Para sempre, Evita

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Há 63 anos, falecia em Buenos Aires Maria Eva Duarte de Perón, a ‘Evita’,  um ícone das massas, símbolo do populismo e demagogia da política sul-americana, mas também, e ao mesmo tempo, uma mulher de força indiscutível no seu tempo, apreciada pelo povo humilde, praticamente santificada pelo regime de seu marido, Juan Domingo Perón, mas ao mesmo tempo pela devoção popular.

Tão grande foi a sua força simbólica que acabaria por se tornar, indiscutivelmente, uma figura da cultura ‘pop’ do século XX, celebrada em filmes e musicais – particularmente em ‘Evita’, de Andrew Lloyd Weber. Quem não se lembra de ‘Don’t Cry For Me, Argentina’?

Nascida em 1919 nas Pampas, mudou-se aos 15 anos para a capital para se tornar uma actriz de rádio, televisão, cinema e teatro. Enfrentou dificuldades, mas acabou por se tornar uma das actrizes mais bem pagas do seu país naquele período, pelo menos na rádio.

Conheceu o coronel Juan Perón, então secretário do Trabalho do governo argentino, numa gala num estádio em 1944, e rapidamente se tornou sua amante. Ele tinha 48 anos, ela 24. Tornar-se-ia sua mulher e cresceria politicamente à sombra do futuro presidente – da qual, no entanto, se emanciparia, mais tarde, para conquistar o seu lugar próprio.

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Foi através da sua fundação, criada para ajudar os pobres do seu país e trabalhadores precários vulgarmente conhecidos como ‘descamisados’ que Evita alcançou os píncaros do imaginário popular, obtendo uma autra de misticismo católico que quase roçava a santidade. Evita era efectivamente dedicada aos menos favorecidos e trabalhava longas horas neste seu projecto. Tornou-se, na realidade, fanática do mesmo, e uma revoltada com a própria existência da pobreza e da doença ao ponto de beijar as pústulas de leprosos e sifilíticos. Este tipo de atitude cristalizou-a na mente das pessoas mais simples como alguém que se torna quase a própria encarnação da bondade. Ao mesmo tempo, porém, Evita era muito consciente da sua feminilidade e do gosto pelo luxo, apreciando as jóias Cartier e os vestidos e ‘tailleurs’ de costureiros parisienses. Ao mesmo tempo, deu um forte impulso à afirmação da mulher na sociedade argentina do seu tempo, e fez uma forte campanha pelo direito das mulheres ao voto, que culminou na aprovação desta medida pelo senado, em 1946.

Após as visitas que fez a países europeus e que chamaram imenso a atenção dos media sobre ela, uma primeira-dama do Novo Mundo de visita à Europa, quase como uma ‘pop-star’, Evita tornara-se muito popular não só no seu país como no exterior, mas não deixou nunca de ter os seus detractores – e muitas vezes estes eram tão impiedosos como o regime peronista também o foi com os seus opositores. Quando a sua saúde começou a declinar, em 1950, e Evita foi diagnosticada com cancro cervical numa fase avançada, tal circunstância alegrou os opositores ao ponto de andarem na rua a proclamar, dois anos depois, aquando da sua morte: “Viva o cancro!”

Porém, três milhões de pessoas compareceram nas ruas de Buenos Aires para acompanhar o funeral de Evita. E, embora este fenómeno de exaltação popular tenha sido incentivado pelo regime, não restam dúvidas de que, para muitos dos que viviam nas franjas da sociedade, Eva Perón era uma espécie de mãe redentora. A sua figura permanece, até hoje, controversa como sempre.

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