Texto e fotos de Rui Marote
Apostar na educação e no civismo impõe-se cada vez mais. Quem sobe a Avenida do Infante, lado esquerdo em frente à Escola Cristóvão Colombo, nos jardins do Parque de Santa Catarina, encontra junto ao passeio uma lápide com a estrofe do canto V d’Os Lusíadas, do imortal Luís de Camões. Lamentavelmente, alguns atos de vandalismo têm contribuído para arrancar as letras da estância da epopeia da nação, deixando o canto poético à deriva como se fossem palavras cruzadas.
A Câmara Municipal do Funchal parece que deixou há muito ao abandono os nossos monumentos. Por isso, alertámos, no final do ano passado, mais precisamente para o monumento na Promenade do Lido, junto ao Hotel Pestana. Uma estrutura artística em ferro, que se oxidou, e que a Câmara prometeu recuperar. Porém, tudo continua na mesma até à presente data.
Para que os leitores possam fazer uma comparação com o que resta no Funchal da homenagem a Camões, o FN transcreve, com a devida vénia ao poeta que procurou exaltar a bela ilha da Madeira, a estância V do Canto V da epopeia Os Lusíadas.
“Passamos a grande Ilha da Madeira,
Que do muito arvoredo assim se chama,
Das que nós povoamos, a primeira,
Mais célebre por nome que por fama:
Mas nem por ser do mundo a derradeira
Se lhe aventajam quantas Vénus ama,
Antes, sendo esta sua, se esquecera
De Cipro, Gnido, Pafos e Citera”.
Compete agora aos leitores do Funchal notícias fazer uma comparação do número de letras desaparecidas com o original. Fica o nosso grito de alerta à Câmara Municipal e demais entidades que devem zelar pelo património. Afinal há dinheiro para cantores, também haverá para a defesa do património edificado.
Qual Camões, terminamos com o mesmo tom de desencanto do poeta, com que finaliza a sua epopeia, no Canto X (145):
“No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dũa austera, apagada e vil tristeza”.
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