As Eleições para a Presidência da República

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I – Depois da maior abstenção de sempre e duma campanha eleitoral morna, rotineira, sem emotividade, e disputada como se fosse uma reeleição, com a maior parte dos grandes partidos fora, as juventudes partidárias em casa ou nas discotecas, os secretários-gerais nos palanques e sem explicitamente dar a cara por qualquer candidato; o vencedor antecipado Marcelo Rebelo de Sousa, que com certa ironia designaram como o «Presidente Pescada» que antes de o ser já o era, ganhou facilmente o ato eleitoral para a Presidência da Republica Portuguesa.
Na verdade, numas eleições presidenciais em que desde sempre os eleitores votam muito mais nas pessoas do que nas ideologias partidárias, Marcelo Rebelo de Sousa, cuja candidatura vinha sendo modelada há mais de dez anos no horário nobre da televisão, logo na primeira volta ganhou espontaneamente esse ato eleitoral, sem ter a necessidade de fazer muitas promessas, nem elaborar um esgotante programa eleitoral, ou se responsabilizar com grandes compromissos.
Na verdade, bastou-lhe fazer uma campanha gourmet com propaganda à volta de visitas às pastelarias e às farmácias, comendo bolinhos e dizendo rodriguinhos, empregando uma postura de cidadão afável e coloquial, muitas vezes pairando acima da realidade e do seu próprio partido, espalhando afetos, sem fazer ondas e diligenciando estar de acordo com tudo e com todos.
Apesar de tudo, a direita trauliteira de Passos Coelho e do irrevogável Portas dos submarinos não pode cantar de galo, e afirmar de peito cheio que ganharam as eleições, como ridiculamente deram a entender na noite eleitoral. Em primeiro lugar porque Marcelo Rebelo de Sousa fugiu o mais que pôde das colagens dessa direita neo-liberal, tendo-se apresentado como o único rosto da sua candidatura, cultivando um discurso próprio e de cariz centrista e social-democrata, onde chegou a defender a adoção por casais do mesmo sexo e combateu as taxas moderadoras que penalizam o direito ao aborto.
De facto, Marcelo fez uma campanha virada para o centro esquerda, o centro direita, e muitas vezes piscando os olhos para a esquerda, e também teve até o cuidado de deixar bem claro que gostaria «que o governo de António Costa tivesse quatro anos» de governação, defendendo ainda o estado social, o fim da austeridade pela austeridade e sublinhando que «tudo deve ser feito para recuperar a Europa das pessoas e da solidariedade».
E no próprio discurso de vitória, Marcelo Rebelo de Sousa não se afastou um milímetro desses propósitos, manifestando até a intenção de fomentar a unidade nacional e promover as convergências políticas, de modo que não espanta que o partido socialista do finório António Costa não tivesse indicado qualquer candidato formal, arriscando-se perder as eleições com todo o roído que isso traria, quando tudo tinha a ganhar com o que acabou por acontecer.

II- No Continente, o PCP e o seu candidato Edgar Silva, em consequência de diversos factoes e contradições que por falta de tempo não analisaremos, teve um mau resultado, apesar de com grande empenho e muita generosidade ter desenvolvido uma extenuante campanha para defender com muito rigor soluções a fim de construir um tempo novo e inverter o rumo de crise e submissão nacional, tais como o aprofundamento do regime democrático, afirmando, defendendo e fazendo cumprir a Constituição de Abril; promover o desenvolvimento económico; a defesa dos direitos dos trabalhadores e da classe média; garantir o estado e os direitos sociais lutando contra a pobreza e a exclusão social; atender à diáspora portuguesa; e defender intransigentemente a independência nacional.
Porém na nossa Madeira o PCP e também o nosso Edgar Silva recebeu o justo reconhecimento de mutos madeirenses pelo trabalho que tem vindo a desempenhar durante numerosos anos ao lado dos trabalhadores, da classe média e das populações, tendo o PCP sido o segundo partido mais votado no arquipélago, com mais de 20.000 votos, quando antes a CDU nunca tinha conseguido ultrapassar os 7.000 votos; o que certamente será um grande e muito valioso contributo para continuar a «sonhar impossíveis» e partir para a continuação da nobre tarefa de transformar esta injusta sociedade.


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