Madeirense em Atenas justifica a decisão dos gregos: “O sofrimento não foi esquecido”

O ex-treinador do Panathinaikos garante que os gregos estão a resistir com tranquilidade às incertezas dos últimos dias.
O ex-treinador do Panathinaikos garante que os gregos estão a resistir com tranquilidade às incertezas dos últimos dias.

É a visão de um madeirense que partilha o quotidiano incerto dos gregos. Agostinho Faria, radicado na Grécia desde 1971, vive ele também dividido entre sentimentos de apreensão e de esperança. O ex-treinador do Panathinaikos está convicto numa mudança para melhor, fruto do referendo de domingo último. Para já, enaltece a coragem de um povo que soube dizer “não” de forma pacífica às pressões e interferências externas. “O sofrimento não foi esquecido”.

Assiste na primeira pessoa, mesmo no olho do furacão, ao terramoto grego do último domingo. Trata-se de Agostinho Faria, um madeirense que trocou Câmara de Lobos pela Grécia há 44 anos, por conta do futebol. Hoje, divide o seu coração entre a Madeira e o país à beira Mediterrâneo plantado. Vive a 10 quilómetros do centro de Atenas pelo que tem acompanhado de perto do dia a dia de um país que, nas últimas semanas, tem estado sob o olhar do mundo.

“Apesar da apreensão, as pessoas estão tranquilas e esperançadas numa alternativa mais viável. Não há problemas nem fanatismos”, sintetiza. “O povo quer é uma nova fase negociações, porque está há seis anos a sofrer com a austeridade.”

Quando falou à nossa reportagem ainda decorriam os ecos da última madrugada de segunda-feira. Nas suas palavras, o mesmo sentimento de confiança e de algum alívio pela vitória surpreendente do “oxi” no referendo a um terceiro resgate. Os gregos, no último momento, deitaram por terra várias sondagens e projeções que apontavam para um empate técnico. O “não” às propostas de Bruxelas e dos credores internacionais acabou por soar de forma mais retumbante, com uns expressivos 61% contra os 40% que se manifestaram a favor do plano do Eurogrupo. A estratégia quase emocional de resistência defendida pelo governo de Tsípras acabaria por sobrepor-se à racionalidade dos parceiros e credores internacionais.

Ingerência alemã decide o referendo

Agostinho Faria confessa que até para os gregos o resultado foi uma surpresa. Na semana que antecedeu o referendo, o endurecimento das posições entre o executivo de Atenas e o Eurogrupo, o fecho dos bancos e o racionamento nos levantamentos nas caixas multibanco faziam supor um recuo por parte dos helénicos, perspetivando-se um “nim” no referendo proposto pelo partido no poder, Syriza. Tal não veio a acontecer. Agostinho Faria faz a análise dos fatores que terão mudado o rumo dos resultados.

“O interior do país, mais atingido pela crise e pelas medidas de austeridade, foi decisivo na vitória do “não. Penso também que a última intervenção do ministro das Finanças alemão, a pressionar e a querer interferir com a democracia de um país, provocou indignação e fez o povo reagir no sentido contrário. O sofrimento não foi esquecido.”

Até este momento, o ex-técnico de futebol não tem encontrado indícios para preocupações do ponto de vista do abastecimento e do acesso a bens de primeira necessidade. “Por enquanto, não há falta de bens de consumo. Aquele primeiro impulso de correr aos bancos, às gasolineiras e aos supermercados já está normalizado. As únicas filas que se mantêm são as do multibanco, mesmo durante a noite”, explica. “As pessoas estão a gerir com muita calma todo o processo, mesmo quando se verificam os levantamentos controlados (€ 60 por dia). Aguarda-se com ansiedade e serenidade. Tem sido esta a lógica do povo no pós referendo”.

“Os gregos não são malandros”

Os tempos de que se avizinham não serão fáceis. O madeirense esclarece que o povo está consciente dos desafios que ainda terão de ser ultrapassados durante a fase das negociações. De uma coisa tem a certeza. “Os gregos querem um acordo com a União Europeia, mas querem sobretudo acabar com este impasse que já dura há cinco meses. Esta política de cortes cegos só tem afundado o país na pobreza”.

Agostinho Faria tem vivido ele próprio inconformado com as medidas de austeridade impostas, cujas consequências atingem sobretudo os mais vulneráveis.

“É impossível continuar neste modelo em que se corta pensões e ordenados. O povo quer pagar a dívida, mas com prazos mais alargados e de forma mais suave”, sublinha o madeirense, que entende ser a hora de retomar uma nova fase de negociações. “A Europa vai ter de negociar. Alguma coisa terá de mudar. Não vamos ganhar tudo o que queremos, mas é preciso compreender o sofrimento que atinge o povo”.

Tal como os gregos, sente que a situação está a chegar a um ponto de rutura e que o endurecimento das condições impostas pela Europa significam a médio prazo o colapso económico e social do país. Entende que o referendo constitui uma oportunidade não só para a Grécia como para o resto da Europa, no sentido de refletir sobre outras respostas de combate à crise.

“Tenho a certeza que daqui a um mês o povo verá os resultados positivos deste referendo, nos ordenados e pensões”, preconiza, lamentando os comentários e a imagem veiculada pelo resto da Europa. “Os gregos não são malandros. Vivem do seu trabalho”.

Na Europa não gostam de Varoufakis

No processo que agora se inicia, Agostinho Faria não hesita em apontar a Alemanha e a França como os intervenientes decisivos. “Estamos esperançados numa mudança de atitude por parte dos parceiros”, avança, comentando a demissão de Varoufakis como um efeito colateral no sentido da pacificação do processo. “Se calhar para o rumo das negociações terá sido melhor a sua saída. Não é pela vontade dos gregos que gostam muito dele. Não é popular é para os líderes europeus.”

A população de 11 milhões de habitantes, triplica no verão graças ao turismo.
A população de 11 milhões de habitantes, triplica no verão graças ao turismo.

Agostinho Faria nasceu e viveu a sua infância e juventude na Rua Nova da Praia, no coração de Câmara de Lobos. Há 44 anos mudou-se com a família para a Grécia, onde desenvolveu grande parte da sua vida profissional na área do futebol. Durante 35 anos, trabalhou como treinador, 12 dos quais ao serviço do clube da capital Panathinaikos, um dos mais proeminentes da Grécia. Já retirado das quatro linhas, o madeirense dedica hoje a sua vida à família, aos filhos e netos. Orgulha-se do trabalho desempenhado à frente dos vários clubes por onde passou. O sucesso alcançado permitiu-lhe integrar-se de corpo e alma na sociedade grega. “Nunca me senti emigrante. Este país acolheu-me como cidadão pleno desde a primeira hora”.

Agostinho Faria não esquece a sua terra natal, a Madeira, aonde regressa todos os anos para um mês de férias, mas encontra na Grécia o lar que pretende manter. “Tenho a minha família mais próxima aqui, os meus filhos são advogados, um deles a trabalhar no Ministério da Economia. Além disso, este país é um espetáculo. É bonito, tranquilo e tem uma energia fantástica, sobretudo nesta altura de verão. De abril a setembro, por exemplo, Atenas não dorme, sendo um destino muito procurado pelo turismo jovem”.

Composta por cerca de quatro centenas de ilhas e com uma população estimada em 11 milhões de habitantes, a Grécia tem no sector naval e no turismo os principiais motores da sua economia.