O imponderável existe?

 Irene-Lucília--icon

As  ousadias  são  atitudes  que  nos  colocam  em  territórios de risco. Quando  isto  acontece, é  preciso  recorrer  a um pretexto  de  legítima curiosidade, para  justificar as  incursões naquilo  que  abala  os  apelos  do  nosso  entendimento  e nos  leva  à  sua  livre  expressão. Sem especiais  pretensões vou  referir-me  hoje  a  um  assunto  que  não  conheço  e  faço-o, humildemente,  para  tentar  conhecê-lo. Pensar  sobre  ele. Confessar,  à  medida  do  que possa  apreender dum  tema tão  complexo,  a  minha  fé em  descobertas  fundamentais  da  Humanidade.

Acabei  de  ler  há  pouco  um  texto  longo  que,  em  alguns  casos,  pode  tornar-se  perturbador. É  assim  a  Ciência: Maravilhosa  e  perturbadora. Um  texto  que  comporta  estranhas  revelações.  Talvez  a  palavra  “estranhas”,   não  seja  a  mais  adequada,  pelo  que  prefiro  substitui-la  por  “inesperadas”. Inesperadas,  por  decorrerem  num   longo  período  de  tempo “sem  tempo” que,  vindo  do  passado, de repente  se  faz  presente, e, ao  mesmo tempo,  futuro, na espantosa simultaneidade do universo.

No momento  em  que  se  afirma  definitivamente  a  descoberta  da  Física  Quântica,    revela-se  uma  extraordinária  conquista  de  longos  séculos  de  inquietação  e  procura:  Conhecer  a  vida  como  parte  integrante  do  amplo  conceito  do  Grande  Cosmos  de  onde  emanam  espantosas  informações que apontam  já  para as  grandes  revoluções  do  terceiro  milénio, com reflexos nas áreas  da  Biologia, da Medicina, da Filosofia  e  da  Teologia.  Que  origem  temos  nós,  os  humanos,  de  onde  viemos,  que  projecto  nos  integra  na  ordem,  na  harmonia, na  orgânica  do  universo,  são  perguntas  totais  e  constantes. Quanto às  respostas  são  vagas  e  carecem  de  verificação. A Ciência tem procurado  encontra-las  e  há  caminhos  percorridos  que  um  dia,  em  tempo  por  agora  não  vislumbrado,  hão-de  abrir-se  em  novas  perspectivas.

A História Universal  transporta,  desde  as  mais  remotas  épocas,  passos  e  factos  que  testemunham  visões  várias  sobre  a  realidade  do  mundo,  de  acordo  com  o  estádio  de  desenvolvimento  dos  povos. Para  além  dos  fenómenos  sensoriais,  os  povos  revelaram-se  sempre detentores  duma  percepção  extra-sensorial, conducente  à  contemplação  de  fenómenos  misteriosos  que,  sendo  desconhecidos,  passaram  a  designar-se  por  sobrenaturais, ou  seja,  fora  da  Natureza  conhecida,  fora  da  realidade  entendida  pela  nossa  condição  humana. A  partir  de  Einstein  a  realidade  assume  contornos  mais  alargados  que  ultrapassam  o  sensorial. Fora  do  que  se  vê  há  muito  mais  que  pode  ser  visto.

E  é  aqui  que  a  minha  atenção  se  prende,  no  que  a  Física Quântica  nos  vem  revelando  quanto  ao  Universo Físico  e  à  matéria.  No  centro  do  fotão (partícula  de  luz  que  transporta  energia  fotoeléctrica),  foi  descoberto  um  “vazio” ,  uma “ não  localidade” que  é  uma  região  de  prodigiosas  potencialidades por  onde  transitam  e  se  trocam informações,  onde  acontecem  “eventos” que  não  consomem  tempo,  nem  percorrem  distâncias. Manifestam-se  à  velocidade  da  luz,  à  revelia  de  tempo  e  de  espaço. Este  trânsito  de  partículas-ondas  permite a criação  de  formações  instantâneas  que  aparecem  momentaneamente  e  desaparecem  misteriosamente. Estas  partículas  podem  ocupar  dois  lugares  ao  mesmo  tempo. São  portanto  imateriais. O  Universo  Físico  é    um  processo  dinâmico  e  não  pode  ser  explicado pela  matéria  e  suas  propriedades  pois  estas  não  existem  reais e  independentes. * “ O uno  está  inexoravelmente  urdido  no  diverso,  desde  os  confins  do  infinito à  intimidade  do  átomo…Nesta  interconexão  o processo  causa-efeito  não  se  desencadeia  no  ritmo  cronológico,  mas  coexiste  fora  da  linha  do  tempo  em  um  presente  constante”. Está  aberto  o  caminho  para  o  imponderável,  o  absurdo, o mistério ou  o  milagre.  Numa  palavra  só: O  prodígio.  Na  senda  deste  poderoso  conhecimento  se  coloca a  existência  de  Deus,  possível  para  uns,  impossível  para  outros.  A  verdade  é  que  não  podemos  aceitar  os  campos  da  telepatia, a  existência da  ubiquidade, da  mediunidade, do  extra-sensorial, como  ilusões  de  mentes  doentes  ou  pouco  esclarecidas. A Física  Quântica revela-nos  que  a  própria  matéria  é  uma ilusão,  realidade  que  perturba  as  nossas  limitações  mentais  acerca deste  conhecimento.

Eintein  lega-nos  na  sua  experiência,  testemunhos  fundamentais  para  esta  compreensão. Quando  lhe  perguntaram o  que  era a  luz,  o  físico  respondeu: “ A luz  é  a  sombra  de  Deus…  Quando  abro  a  porta  para  uma  nova  descoberta, já  encontro Deus  lá  dentro. O  acaso  não  existe… Deus  é  hábil,  mas  nunca  enganador… Deus  é  a  lei  e  o  legislador  do  Universo…Mais  do  que  um  Deus  unipessoal  é  o  Deus  cósmico”.

Temos  então  sinais  de  que  Deus  existe  no  “não  lugar”  do  Universo ? Será  a  Física  Quântica  o  caminho  para  essa  fascinante  revelação ?

Esta  poderá  ser a  religião  do  futuro,  onde  converge  o  conceito  ecuménico  de  toda  a  espiritualidade.  O conceito  do  Monismo, referido já  por  grandes  filósofos , que  identifica a  doutrina  da  unidade, advém  da  “íntima  vibração duma  potência  única,  sempre  idêntica  a  si  mesma, em  todas  as  expressões  duma  realidade  concreta”.

Contra  a  visão  clássica  do  Universo como  uma  grande  máquina,  opõe-se  a  visão  quântica   do  grandiloquente  pensamento.  Neste  nosso  deambular  terreno   a verdadeira  “iluminação”   só  será  possível  quando  a matéria for  dominada  pela consciência  que se vislumbra  como  um  novo  domínio quântico,  e a  vida,  em  todas  as  suas  manifestações, alcançará  uma  nova  e  prodigiosa  dimensão.

A  minha  ousadia  mantém-se  ainda  ao formular  esta  pergunta: Será  Deus,  o  imponderável,  a  nossa  própria  consciência,  que  não  será  apenas  “nossa”, porque é Una e Universal.

Referências: FREIRE, Gilson – Da  Física  Quântica  à  Espiritualidade.

                     ARMADA, Fina d´, e FERNANDES, Joaquim – Fátima nos Bastidores do Segredo.


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