Porto de contrastes: beleza gelada numa cidade massacrada pela crise

porto 5 Quando passamos pelas ruas históricas do Funchal, não deixamos de ter a alma condoída pelas nortadas da crise que ditaram o encerramento de grande parte do comércio local, tornando-as labirintos de sombra em contraste com o fulgor de outrora. São Ruas da Carreira, da Queimada, das Pretas, dos Netos e de tantas outras identidades cujo comércio foi sucumbindo à estação da austeridade.

porto 2Noutro patamar, muito mais amplo e cosmopolita, somos testemunhas das marcas que a mesma crise deixou e continuar a deixar numa grande cidade como o é o Porto: dezenas e dezenas de lojas com portas e janelas seladas, prédios devolutos e uma sucessão de outros tantos imóveis vencidos pela velhice e pela degradação inexorável dos tempos.

Por entre a brisa de inverno cortante e o olhar turvo pela chuva, ao olhar para esta paisagem vem-nos à memória o Porto Sentido de Rui Veloso: “Ver-te assim abandonado/ nesse timbre pardacento/ nesse teu jeito fechado/de quem mói um sentimento….

E esse teu ar grave e sério/ num rosto de cantaria / que nos oculta o mistério/
dessa luz bela e sombria”.

porto 3O forasteiro, como nós, tenta erraticamente o diálogo entre uma pequena cidade como o Funchal e um colosso como a Invicta e mais uma vez constata que a crise económica bem tem vergastado as cidades do nosso país. Não, não somos os únicos a ver o nossos comércio tradicional naufragar nos tempos do capitalismo selvagem. Ante o silêncio, a geada e a correria do quotidiano, os cidadãos resistem estoicamente a tempos tão adversos que só a ilusão tenta camuflar como pertencente ao passado.

Apesar da solidão e da mágoa que estes retratos citadinos nos deixam, prevalece a esperança que venham outros tempos que regenerem os atuais. Já ninguém acredita que há Indias por descobrir e  especiarias para encher o império de abundância. Mas se a Madeira tem hospitalidade para oferecer, o Porto toca-nos o coração com a cortesia da sua gente, como se o frio e o cinzentismo invernal nem sequer existissem. E são estes traços de caráter que não passam nunca de moda nem sucumbem às crises cíclicas dos tempos.

 

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
num rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

[refrão]
Ver-te assim abandonado
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento