Caro Miguel Nóbrega,
antes de mais, lamento saber que esteja a ter insónias ao ponto de ter de escrever umas linhas aos nossos governantes.
Por achar que a sua carta ao Sr. Presidente (Pressupondo que é ao Dr. Miguel Albuquerque que se refere) é no mínimo dissonante nos fatos narrados, sinto-me tentado a corrigir alguns deles e alertar-lhe para os perigos da desinformação.
Não sei se o sr. Dr. Miguel Albuquerque já respondeu à sua carta ou se sequer o pretende fazer, seja como for se o fizer verá que não será muito diferente de mim no conteúdo ou na forma.
Começámos pelo significado de “xenofobia”: Aversão aos estrangeiros, ao que vem do estrangeiro ou ao que é estranho ou menos comum. = XENOFOBISMO
Apesar de ser verdade o que diz, “A xenofobia, bem como a homofobia e o racismo, nascem do apedeutismo, inclemência e insciência.”, não posso concordar que o “…excesso de notícias relacionadas com mortes, loucura, radicalismo e extremismo que provêm destes muçulmanos…” seja sinónimo de um “saber rigoroso” e definitivo. Ler toneladas de conteúdo na Internet em fontes duvidosas não é uma forma inteligente de se informar.
Não podemos pactuar na ideia que: se alguns extremistas são muçulmanos, logo todos os muçulmanos são extremistas. Como aluno do secundário (presumindo que é bom aluno) deve ter aprendido sobre as “falácias” em Filosofia. Se não, aprenderá este ano provavelmente. Mas seguindo essa lógica podemos ensaiar o seguinte cenário para demostrar o quanto falacioso é: Não tem muito tempo decorrido desde rebentaram vários escândalos na igreja com as revelações de abuso sexual a crianças por parte de sacerdotes, tanto em Portugal como no estrangeiro. Pondo em prática este raciocínio: Alguns padres são pedófilos, logo todos os padres são pedófilos. Então ninguém deveria ir a igreja ou conviver com eles, muito menos crianças. Um absurdo, um disparate não concorda!?
Por isso talvez tal como o sr. Presidente, eu não encontro outro significado para esta aversão ao “outro”, ao “estranho” ou ao “menos comum” do que “xenofobismo”.
Mas deixemos de navegar pelos infinitos tons-cinza da Filosofia. Abracemos fatos.
O sr. Presidente foi eleito para representar o povo. Seria uma perda tempo e dinheiro fazer uma consulta ao povo através de um referendo, -forma legal de saber a população com mais 18 anos e recenseada concordaria com a entrada de refugiados.
Mas caso o Miguel não saiba, o sr. Presidente é obrigado pelos Valores da União Europeia, Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela Constituição da República Portuguesa e pelos seus próprios valores morais, a tomar decisões a favor dos refugiados. Acredito piamente que o sr. Presidente, licenciado em Direito, advogado, ex-professor e com um extenso currículo invejável, tomou a decisão mais correta dos pontos de vista legal, moral e político.
Tenha cuidado Miguel, não interprete tudo o que lê como sendo verdade ou profecia. Por exemplo: as previsões de Andrew Hosken ou de outros opinantes, são opiniões pessoais. Essas pessoas escrevem livros ou artigos sobre assuntos que sabem em primeira mão, que são “quentes” e vão vender exemplares. E claro que você é livre para acreditar no que quiser, mas é igualmente livre para duvidar. Se eu fosse tomar por verdade tudo o que já li, então poderia dizer a título de brincadeira que já sobrevivi duas vezes à 3º Guerra Mundial, e umas quantas vezes ao fim-do-mundo. O Estado Islâmico pode ambicionar dominar a Península Ibérica até 2020, mas é só isso mesmo. Uma ambição. Não podemos perder a cabeça e começar a dar “patadas” a todos o que se pareçam com um muçulmano. E queira você ou não “O Estado Islâmico é um grupo reduzido! E nem todos os muçulmanos são extremistas!”
Quanto à sua pergunta retórica que refere Hitler, Bin Laden, Hussein entre 400 refugiados… bem… além de ser um cenário divertidamente improvável, não terá lógica sem um contexto temporal e factual.
Exercitemos as nossas capacidades cognitivas:
Imagine o mesmo navio, Hitler entre os 400 refugiados em 1932. À data não tinha cometido nenhuma atrocidade contra a Humanidade. E você não tinha nenhuma bola de cristal para adivinhar que no futuro ele iria se tornar no monstro que foi. Rejeitaria os refugiados? Se sim em que base? Diferenças? Xenofobismo?
Agora imagine o mesmo cenário em 1945. O que faria? Simples, identificada a pessoa ou pessoas responsáveis pelos crimes contra a humanidade durante a Segunda Guerra, prendê-los-ia e levava-o(s) a justiça certo!? Os restantes restantes refugiados? Mandava-os para trás só porque Hitler viajava entre eles?
Lanço a pergunta de forma mais direta: É correto julgar uma pessoa com base na sua origem? Pois está implícito na sua carta que todos os refugiados que vêem do Médio-Oriente e Norte de África são extremistas. Mesmo que negue, os juízos estão feitos.
Mas falemos na sua extensa experiência no drama da emigração. Sim, muitos jovens abandonaram o pais para fugir a miséria, a procura de uma vida melhor. Eu próprio saí do meu pais, da minha Ilha da Madeira, da minha terra, a Camacha. Há dois anos que vivo na Alemanha, país que me acolheu. Mas se calhar você não conhece bem este lado da realidade pois só vê os outros partir. Nunca viveu por certo essa experiência de deixar tudo para trás. Dou-lhe a experiência na primeira pessoa: apesar de estar num pais da UE fui descriminado e alvo de xenofobismo, não direto e explicito, mas aconteceu.
“Fugi” do meu país para fugir à miséria e ao desemprego. Posso voltar ou mudar-me livremente para outro país da UE. Por isso, posso imaginar o quanto deve ser difícil para os refugiados e ponho-me no “lugar” deles: abandonar a sua terra natal sem saber se lá podem voltar, fugir à morte, arriscar a vida ao atravessar o mar Mediterrâneo, andar quilômetros a pé até criar feridas nos pés e cair de exaustos e ainda serem recebidos com desprezo e atos de xenofobia.
Seja crítico, informe-se, não aceite uma opinião\notícia como verdade absoluta. Afinal você é estudante, aja como tal. Aprenda. Não seja inculto. Eu também perguntei-me porque é que centenas de muçulmanos rejeitaram comida da Cruz Vermelha. -Na verdade o que aconteceu foi muito simples: Rejeitar comida foi uma forma de protesto que encontram depois de estarem trés dias num impasse debaixo de chuva e a lhes serem negado atravessar a fronteira pelas policia da Macedônia. O que você faria estivesse a trés dias à chuva, exausto, barrado por arame farpado e impedido de continuar a sua jornada? Foi um protesto.
E já agora a notícia do pedido de retirada da cruz da bandeira suíça remonta a 2011 ( engraçado, 4 anos depois é ainda notícia) e foi feita por imigrantes Muçulmanos com argumento que a Suíça é sociedade multicultural. Insólito. Mas também já vi cada pedido e abaixo-assinado em Portugal que já nada me estranha.
Não vá atrás do rebanho de ignorantes. Na Alemanha, país onde vivo, não foi “imposta” a “obrigatoriedade” que as raparigas tapassem toda a sua pele. Foi sim recomendado pelo diretor de uma escola que não usassem tops ou minisaias na presença dos refugiados que estão temporariamente alojados no ginásio da escola. Ideia que até foi muito apoiada por muitos docentes nas escolas em Portugal. Compreendo que o diretor de uma escola que tem cerca de 200 refugiados alojados além de toda a comunidade escolar ao seu encargo, não queira que haja situações que possam causar “mal entendidos”.
Rematando: rejeitar\repudiar pessoas com base na sua cultura, origem, religião, costumes e ter medo irracional disso, só tem uma definição no dicionário de português: xeno-fobia, ou seja xeno- (grego ksénos, -e, -on, convidado, estrangeiro, estranho) e fobia (grego -fóbos, medo, receio).
Espero que no futuro seja mais sábio e pesquise antes opinar. Muitas vezes uma história tem mais que dois pontos de vista. Não veja só a verdade que lhe interessa, como disse “O pior cego é aquele que não quer ver.”
Espero sinceramente que recupere o seu sono normal, por até é muito importante dormir bem para ter melhor rendimento nas aulas.
Cumprimentos,
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