Nelson Carvalho: “Em 2014, surgiram em média duas novas drogas por semana”

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Nelson Carvalho investe na prevenção junto dos jovens e orienta também os pais a lidar com o problema da toxicodependência dos filhos.

Num momento em que as autoridades têm vindo a intercetar transportes ilícitos de droga na Madeira, em elevadas quantidades, o FN aborda o fenómeno e dá a palavra a quem está no terreno. O diretor da Unidade Operacional de Intervenção em Comportamentos Ilícitos (UCAD) adverte para o facto de o paradigma da droga ter mudado muito nos últimos tempos. Na verdade, antes as drogas eram conhecidas e estavam tipificadas. Em 2014, diz Nelson Carvalho, passou a entrar em cena, em média, duas novas drogas por semana. Um combate difícil mas urgente e é sempre urgente investir na prevenção.

Funchal Notícias -Como define o estado atual do fenómeno da toxicodependência na Madeira, em termos de padrões de consumo? Quais as substâncias psicoativas mais consumidas e quais as faixas etárias?

Nelson Carvalho – A Madeira acompanha os padrões de consumo nacional. As drogas mais consumidas são o tabaco, o álcool, ao nível das drogas lícitas, e a cannabis, com uma prevalência significativamente inferior, no que se refere às drogas ilícitas. A faixa etária entre os 20 e os 40 anos é a que apresenta maior frequência de consumo. Quanto ao género, o álcool e as drogas ilícitas são consumidas maioritariamente pelos homens, enquanto o tabaco, nota-se um aumento por parte das mulheres e as diferenças não são significativas.

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FN – Considera que a Madeira tem os agentes e as instituições adequadas para combater o fenómeno da toxicodependência?

NC – Sem dúvida. A Madeira segue as linhas orientadoras das entidades nacionais e europeias em matéria das drogas e da toxicodependência. O combate a este fenómeno tem duas dimensões principais: o domínio da procura, nomeadamente a prevenção, a dissuasão, o tratamento, a redução de risco, minimização de danos e a reinserção social. Por outro lado, temos o domínio da oferta, a qual consiste na diminuição da disponibilidade e do acesso às substâncias ilícitas, a regulação e regulamentação do mercado das substâncias lícitas e respetiva fiscalização. O primeiro é da responsabilidade do Governo Regional, o segundo do Governo da República. Apesar dessa “separação” tutelar, existe um excelente trabalho de colaboração e cooperação entre as várias entidades intervenientes no fenómeno da droga e das dependências.

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Na Madeira, há várias frentes de apoio que ajudam a evitar cair em situações como esta imagem documenta.

FN – Desde 2012, na RAM, institui-se a proibição às drogas legais, encerrando-se as lojas de venda livre, designadas “smartshops”, mas sabemos que a Internet configura-se como um mercado de fácil acesso a estas substâncias para os jovens. Como comenta?

NC -A Madeira foi pioneira na criação de uma legislação que regula a venda das chamadas novas substâncias psicoativas. Sabíamos que a legislação não ia resolver este problema, contudo, o encerramento das smartshops diminuiu a disponibilidade destas drogas e, por conseguinte, houve um decréscimo significativo do seu consumo. As admissões no serviço de urgência, bem como, o número de internamentos na Casa de Saúde São João de Deus diminuiu. Estas novas substâncias passaram para o mercado ilícito, à semelhança das drogas clássicas. O paradigma da droga alterou-se, em 2014, surgiram em média duas novas drogas por semana, colocam-se novos desafios e a Internet é um deles. É fundamental criar um quadro legislativo de âmbito europeu mais ágil e eficaz para combater esta realidade.

FN -Qual tem sido a estratégia implementada pela UCAD para atuar face ao fenómeno da toxicodependência?

NC -A nossa estratégia tem sido desenvolver e implementar um conjunto de programas, ações, campanhas preventivas diversificadas e ajustadas aos vários contextos onde intervimos, tendo sempre presente as características geo-demográficas e culturais dos vários concelhos da RAM, o seu modo de vida, bem como o nível de abertura das entidades para esta temática. Temos atuado mais na adolescência e no início da idade adulta, que são as faixas etárias com maior propensão para os consumos. Dada a diversidade deste fenómeno, a nossa ação assenta em parcerias públicas e privadas com os vários setores da sociedade madeirense. Nota-se uma maior sensibilização social para esta problemática e temos vindo a assistir a um aumento gradual de organizações que cooperam connosco. Quero aproveitar esta oportunidade para agradecer-lhes todo o interesse e empenho demonstrado.

FN-De que forma a UCAD se tem ajustado às novas tendências de consumo de droga?

NC – A equipa da UCAD recebe periodicamente formação técnico-científica, geralmente através de colegas de várias entidades nacionais. Por outro lado, temos grupos de trabalho com as entidades regionais, nacionais e internacionais que trabalham nesta área, os quais constituem espaços de partilha, reflexão, desenvolvimento e implementação de estratégias para lidar com as tendências deste fenómeno. Estamos perante um fenómeno multifatorial e muito dinâmico, o que vem reforçar a ideia que a aposta na prevenção constitui a nossa melhor ferramenta. A prevenção é feita para e com as pessoas.

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Nelson Carvalho lembra que é preciso que os jovens tenham objetivos e autonomia para seguir um rumo que não passe por comportamentos aditivos.

FN -Qual é a atuação do serviço perante a constatação de consumos no decurso das intervenções preventivas bem como das notícias publicadas?

NC -A UCAD tem um plano de atividades anual no qual estão plasmadas as principais linhas de orientadoras de atuação, tendo por base dados do ano anterior, bem como o conhecimento técnico-científico e o meio onde atuamos. Naturalmente se surgir situações “anómalas” ou novas, intervimos de modo a minorá-las. No âmbito da nossa intervenção, quando surgem situações de consumo tendo em conta a sua gravidade referenciamos caso justifique para os serviços competentes.

FN – A UCAD disponibiliza um Gabinete de apoio e aconselhamento à população. Que solicitações recebem e qual tem sido a estratégia adotada para abordar situações de consumo de drogas? Que respostas disponibilizam?

NC – É um gabinete aberto a toda a população. Temos recebido solicitações por parte de instituições como as escolas, associações e outras e por parte de pais, professores e outros profissionais. O nosso objetivo é orientar, aconselhar, esclarecer e encaminhar quem nos procura por forma a lidar melhor com as situações apresentadas. Estamos no contexto preventivo, pretendemos sobretudo formar e informar os utentes, fazer com que o assunto da droga e das dependências seja feito abertamente e sem tabus. Este serviço pode ser feito presencialmente como também através do telefone 291720780 ou por mail spt@iasaude.sras.gov-madeira.pt. Nos casos em que há consumos de drogas por parte dos filhos, a estratégia consiste em avaliar a intensidade, frequência e tipo de substância, junto do jovem. Envolver os seus pais, apoiá-los com estratégias preventivas e interventivas, nomeadamente sinais de alerta, comportamentos e atitudes a ter, formas de monitorizar o possível consumo. Este gabinete naturalmente que tem esta estratégia nos casos de início de consumo. Nas situações de consumos mais prevalentes encaminhamos para os centros de saúde e/ou a Unidade de Tratamento da Toxicodependência.

FN – Algumas vulnerabilidades que caracterizam diferentes grupos podem requerer um nível mais diferenciado de intervenção, como por exemplo, a adolescência é uma fase caracterizada pelo risco.

NC- A adolescência caracteriza-se pela maior predisposição para correr riscos, experimentar e explorar novas situações entre as quais a experimentação e o consumo de substâncias psicoativas lícitas e/ou ilícitas. Nesse sentido a UCAD tem uma série de projetos e programas destinados a esta faixa etária ao nível escolar, desportivo, recreativo e comunitário. Alguns destes destinam-se a grupos específicos de jovens (prevenção seletiva)

FN -Como se encontra dotada a RAM em termos de equipas de intervenção em dependências?

NC – A Madeira tem várias estruturas no Domínio da Procura: ao nível da prevenção tem a UCAD; em termos da dissuasão existe a Comissão para a Dissuasão para a Toxicodependência e os Centros de Saúde e a UTT para o tratamento, redução de riscos e minimização de danos. É importante realçar que os Centros de Saúde atuam ao nível do consumo de cannabis, têm consulta de alcoologia e alguns têm consulta de cessação tabágica, juntamente com o Serviço de Pneumologia do Hospital Dr. Nélio Mendonça. Por último e não menos importante, temos a Casa de Saúde São João de Deus que acolhe em regime de tratamento doentes dependentes do álcool e drogas.

FN – Como incutir nos jovens, famílias e população em geral a mensagem preventiva?

NC – A mensagem preventiva deve ser incutida numa perspetiva contínua tendo em conta o nível de desenvolvimento, desde o meio familiar, o meio escolar, desportivo, laboral e comunitário. Esta mensagem deve assentar numa educação orientada para a responsabilidade, autonomia, respeito pelos limites, para a expressão exteriorização e interação adequada dos afetos, cumprimento das regras de modo a promover escolhas saudáveis promotoras de bons hábitos e estilos de vida. Cada contexto tem o seu papel na prevenção do consumo de substâncias psicoativas. Por outro lado é igualmente importante disseminar a perspetiva de que cada um de nós é um agente preventivo, todos temos um papel preponderante nesta luta, não podemos simplesmente assacar responsabilidades aos outros.

FN – E para os jovens, que mensagem?

NC – Vivam de forma feliz, saudável, procurem objetivos de vida, sigam os seus sonhos e os seus ideais sem recorrer ao consumo de drogas. As suas características pessoais e o apoio da família, escola, amigos e comunidade são mais que suficientes para que isso seja alcançado.