Novas tarifas aéreas deixam desporto amador em terra

Governo Regional garante que passagens a custos controlados levantam voo em setembro.
Governo Regional garante que passagens a custos controlados levantam voo em setembro.

O dossiê sobre o novo regime de subsídio à mobilidade não está fechado e há quem defenda benefícios ao desporto amador idênticos aos previstos para os estudantes. O Governo Regional não se pronuncia sobre a verba prevista no Orçamento de Estado nem o que acontecerá se esse montante se esgotar antecipadamente. Eduardo Jesus, o secretário regional que negoceia com Lisboa as tarifas aéreas entre a Madeira, o Continente e os Açores, é vago nas explicações e remete para julho a conclusão das negociações.

O Governo Regional não abre mão da lógica de que “o segredo é a alma do negócio”. Apesar das interrogações sobre o novo regime de subsídio à mobilidade do passageiro, anunciado no início de junho, Eduardo Jesus recusa-se a ir mais além. Pormenores só no próximo mês, altura em que os governos central e regional contam ter o processo negocial concluído.

“Esperamos ter tudo definido até finais de julho para começar a funcionar em setembro”. A posição oficial tem marcado pelo mesmo diapasão ao longo das últimas semanas. Ao que apurámos, está a ser ultimado entre as equipas da Secretaria Regional da Economia, Turismo e Cultura e da Secretaria de Estado de Transportes um documento que irá regulamentar o processo de atribuição do subsídio.

“Estamos a trabalhar”

No início do mês, Passos Coelho efetuou uma oficial à Região. Com ele vieram dois ministros, o dos Assuntos Parlamentares e da Economia, Marques Guedes e Pires de Lima, respetivamente. A comitiva chegou à Madeira com um pacote de boas notícias.

No caso do subsídio à mobilidade do passageiro, os governantes anunciaram que as ligações aéreas de e para o Continente teriam um valor máximo, à semelhança do que acontece no arquipélago dos Açores. Na prática, asseguraram, os residentes na Madeira e Porto Santo nunca pagarão mais de 86 euros e os estudantes 65 euros, valores que foram calculados em função das milhas percorridas pela aeronave.

O processo é semelhante ao que já existe, com o reembolso a ser processado aos balcões dos CTT mediante os comprovativos da viagem e fatura. A diferença é que o subsídio deixa de ser fixo. Em vez de 30 euros por viagem, configurará a diferença entre o valor pago pelo passageiro e o teto máximo estabelecido. Caso a viagem (ida e volta) tenha valor igual ou inferior ao índice máximo não haverá lugar a reembolso.

Ora, é precisamente esta imprevisibilidade que suscita interrogações. Sabe-se que será o Orçamento de Estado a suportar os encargos com as tarifas áreas dos residentes e estudantes madeirenses. Pergunta-se o que acontecerá se a procura for superior ao previsto. Ao Funchal Notícias, o secretário regional que tutela a área dos transportes foi muito evasivo, não só quanto ao total inscrito no OE para esta rubrica, como se será a Região a arcar com o remanescente. Apenas sublinhou que “estamos a trabalhar no sentido de esse montante não se esgotar”.

O pacote de 11 milhões já foi publicamente refutado. Sabe-se que no caso dos Açores, onde a medida foi aplicada em março deste ano, o Estado avançou com um máximo de 16 milhões. Para o apuramento do valor a afetar ao subsídio são tidas em conta várias projeções, nomeadamente as frequências de passageiros, a atual e a futura, tendo em atenção os eventuais efeitos que a aplicação das tarifas controladas poderá ter no aumento da procura de viagens. No entanto, a última palavra caberá sempre ao governo central.

Setembro é o prazo apontado para pôr a funcionar o processo. O Governo Regional quer que as novas tarifas sejam uma realidade a tempo de o novo ano letivo se iniciar. No entanto, receia-se que os procedimentos e trâmites legais necessários e o período de férias que se avizinha possam a atrasar o processo. É que depois de ratificado o documento negocial, há que aprovar em Conselho de Ministros e enviar para publicação.

Desporto amador de fora

Passado o brilho da cerimónia e o entusiasmo dos primeiros dias, o escudo criado à volta do assunto tem levantado dúvidas, sobretudo quanto às garantias de operacionalidade do novo regime de apoio e ao calendário inicialmente proposto. Há quem vislumbre alguma inexperiência da atual equipa governativa para lidar com os múltiplos desafios que a medida acarreta, nomeadamente na definição de um regulamento transparente, justo e ágil e que previna o risco de eventuais problemas que têm vindo a ocorrer no arquipélago vizinho.

Nos contactos que o Funchal Notícias efetuou há quem receie perder-se esta oportunidade para salvaguardar igualmente o desporto amador que, atendendo às suas especificidades de formação, deveria beneficiar do tarifário previsto para os estudantes, de forma promover os escalões mais jovens e a apoiar as famílias que neste momento têm de arcar com a totalidade das despesas inerentes à participação dos atletas nas provas fora da Região.

Ao que tudo indica, a questão do “bilhete corrido” para os residentes do Porto Santo não estará igualmente contemplada neste pacote negocial. O contrato de concessão por três anos que existe na linha aérea entre a Madeira e a Ilha Dourada é, de acordo com o Governo Regional, um obstáculo à alteração das regras. Mesmo assim, Eduardo Jesus diz tratar-se de uma matéria em aberto, estando ainda em análise por parte das equipas regional e nacional que negoceiam as ligações aéreas.

Relativamente às ligações com os Açores, e atendendo a que a distância é igual em ambos os sentidos, é de esperar que o preço máximo de tarifa seja de 119 euros para residentes e de 89 euros para estudantes, o mesmo tarifário que os açorianos pagam para se deslocar à Madeira.

Eduardo Jesus está descansado com as garantias previstas no processo de privatização da TAP.
Eduardo Jesus está descansado com as garantias previstas no processo de privatização da TAP.

Jesus garante, há quem acredite só vendo

Os partidos de oposição e mesmo alguns círculos mais próximos do executivo regional fazem eco de algumas críticas pelo facto de, até ao momento, não haver uma posição clara e inequívoca relativamente a pontos considerados essenciais. Para além do anúncio público de Passos Coelho, nada mais foi apresentado como garantia das medidas anunciadas. Nada por escrito, só declarações.

Perante o processo em curso da privatização da TAP e a eventualidade de haver uma mudança de governo em resultado das próximas eleições legislativas nacionais, exige-se maiores certezas quanto à garantia do serviço público e dos serviços mínimos.

Eduardo Jesus garante que o serviço público nas ligações aéreas entre a Madeira e o Continente está salvaguardado no próprio caderno de encargos que regulamenta a privatização da transportadora nacional. Relativamente à Região, o secretário entende que as acessibilidades são essenciais, sobretudo no que toca à frequência das ligações regulares.

Ao contrário do burburinho que rodeia o assunto, Eduardo Jesus diz-se descansado relativamente à salvaguarda do serviço público nas linhas para a Região por duas razões: a rota tem sido apetecível para a TAP ao longo dos anos e, acima de tudo, esta premissa consta do caderno de encargos, independentemente de quem compre a companhia.

Ainda esta semana, foi assinado o contrato de compra e venda com a Gateway, a empresa que por 354 milhões de euros ficará com 61 por cento da TAP. Feitas as contas, o Estado português deixa de ter poder de decisão, sendo esta posição de fragilidade o motivo de preocupação. Entende-se que o Governo Regional deveria ter deixado as questões do serviço público e dos serviços mínimos “preto no branco”, já na primeira fase de negociações e antes do processo de privatização ter começado.

O executivo madeirense já fez saber que concorda com o processo de privatização da companhia nacional, considerando ser melhor opção do que reestruturar. No entanto, vê com bons olhos o reforço de outras companhias a operar para a Madeira. Quanto mais melhor. “É importante chegar à Região de forma rápida e barata e é também essencial para os residentes que exista esta oportunidade de escolha em preço e em frequência”.

Eduardo Jesus aposta na entrada de novas companhias na linha da Madeira para que os preços possam ser estabilizados e nivelados a valores concorrenciais. A SRETC tem estado no terreno a tentar captar outras alternativas e espera para breve contar com mais uma companhia aérea a operar para a Região.

O subsídio de apoio à mobilidade do passageiro que está a ser negociado aplica-se apenas às ligações aéreas. A intenção do Governo Regional será, no futuro, apoiar também o passageiro nas ligações marítimas Madeira-Continente. No entanto, a questão do transporte marítimo está bem mais embrionária. Será objeto de concurso público a lançar pela República, encontrando-se as equipas de trabalho a estruturar o respetivo caderno de encargos. A missão é delicada, uma vez que se procura analisar detalhadamente a anterior concessão (Naviera Armas), em termos de mais-valias e condicionalismos.

ligacoes-aereas


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.