Carolina Pita quebra tabus e leva acupuntura até a Calheta para curar através da energia

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Carolina Pita: uma aposta com o coração na ajuda aos outros. Fotos DR.

Carolina Sofia Pita concluiu o ensino secundário mas procurou sempre fugir aos estereótipos convencionais das saídas profissionais. Ou os cursos clássicos universitários ou o mundo do trabalho? A escola, no seu modelo padronizado que tem, nunca a cativou. Já o mundo do trabalho lhe parecia uma solução, mas também não queria seguir as rotinas instaladas neste mundo competitivo. Tinha consciência de que a formação era sempre vital mas queria trilhar outro tipo de caminhada, sincronizada com os seus valores.

Assim nasceu o gosto pela acupuntura, um universo novo  mas aliciante, a ganhar cada vez mais adeptos também na Madeira. Depois do interesse, a formação no Porto e o exercício com gosto desta atividade na Calheta, mais precisamente na Luísa Center, onde tem o seu gabinete.

Normalmente, são profissionais com mais idade que abraçam este tipo de “medicina” oriental e não convencionada. Mas Carolina Pita despertou bem cedo para ela, após outras opções goradas, sempre com a convicção de que assim pode ajudar muita gente a sofrer menos. Ela própria se realiza com este trabalho, num recanto pacato e bem propício a transmitir essa energia como é a Calheta.

“Ver para além do óbvio”

Funchal Notícias: O que leva uma jovem de 28 anos a apaixonar-se pela acupuntura e não por um curso clássico universitário?

Carolina Pita – Não posso dizer que me apaixonei de caras pela acupuntura, prefiro dizer que a fui conhecendo aos poucos e estamos  a criar uma forte relação de Amor e principalmente de respeito uma com a outra. Tal como qualquer outra relação, as coisas são feitas dia após dia e tentamos que hoje seja sempre melhor que ontem. Sempre me interessei por tudo aquilo que não vinha nos livros e que não se falava muito na escola; sempre tive curiosidade de ver para além do óbvio e, de uma forma ou de outra, as medicinas complementares sempre me suscitaram interesse, mesmo na altura em que nem sabia o que elas eram.

Até que surgiu a oportunidade de enveredar pela acupuntura, depois de ter concorrido a uma universidade em Lisboa, para o curso de marketing e publicidade, depois de perceber que não queria isso, muito menos sair da Madeira para ir para Lisboa ou arredores. Depois, concorri também para psicologia, na Universidade da Madeira, e não consegui entrar, mas, como dizem e bem, nada acontece por acaso e não estou nem um pouco arrependida da minha escolha.

FN – Qual o tipo de formação que teve de fazer para aprender este ofício, onde e com quem?

CP – Tirei um curso de três anos no ITM, com base no Porto. Mas o professor vinha à Madeira nos fins de semana e, depois de um dia ter assistido a uma formação sobre doença mental, no Porto, com o prof. Tran viet Dzung, ex-médico de medicina convencional, decidi juntar-me à Instituição Van Ghi, em Leiria, onde acabei por fazer uma pós-graduação e outras formações durante mais três anos, naturalmente na área da acupuntura.

FN – Como define, de forma simples e clara, esta sua atividade de praticar acupuntura e quais são as suas principais vantagens?

Trabalhar com o Coração

carolina1CP-Eu gosto de ser clara e objetiva no desempenho da minha atividade. Aliás, costumo dizer que se as pessoas querem ouvir palavreado e só coisas agradáveis ou politicamente corretas, então, não vieram ao sítio certo. Tento que a educação e os valores que me incutiram caminhem lado a lado comigo e o trabalho também não é exceção. Não pretendo mostrar ser algo que não sou. Assim sendo, a minha forma de trabalhar é essencialmente com o Coração (pode parecer cliché, mas realmente não é). Poderia dizer mil e uma coisas mas é basicamente isto. Tenho um trabalho em que uso agulhas, para além de outras técnicas dentro da medicina tradicional chinesa/ medicina energética, mas um dia que me falte as agulhas não é motivo para não trabalhar, continuarei a usar o coração juntamente com tudo o que tenho vindo a aprender, porque as bases são muito importantes. No entanto, só nos vamos tornando melhores profissionais e seres humanos com a experiência, com as convivências, socializando com os outros e principalmente sem perder a Humildade.

Acho que a acupuntura é tão necessária na nossa vida como outra coisa qualquer. A acupuntura não é direcionada a ninguém em especial ou a alguma patologia específica; eu própria recorro à acupuntura, nem que seja para me reequilibrar física e mentalmente, todos nós precisamos disso com alguma frequência. Muitas vezes o mais importante não é o destino, mas sim o caminho até lá. Só o facto de procurarmos ajuda e fazermos algo por nós e acharmos que nós merecemos já é meio caminho andado para a cura.

FN – Neste percurso, quais são os principais obstáculos?

Fazer o trabalhinho de casa

CP- Sinceramente, o maior obstáculo que vejo é nós mesmos, é qualquer um de nós que não perceba que podemos ser o nosso melhor mas também o pior amigo. Não basta se tratar, é preciso querer se tratar, é preciso querer mudar, mudar certos hábitos, alimentares  e quotidianos, no geral. É preciso fazer o nosso trabalhinho de casa (coisas mínimas mas muito importantes), porque esse é um trabalho nosso, não é de nenhum terapeuta, de nenhum médico, de nenhum padre…

FN – Ainda há preconceitos ou tabus sobre a importância ou as benesses da acupuntura?

CP-Com franqueza, estou mais preocupada em quem quer andar para a frente e não perco muito tempo com quem tem a mente fechada ou que não tem  interesse ou nem sequer quer saber o que é a acupuntura, preferindo falar de cor. Respeito todos mas prefiro investir o meu tempo e a minha energia em quem precisa e vai fazer bom uso dela, em quem me procura na esperança que eu possa ajudar e em quem quer caminhar ao meu lado. Não podemos ajudar quem não quer ser ajudado, inclusive nós próprios.

FN – É uma profissão rentável?

CP – Agora, até me ri…  Se é Rentável? Quer saber se começo o mês sempre segura que nada me vai faltar e que está tudo minimamente controlado? Não, isso não acontece, até porque de certa forma trabalho por conta própria e não tenho ordenado fixo. Mas, como tudo na vida, tudo tem os seus prós e contras e, felizmente ou infelizmente, na sociedade em que vivemos precisamos de dinheiro e eu não sou exceção à regra, embora durante algum tempo me tenha esquecido disso. Mas acordo feliz e em paz, vou para onde quero ir, à hora que quero (mais ou menos), estou no gabinete a trabalhar quanto tempo quiser e de certeza que acabo estando mais tempo do que se tivesse que cumprir um horário fixo, porque adoro o que faço, com quem faço, no sítio em que faço e isso é tão bom que acabo por não sentir que “vou trabalhar”.

Optei por viver e trabalhar na Calheta. Quando cá cheguei, não havia ninguém a exercer e muitos nem sabiam o que a acupuntura era. Recusei trabalhos no Funchal, um dos quais  provavelmente com garantias monetárias melhores do que as que tenho hoje, mas achei que o meu percurso passava por aqui.

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O trabalho por paixão e não a pensar na rentabilidade económica.

FN – Considera que as entidades governamentais deveriam convencionar a acupuntura para não onerar aqueles que a procuram? Quanto custa uma consulta? Fazem também medicação? 

CP – Se isso for facilitar as pessoas e se isso for uma razão para que possam  recorrer com mais frequência, como estilo de vida/ como prevenção e não só como objetivo de cura, então sim, acho que deveria ser convencionada. Mas há uma frase que gosto: quem realmente quer, arranja um jeito, quem não quer…arranja uma desculpa. Conheço inúmeras pessoas que se fartam de dizer que adoram a terapia e que queriam vir mais vezes, mas não podem. No entanto, acabam por gastar noutra coisa que talvez não seja assim tão importante. É tudo uma questão de prioridades. Cada um tem que ser responsável pelas suas escolhas e posso afirmar que nunca deixei de ajudar quem precisava e queria realmente por questões monetárias. Há múltiplas formas de ajudarmos as pessoas.

Uma consulta de acupuntura é 30 euros mas, por vezes, também fazemos pacotes de 10 sessões para incentivar e garantir que o paciente volte e leve a sério o tratamento. Nestes moldes, é muito mais económico.

FN – Explique-nos algumas curiosidades e benesses da acupuntura. Fala-se de muita coisa, por exemplo, que através dela se pode emagrecer e até enfrentar melhor a menopausa, entre outras vantagens. Quais os problemas mais frequentes que as pessoas apresentam?

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Da parte do cliente, a vontade; da parte da acupuntura, a energia. Uma interação que pode trazer mais-valias.

CP -Sim, a acupuntura pode ser uma grande aliada no processo de emagrecimento, existem protocolos específicos para essa patologia, mas há um fator chave: bom senso. Não queiramos que os outros façam o nosso trabalho, como já referi anteriormente; não posso culpar o tratamento se depois de o fazer vou para casa todos os dias me sentar no sofá e comer como se o mundo fosse acabar daí a cinco minutos. Muitas vezes não emagrecemos porque energeticamente não estamos bem, daí eu considerar a acupuntura muito interessante, porque não vamos só ao efeito, tentamos ir à causa… É  todo um processo e muitas vezes de auto-conhecimento.

Quem fala de emagrecimento, tratamento de rugas e flacidez da pele, fala também da menopausa ou qualquer outra disfunção hormonal, dores de cabeça, insónias, dores musculares, etc… E, se necessário, em alguns casos recomendamos a fitoterapia(medicação natural). Mas sempre como opção do paciente.

A área que mais me suscita interesse é a mental, gosto muito de uma frase que o prof. Tran utiliza: “ O mental é para o homem como a pedra preciosa é para a  terra.”

O mental é a mãe terra, é o nosso todo, é a nossa base, jamais conseguiremos algo duradouro se não formos à raiz, à nossa essência.