Será que o Pai Natal também usa cálcio mais?

Carlos Fino

Eu devia era falar das iluminações. Ou do despedimento do Mourinho. Ou da extinta PàF ter votado em bloco ao lado do PS depois de o coerente Passos Coelho ter declarado que o governo do PS deveria demitir-se no instante em que precisasse dos votos da direita, que nunca lhos emprestaria. Mas o que me apetece mesmo é bradar:

– Abaixo o cálcio mais e morte ao Calcitrin rapid!

Explico: faço parte da multidão alegadamente com cálcio a menos desde os trinta anos, a contar pelas aldrabices com que a publicidade me aterroriza antes dos telejornais, durante as manhãs e as tardes generalistas e a todas as horas em que um pobre coitado resolve ligar a televisão e se esquece de fechar os ouvidos e de olhar para outro lado. Já vi imagens explícitas do que me asseguram serem os meus ossos, mais cheias de buracos do que um queijo suíço. E ouvi vozes sádicas em fundo a descreverem como os ossos dos velhos de mais de trinta anos se tornam quebradiços e se partem que nem caniços por dá cá aquela palha. E, pior ainda, vi filas intermináveis de gerontes suburbanos papagueando como a vida deles mudou desde que foram acolhidos entre os eleitos a quem pagaram para dizerem umas imbecilidades em vídeo sobre as qualidades do cálcio, nomeadamente o cálcio mais. Com certeza que todos eles recomendam cálcio mais! Um deles até detalha como, antes, lhe doía tudo quando brincava com o neto, mas que, agora, é o neto que ainda tem de comer muito milho até ter metade da renovada energia do avô.

Para não falarmos do Júlio (Isidro) ou da Simone, que também endossam as virtudes do cálcio com uma desenvoltura de quem toma calcitrin ou cálcio mais desde criança, de contrário onde é que arranjariam energia para decorarem e debitarem tanta prosápia, com um ar tão entendido, sem perderem um dente ou fazerem uma luxação catastrófica a cada movimento do maxilar?

Por isso, é em legítima defesa que declaro:

– Abaixo o cálcio mais e morte ao Calcitrin rapid e a outros cálcios de menor consideração, mas de equivalente efeito terapêutico, de cujos nomes agora não me lembro! E graças, muitas graças ao Infarmed e à Ordem dos Farmacêuticos, que resolveram começar a agir, embora tarde, valha a verdade, contra a charlatanice empreendedora, que usa e abusa da televisão, incluindo a pública, para aterrorizar as pessoas e lucrar com isso.

Entretanto, o trauma de acordar encharcado em suores, de pesadelos em que os meus ossos são federações de buracos em risco de colapso iminente, é que já ninguém me tira.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.