O valor das coisas!

Luís-Guilherme-de-Nóbrega-icon

Quando analisamos transações que envolvem muitos milhões concluímos que estas só são possíveis ou pela disputa de um reduzido número de pessoas abastadas pela aquisição de um bem apetecível ou pelo interesse de milhões de pessoas fanáticas por um certo clube, por uma certa religião, por uma determinada cultura (modus operandi) que leva ao enriquecimento de poucos e à fome dos restantes.

Há bem pouco tempo foi vendida uma das muitas obras do artista espanhol Pablo Picasso pela astronómica quantia de 159,3 milhões de euros. Les Femmes d’Alger (version O), de 1955, pintura de 1,14X1,46 metros que se tornou a pintura mais cara de sempre vendida em leilão, recorde batido pela Christie’s de Nova Iorque. Esta obra estava na posse de colecionadores privados que desta forma conseguiram ultrapassar o valor de obras como a do pintor Irlandês Francis Bacon vendida por 106 milhões de euros em Novembro de 2013 e a obra do pintor alemão Munch vendida em 2012 por 89 milhões de euros.

Se compararmos o valor da soma destas três obras, 354,3 milhões de euros, com o acervo de uma coleção privada portuguesa, a Coleção Berardo que é composta por 862 obras e que inclui uma obra do Picasso e outra do Francis Bacon verificamos que estas três obras, as mais caras do mundo, ultrapassam em 38,3 milhões de euros o valor de todo o acervo da Coleção Berardo avaliada em 316 milhões de euros pela mesma leiloeira, a Christie’s. 

Recentemente a nível clubístico veio a público a disputa por um treinador português, Jorge Jesus, que irá usufruir anualmente de uma verba que poderá chegar aos 6 milhões de euros como treinador do Sporting durante as próximas três temporadas e mediante prémios a receber por cumprimento de objetivos. A marca deste clube sobe com a febre dos adeptos que desde logo tornam-se em milhares de consumidores de produtos inerentes a esta marca,  que ainda assim não é comparável com as marcas mais valiosas no mundo do futebol. No topo da tabela surgem equipas como o Manchester United da Premier League, valendo um total de 914 milhões de euros, o  Bayern de Munique com 707 milhões e o Real Madrid com 661 milhões. Todo este valor por incrível que pareça, resulta da febre destes milhares de adeptos que dão valor a estas marcas e consequentemente perdem o seu poder de compra, a cada  dia que passa,  nos bens essenciais da sua família. 

Falando do valor da família remetemo-nos para as diferentes religiões que são tradicionalmente conhecidas pela importância que transmitem sobre a mesma, pela misericórdia dos mais necessitados e pela promoção do culto divino. Aqui também podemos ver como estas instituições desenvolvem a sua marca e o seu valor  resultado do seu património. 

A Opus Dei (Obra de Deus) é uma organização associada à Igreja católica que gere todo o seu património, muito dele adquirido através de heranças de pessoas crentes que depositam todos os seus bens à disposição da Igreja. Em Portugal o valor desta instituição ultrapassa os 50 milhões de euros e segundo um estudo encomendado pela revista Sábado em fevereiro de 2012 só dez dos edifícios associados a esta instituição foram avaliados em cerca de 85 milhões de euros. A fortuna da Opus Dei em todo o mundo (segundo valores de 2003) no que respeita a ativos avaliados era de 2,7 mil milhões de euros.

A Madeira não é exceção nesta matéria e já muito se escreveu sobre heranças deixadas por pessoas abastadas à igreja católica e no entanto muito pouco se sabe do valor real do seu património inclusivamente daquele que é visível tais como as igrejas, capelas e toda a coleção de arte sacra associadas a esta instituição isenta de impostos.

As obras de arte sacra são um dos muitos exemplos do património religioso que foram objeto da criação do Museu de Arte Sacra do Funchal e que segundo o senso comum é um património de todos nós à imagem das muitas igrejas e capelas um pouco dispersas por toda a nossa região. No entanto não temos informação sobre o valor real destas obras na sua componente artística, nomeadamente a associada à arte flamenga, mesmo que muitas vezes se defenda, dentro da própria diocese do Funchal: “valioso Património cultural e religioso não seja para usar como riqueza ou com fins lucrativos mas como um serviço religioso e cultural”. No entanto a sua avaliação deveria ser feita para que todos tenham a verdadeira noção de quanto vale este património dito comum.

Se em alguns casos deu-se à substituição de pinturas originais por réplicas colocadas nas igrejas onde as mesmas eram originárias, não encontramos razão aparente a não ser o valor patrimonial que a obra original possa ter. A sua função de: “…valor de mediação, de caminho para o sobrenatural.” está na imagem representada e não na mão de quem o pintou. 

A arte sacra necessita de ser compreensível e servir de ensinamento porque é uma “teologia em imagens”, logo deve representar as verdades da fé, não de um modo arbitrário, mas de exposição do dogma cristão com a maior fidelidade possível e com sentimentos autenticamente piedosos.

Concluindo: será que o nosso povo estoico está consciente que este património  também é seu, mesmo que passando por muitas dificuldades inclusivamente a fome?


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.