esta predisposição para o jogo “pesado”, Passos Coelho arrisca seriamente uma viagem nesse simbolicamente triste e desesperançoso comboio.

Coadjuvado militantemente por um partido, o CDS/PP, indispensável para a maioria que cultivou, o ex-primeiro-ministro vê hoje, porventura sem surpresa, que o seu parceiro de percurso austeritário não tem grandes fixações, diversifica as “apostas”, joga noutros tabuleiros e parece não querer partilhar com Passos Coelho a deprimente viagem de regresso, sem honra nem glória, no fecho do período propício ao arriscado exercício do jogo.

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 E, por falar em jogo, e nos perversos procedimentos a ele ligados, ocorreu-me a palavra “batota”.

Imediatamente, passou à minha frente o filme da escolha do próximo Secretário-geral das Nações Unidas, a intenção, – de boas intenções está o inferno cheio, diz-se -, daquela importante organização das nações, de tornar mais transparente a referida escolha, criando as regras para o efeito e, já desta feita, o seu cumprimento por parte de um conjunto de candidatos, de entre os quais o nosso concidadão ilustre António Guterres, todos eles crentes na seriedade das partes, disponíveis para o debate de ideias e para exibirem nos “fora” próprios a sua visão sobre o funcionamento e o futuro das NU e, em consequência, para o acatamento da decisão de quem os avalia.

Decorreram cinco sessões, cinco votações, – em todas António Guterres ganhou, não sendo, porém, isso o que está, nesta apreciação, em causa -, parecia estarmos no caminho de uma escolha por mérito, com justiça e sentido profundo dos interesses da comunidade mundial e, de repente, uma nova candidata aparece para disputar esta escolha, sem ter de cumprir os passos que os outros candidatos protagonizaram e à revelia do que de mais nobre e sério se poderia admitir em tão importante momento da vida desta instituição. Veremos como terminará este episódio mas, seja qual for o desfecho… a ONU está, sem se importar, a manchar-se, a acumular irrelevância, a descredibilizar-se, e a perder influência no cumprimento das suas mais importantes missões, no âmbito dos seus meritórios desígnios.

É “batota”. E é como “batota” que deve ser tratada esta atitude de falta de respeito pelas nações, pelas instituições e pelas pessoas. Sublinho, por me parecer particularmente feliz, a analogia que o Presidente da República fez, deste caso, com a corrida da “maratona”… Quem entra a cem metros da meta, não pode ganhar a corrida. Algo está mal. Muito mal!

O Mundo, todo ele, atravessa um negro e espesso período de conflitualidade, de intrincadas relações entre Estados, de reposicionamentos geoestratégicos, de indefinições várias entre os decisores das políticas económicas financeiras, de periclitantes equilíbrios diplomáticos, de afinação sobre quem é quem no concerto das nações. Entende-se, assim, que seja este o momento ideal para que a Organização das Nações Unidas sublinhe, perante esse Mundo, com decisões como esta, que é uma associação sem credibilidade, parcial, indigna, não respeitável e capaz de tudo para levar a água ao moinho dos interesses, nada claros, dos seus membros mais poderosos.

O mais importante cargo das Nações Unidas, o de Secretário-geral, poderá, assim, ficar nas mãos dos bulgares oportunismos a que os agentes políticos espalhados pelo planeta nos vão, tristemente, habituando.

Nota:

O autor deste texto, por vontade própria, escreve de acordo com a antiga ortografia.