Refugiados: o grande dilema

Jesus Maria Sousa

Tenho resistido à tentação de refletir publicamente sobre a deslocação massiva dos refugiados à Europa, até porque, neste momento, estão já todos os argumentos lançados sobre a mesa: uns a favor e outros contra, dentro da legitimidade, que assiste a cada um, de ter ideias próprias sobre uma questão demasiado sensível e que toca a todos nós. Vozes carregadas de emoção soerguem-se, acaloradamente, em discussões familiares e entre amigos, acompanhando um processo doloroso de dilaceração da Europa, do País e da própria Madeira.

Ao invés de sumariar os argumentos que fundamentem uma ou outra posição, esta reflexão procurará compreender o conflito cognitivo interno por que passa a Europa, no âmbito dos valores que a caracterizam. Falar da Europa é falar do mundo ocidental, com formas de pensar e agir que remontam à nossa tradição greco-romana, patente no raciocínio lógico-matemático que utilizamos no nosso dia-a-dia (argumentários silogísticos para sustentação de uma teoria ou tese que se pretende defender, com recurso à dialética e à oratória, até em mesa de café), e à nossa tradição judaico-cristã que, sejamos ou não crentes e praticantes, nos confere identidade, uma identidade cultural mais ampla, de povo Europeu, apesar de toda a diversidade que este espaço geográfico comporta.

Estes dois pilares da nossa identidade não nos deixam virar a cara a quem está em situação de desespero, de fuga à guerra e ao tráfico humano, em busca de sobrevivência apenas, com base num argumento lógico e cristão: amai-vos uns aos outros como eu vos amei; se amardes o próximo como a ti mesmo, estareis a amar a Deus. Podemos aqui abrir um parêntesis e referir que, apesar dessa costela cristã, temos sido muitas vezes indiferentes ao sofrimento de quem nos rodeia. Só que o nível de exposição mediática desta tragédia, culminada com a publicação da foto do pequeno Aylan Kurdi na praia turca, teve o condão de despertar a tal veia anestesiada perante a dor do outro, com que cada um se procura defender.

Constitutiva da nossa identidade cultural também, temos o usufruto das letras e das artes. Ultrapassada a fase do obscurantismo medieval dominado pela Igreja Católica, detentora de conhecimento (não nos esqueçamos de que os reis eram analfabetos), expurgando-o de todo o pensamento grego que não validasse os dogmas religiosos (quem não se lembra de “O nome da Rosa”, de Umberto Eco?), Igreja essa que apelava também à guerra santa, marca-nos também, enquanto Europeus, o retorno à Antiguidade Clássica (chamemos-lhe Renascença, Renascimento), com todo o seu quê de retorno ao prazer dos sentidos, durante séculos abafados, sob a ameaça do pecado e do fogo dos infernos.

E a completar o quadro da mentalidade Europeia e do mundo ocidental, em geral, a Revolução Francesa trouxe consigo valores inalienáveis, marcando uma nova era para toda a humanidade (será mesmo?), pois o que nos parece tão evidente e incontestável agora, não o era então: “Liberté, Égalité et Fraternité” é também a marca da nossa cultura ocidental moderna. Liberdade de caminhar de calções na praia do Porto Santo, sem me sentir ameaçada por ser mulher, ter os mesmo direitos e deveres, independentemente da minha raça, cor, género, religião, opção político-partidária ou determinação sexual.

Ora, é este meu dilema que a Europa está a viver, neste momento. Por um lado, ela é o baluarte da civilização, com valores que foram sendo construídos e aprimorados ao longo de séculos e que lhe conferem identidade: defesa dos mais fracos, respeito pelo outro, solidariedade e humanização. Por outro lado, ela não deixa de ter a consciência do risco que envolve, precisamente por fazerem parte do seu ADN cultural estes mesmos valores, o acolhimento de uma outra cultura no seu seio, que pode, a médio ou a longo prazo, destruir aquilo que de mais nobre e precioso a Europa detém: a sua própria cultura ocidental.

Enquanto a grande fissura político-social que se operava na modernidade resultava de ideologias (o mundo dividia-se entre bloco ocidental, bloco de leste; esquerda, direita; marxismo, capitalismo; patrões, trabalhadores… Onde estão essas ideologias no mundo atual? Não andamos todos com o passo acertado sob os ditames neoliberais?), ninguém tem dúvidas de que hoje, num tempo de modernidade líquida (Zygmunt Bauman), de caos ou pós-modernidade, os grandes conflitos no planeta resultarão de diferenças religiosas, étnicas e culturais.

Em que é que ficamos, então?

Não é possível a Europa e o mundo ocidental ajudarem a resolver o problema na ORIGEM, problema esse de que também “fomos” responsáveis?