Filmagens em mercearia preparam DVD sobre quotidiano popular madeirense

mercearia monteverde folcloreO Grupo de Folclore MonteVerde está a preparar um DVD sobre as vivências populares de uma Madeira rural, marcada pelas características sociais e culturais dos finais do séc. XIX. As filmagens já começaram e têm como cenário espaços típicos, como a “venda” e as tabernas. O trabalho de recolha etnográfica, onde o folclore e a música tradicional assumem protagonismo, será apresentado no final deste ano.

As filmagens iniciaram-se em janeiro com o Cantar dos Reis de porta em porta, na freguesia do Monte, de onde o grupo é originário. Este fim de semana, foi a vez da mercearia, ou da “venda” na gíria popular, espaço central na vida das pessoas e das localidades afastadas da cidade. Era aqui onde o povo cantava após um dia de labuta na terra e onde se dava expressão a uma das formas mais típicas do folclore madeirense: o Xaramba.

O cenário escolhido para a recriação das cenas e das atuações foi a “Mercearia do Avô”, em São Roque, no Funchal. Um espaço comercial ainda no ativo e que mantém muito do espírito e do ambiente das antigas vendas e tabernas, graças à preservação do mobiliário original e de peças antigas.

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O FN foi encontrar os elementos do grupo MonteVerde trajados a rigor e acompanhados dos instrumentos típicos. A acompanhar os trabalhos estiveram o presidente e o diretor artístico da coletividade, Alexandre Rodrigues.

Foram necessários cerca de vinte participantes, entre figurantes, cantadores e xarambistas, e tocadores de viola de arames, braguinha e rajão, para recriar o dia a dia na tasca. Os homens reuniam-se aqui após a jornada de trabalho, num ambiente que chegava a ser frenético, pois o álcool, não só inspirava como induzia ao confronto, muitas vezes físico.

Durante todo o domingo, o elenco deu corpo às cenas mais pitorescas passadas nas antigas mercearias, locais que respiravam o pulsar das localidades e replicavam as convenções sociais da época. A venda dividia-se ela própria entre zona de abastecimento de víveres e de taberna, onde às mulheres era vedada a permanência e o consumo de bebidas. Às mulheres não lhes era reconhecido o direito a assistirem aos despiques na tasca. Quanto muito poderiam espreitar ou recolher o marido embriagado ao final da noite, correndo sempre o risco de censura.

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Este e outros episódios foram retratados pelo grupo MonteVerde, durante as filmagens do passado fim de semana, num trabalho de compilação mais abrangente sobre o universo etnográfico social e cultural das gentes da Madeira. Trabalho esse que irá ser desenvolvido ao longo deste ano e divulgado em DVD.

“É nossa preocupação preservar quadros típicos do quotidiano popular de uma Madeira de finais do séc. XIX, recuperando vivências, formas de cantar, dançar e trajar, sem esquecer os espaços onde aconteciam”, explicou Marco Mendonça.

Segundo o presidente do grupo folclórico, o DVD pretende resgatar e preservar para memória futura um património já esquecido das gerações mais novas e dos madeirenses espalhados pela diáspora. “A divulgação destes aspetos da cultura popular tradicional servirá de apoio e referência a muitos outros grupos folclóricos da emigração, no sentido de se manterem fiéis aos aspetos mais genuínos do nosso património”.

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Natividade Mendonça integra o elenco do grupo folclórico MonteVerde e foi uma das impulsionadoras da sua recuperação em 2002, depois de quase trinta anos de suspensão. Natural do Faial, onde nasceu há mais de sete décadas, lembra com carinho os dias de infância e o papel da mercearia na ligação da localidade ao exterior. Era ali que se vendiam o esfregão de alumínio, o bacalhau e o azeite a peso, mas era também o único local onde existia telefone e onde se fazia a distribuição do correio. Numa altura, em que as notícias passavam de lombo para lombo em voz alta, a “venda” era os olhos e os ouvidos do que se passava lá fora e o ponto de encontro das gentes do sítio.

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Foi com agrado que pode interpretar cenas do passado popular na “Mercearia do Avô”, em São Roque. É das que, no Funchal, se mantêm mais conservadas e fiéis. Um reconhecimento que satisfez o proprietário do edifício, Luís Afonso, para quem a manutenção do estabelecimento vai para além do negócio. “É manter viva a memória de um tempo que aos poucos está a desaparecer. É pena. As autoridades deveriam apoiar mais os empresários que lutam pelo património”.

As próximas filmagens já estão marcadas para final de abril e versarão sobre os cantares que acompanham o espírito e os jogos tradicionais alusivos à Quaresma e à Páscoa, como é o caso do “belamente”.

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Para além da vertente sociológica, o projeto procura ainda recuperar o património folclórico, nomeadamente o Xaramba, forma de expressão popular caraterizada por um despique entre duas ou mais pessoas (normalmente do sexo masculino), onde se evocam temas satíricos ou sentimentais.

O projeto conta com o apoio da Direção regional de Cultura, da Câmara Municipal do Funchal e da junta de Freguesia do Monte.