A classe política que temos

icon-joao-lucasUma nota prévia com dois pontos: um – falar é fácil, concretizar as coisas, fazer acontecer é muito mais difícil; dois – no meio disto tudo existem pessoas sérias e competentes, bem entendido.

O país merece a classe política que tem. O que nos deveria merecer – a todos nós eleitores – uma reflexão séria sobre as nossas responsabilidades em votar em tais partidos e pessoas.

Vem isto a propósito do actual governo português. Ainda a procissão vai no adro e já chovem dúvidas e notícias negativas, interna e externamente, sobre a nova política económica e orçamental.

Não tenho qualquer rebuço em admitir que a situação de falência a que o país desembocou em 2011 resultou de um conjunto de políticas implementadas por sucessivos governos anteriores, do chamado arco da governação, cujo clímax demencial foi atingido com o governo Sócrates. Não foi este último governo socialista o único e inteiro responsável pala situação de falência a que o país desembocou, mas o que ajudou relevantemente a tal.

Depois de as famílias e as empresas portuguesas terem enfrentado três anos muito difíceis impostos pelo processo de ajustamento económico e orçamental, anos em que o desemprego disparou e a riqueza produzida diminuiu brutalmente – basta recordar os anos de 2011, 2012 e 2013 em que o PIB caiu respectivamente 1,8%, 3,3% e 1,4% – os portugueses mereciam um outro caminho de esperança e prosperidade.

Após o ciclo de aperto, realmente em 2014 a economia portuguesa iniciou um período de retoma, muito embora lento, mas com fundamentais sólidos, devolvendo aos portugueses fundamentadas razões para almejarem um futuro melhor.

A economia passou a dar sinais de crescimento, estabilidade orçamental e geração de excedentes. Assim, a previsão de crescimento do PIB de 1,6% em 2015, estabilização da Divida Pública – previsão de 125,2% do PIB para 2015, face a 130,2% em 2014 – com excedentes nas Balança Corrente e de Bens e Serviços – a Setembro de 2015, de respectivamente 1,2 e 2,6 mil milhões de euros – tinham os portugueses legitimamente fundadas esperanças de vir a ter progressivamente melhorias na sua vida.

Digo progressivamente porque não é possível fazê-lo de outro modo, dada a fraca capacidade de crescimento da economia portuguesa e o elevadíssimo valor da dívida pública que é necessário refinanciar ciclicamente.

Mas o governo socialista quer fazer de outro modo, quer cumprir as promessas eleitorais e satisfazer simultaneamente as exigências do PCP e do Bloco, depois de ter corrido com a Coligação. Vai acabar mal.

Não tardaram a chover as notícias negativas sobre a política económica e orçamental do novo governo. E o prémio de risco com que os investidores classificam a dívida portuguesa está a alargar face a outros países do euro. Ou seja, o país quando necessitar de financiar-se por razões de gestão orçamental irá pagar sucessivamente mais caro, até atingir um limite em que entra novamente em incumprimento.

Um país que tem uma Dívida Pública de 231 mil milhões de euros não pode andar a fazer experiências. Devia, e é possível, alargar o cinto da austeridade de forma progressiva e controlada.

Finalmente, o governo deve estar ao serviço das pessoas, contribuir para a melhoria das condições de vida, mas não é o que parece. Parece que apenas importa as luzes da ribalta e o ego próprio.