
Maria do Carmo Teixeira de Aguiar Watts Rorigues da Cunha Santos faleceu. Sensivelmente pouco tempo depois do marido, Tomás da Cunha ter também partido deste mundo. A Madeira fica pobre com a morte deste casal e paupérrima com o desaparecimento inesperado de Maria do Carmo Rodrigues.
O FN presta homenagem ao ser humano singular e à mulher de cultura, empreendedora e incansável que ela era, em toda a linha. Tendo nascido num berço “fidalgo” e gerido ao longo dos anos uma herança valiosíssima, Maria do Carmo Rodrigues nunca se deslumbrou com o luxo e tinha sempre uma mão para estender a quem mais precisava, fossem amigos ou anónimos. Vem-nos à memória uma notícia de uma família desalojada, publicada há cerca de dois anos, no Diário de Notícias, e ela a telefonar-nos sem delongas: “Como posso chegar ao contacto dessa família? Eles não podem ficar na rua!” Era assim a “Dra Carmo”, como lhe chamávamos.
Sim, vivia numa quinta afidalgada quase no centro do Funchal. Mas com muita solidão e a amizade sólida de poucos. Sim, tinha hotéis de luxo como era a “menina dos seus olhos”, o Regency Palace. Sim, tinha e tem inúmeras moradias fechadas no centro da cidade e na Região e outros bens de legítimo direito. Não, não vivia feliz nos últimos anos da crise e do que ela trouxe à superfície dos gestores sob a sua alçada. Sobrevivia sim à solidão e aos desgostos da vida. Uma inesperada queda em Londres limitava-lhe os movimentos e apoiava-se num andarilho. Depois, a morte do companheiro de sempre, depois o fecho compulsivo do seu Café Golden Gate, a “sequina do mundo”, depois o fecho do Hotel Regency Palace, as dívidas acumuladas por gestores que não prezaram a dádiva de servirem esta mulher, depois a amargura e a saudade, os enganos e partidas da idade… Quando corre dinheiro à tripa forra, as amizades sobram; quando o vil metal desaparece, corre um inevitável frio de solidão. Uma lição que os homens das grandes bolsas deveriam ter sempre em conta.
Mesmo limitada e com o desgosto na alma do futuro dos trabalhadores dos investimentos que tinham fechado portas, Maria do Carmo sofria em silêncio; estava habituada à luta que a vida nos reserva. Afinal, tinha obra feita: fundou o Centro Cultural John dos Passos, na Ponta do Sol, coordenou e dinamizou como ninguém a Biblioteca Luso-Americana, na Quinta Magnólia, escreveu e publicou livros, dinamizou e apoiou muitas bibliotecas das várias escolas regionais, colaborava com o Lions Clube do Funchal, e estava sempre pronta a apoiar um projeto que envolvesse levar o outro a aprender mais e ela própria também a aprender.
Que nos desculpem os leitores, mas vamos ficando com a sensação de que pessoas desta casta vão escasseando cada vez mais na Madeira. O que se nota é a lógica do “dente por dente, olho por olho…”, ou então, “dou-te cinco e dás-me seis”, ou ainda mais comum, “dou-te 5 e pagas-me 15”. Maria do Carmo sempre usou outra tabuada porque o seu coração era maior do que as tabuadas deste mundo.
Sabem ao que esta mulher, habituada a viajar pelo mundo, dizia aos jovens sobre a emigração, recomendada pelo anterior Primeiro Ministro? Não façam isso porque não há um El Dorado lá fora mas muita, muita escravatura. Antes deles irem, ela punha-se na pele dos necessitados e pedia que resistissem na linda Madeira.
O FN não sabe como dizer nos momentos em que o vento leva as palavras e muitos pensarão que elas porventura brotarão da rotina de assinalar quem habitualmente parte deste mundo. Não é claramente o caso. Descansa-nos a ideia de pensar que ela estará ao lado do seu marido, um perda que lhe tirou o sorriso. Lá em cima, já não falarão dos credores nem na perda de um património incalculável, desbaratado por muitas mãos que todos bem conhecemos e lamentamos. Mas que ninguém julgue ninguém. Sim, falarão de descanso eterno e de pedir a Deus que ajude preferencialmente os pobres: os famintos de amor, os desempregados, os diminuídos mentalmente, os reclusos, as vítimas de violência doméstica, os nossos idosos tão abandonados e vítimas de maus tratos, os pobres de atributos físicos e de espírito…
Descanse em paz Dra Carmo, assim como o seu marido. Condolências à família, em particular à irmã, outra grande mulher, Margarida Camacho.
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